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terça-feira, 6 de setembro de 2011

O sobrevivente.

    Houve uma grande mudança na firma em que eu trabalho. Algo um tanto drástico, pois de um dia para o outro toda uma estrutura que parecia mais firme que uma rocha, ruiu. Não sei se é necessário dizer que no meio dos escombros que eu sobrevivi, mas foi exatamente isso que aconteceu. Sim, eu sobrevivi. Ainda não posso dizer se isso foi bom ou não. Talvez seja cedo para tirar esse tipo de conclusão.
   A essa altura, imagino que você já esteja se perguntando: e o que eu tenho com isso? Pera lá. Provavelmente nada. Trata-se de uma situação corriqueira: firmas mudam de dono, diretorias caem, chefias são trocadas, mandatos de políticos chegam ao fim e o retrato sai da parede para dar lugar a outro, não é mesmo?
    Porém, não sei se você está me entendendo. Mas vamos lá: o que acontece é que eu nunca vivi essa situação de ser sobrevivente. Aí vem a pergunta que não quer calar: sobrevivente por que, cara pálida? Sobrevivente. Aquela situação que o cara vive quando todos "desaparecem" e ele fica para contar a história. Vou lhe contar uma coisa: nunca vivi nada mais estranho na vida. Uma situação muito maluca, cara. Todo mundo quer saber tudo e você fica lá no meio sem saber o que fazer: se responde tem a sensação de que está entregando a turma que saiu, se cala parece estar escondendo coisas. Além do que fica aquela eterna sensação de traidor da pátria. Como se eu me sentisse culpado por estar vivo (?). O mais difícil de tudo mesmo é encontrar com os "mortos e feridos". A acusação vem com toda certeza, com dedo em riste e tudo mais:
- Quer dizer que você ainda continua lá!?
Dá até para ouvir o "traidor" escapar entre os dentes. Já pensaram em uma situação mais esquisita? Pois essa é mais. Dá vontade de pegar o boné e cair fora. Está bem. Eu sei que você está tentando ser gentil, mas pode fazer a pergunta:
- Por que você ainda não fiz isso? - dirá você, depois de uma certa exitação. - E você acha que eu tenho pensado em outra coisa nos últimos tempos? Só penso nisso. Mas aí vem aquela história de que empregado não deve pedir para sair e sim esperar ser mandado embora. Parece coisa de doido, mas esse é o tal motivo que me mantém nesse papel, pouco honrado(preciso dizer), de sobrevivente. Mesmo porque, apesar de tudo o que se diz por aí, arranjar emprego não está essa moleza toda não.
     Outro dia estava conversando com uma conhecida e ela me disse algo que me deixou bastante intrigado. Ela disse que esse papo de que a escravidão acabou é furado. Os empregos de hoje não estão muito distantes da vida escrava do passado. No fundo ainda trabalhamos em troca de comida e moradia e quando abrimos mão disso voluntariamente ou não, quase sempre, acabamos indo parar, literalmente, no olho da rua. Eu que o diga. Embora considere essa minha conhecida um tanto radical nas suas opiniões e posições, não posso deixar de concordar com ela.
    Um dado relevante é que se formos pensar bem, nós até somos capazes de viver com pouco ou sem dinheiro nenhum e até viver num mundo de incertezas financeira. O que nos impede é que somos (olha minha a conhecida aí de novo) escravos do consumo. Como ela diz, não conseguimos viver sem alguns pequenos luxos (serão luxos mesmo?) como os eletrônicos, carros, roupas, sapatos, uma moradia decente, praia, cinema e é, pelo menos no meu caso, o salário no final do mês que garante isso. Por isso, confesso, a ideia de abrir mão do emprego me causa tanto desconforto. Não que eu não seja capaz de encontrar outro, mas procurar emprego nunca foi o meu esporte preferido. Não me sinto bem no papel de desempregado, disponível. Sinto-me rejeitado, excluído. Talvez alguns anos de análise resolvesse isso, não é?
   Como ainda pretendo continuar no emprego, tenho que aturar as perguntas sobre a antiga administração, cada uma mais desagradável que a outra,
 - E aí, o que você acha? Agora está melhor, não? A outra administração não te dava esse conforto, essas máquinas novas, esse ambiente de trabalho onde reina a camaradagem, onde você pode falar o que pensa, pode dar opinião e se fazer ouvir. Está ou não está melhor?
Sem ter muito o que dizer, olho o indivíduo com cara de sobrevivente que, para manter essa condição deve, acima de qualquer coisa, manter a boca fechada.