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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Só a vida ensina. (novelinha roteirizada)

A partir de hoje,  todos os domingos, estarei publicando aqui no blog a novelinha roteirizada, de minha autoria: "Só a vida ensina".  A novela conta a história de Joel, um cara que se nega a crescer e encarar a vida de forma adulta e responsável e, por isso, acaba atraindo para si uma série de situações desagradáveis que vão levá-lo a ter que rever seus conceitos e atitudes diante da vida.
Com vocês o primeiro capítulo.

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 1

Autor: Julio Fernando

CENA 1 - INTERNA/NOITE - BAR TIPO “COPO SUJO”.
O BAR É UM LOCAL UM TANTO QUANTO ESCURO. HÁ APENAS UM GRUPO DE PESSOAS BEBENDO NUMA MESA. ELAS SÃO OBSERVADAS POR UM HOMEM QUE ESTÁ ATRÁS DO BALCÃO. ELE NÃO PARECE ESTAR FELIZ COM A PERMANÊNCIA DO GRUPO E MOSTRA-SE IMPACIENTE. O GRUPO RI, FALA ALTO, FAZ ALGAZARRA. SÃO EM NÚMERO DE SEIS, ENTRE HOMENS E MULHERES. TODOS ADULTOS, MEIA IDADE. TÍPICAS PESSOAS DA NOITE. ENTRE ELES ESTÁ JOEL GOMES, CERCA DE QUARENTA ANOS, O MAIS FALANTE DE TODOS:

JOEL – (FAZ SINAL PARA O HOMEM QUE ESTÁ ATRÁS DO BALCÃO) Ei,  Camarada...

HOMEM – (APROXIMANDO-SE DA MESA) – Pois não.

JOEL – Traz mais uma.

HOMEM – (TENTANDO SER EDUCADO) Sinto muito, amigo. É muito tarde.  Já passou da hora de fechar. Vamos deixar pra outro dia.

JOEL –  (IMPACIENTE) Eu quero a saideira, cara. (COM ESTUPIDEZ) Traz logo.

HOMEM – Já disse que não posso. Tô fechando... Só estou esperando vocês... Sejam compreensíveis. Amanhã abro o bar logo cedo.

JOEL – E daí? Traz a saideira e deixa de conversa. A noite é uma criança. (PARA OS AMIGOS) Aí, gente. O cara não tá querendo vender mais cerveja. Já tá rico. Tá querendo ir pra casa dormir... É por isso que esse país não vai pra frente. (A TURMA COMEÇA A GRITAR PELA SAIDEIRA, A BATER COM TALHER NAS GARRAFAS, ETC. POR FIM, O HOMEM ACABA SAINDO PARA BUSCAR A CERVEJA, TOTALMENTE CONTRARIADO)

CORTA PARA:

CENA 2 - INTERIOR/ NOITE. - CASA DE JOEL
APARTAMENTO SIMPLES, MAS ARRUMADINHO, SALA E DOIS QUARTOS.
JOEL TIRA A CHAVE DA FECHADURA FAZENDO BASTANTE ESTARDALHAÇO. CAMINHA CAMBALEANDO ATÉ A PORTA DO QUARTO. EMPURRA A PORTA E ENTRA.
CORTA PARA O INTERIOR DO QUARTO.
MOBILIÁRIO SIMPLES. AO ENTRAR NO QUARTO, JOEL SE JOGA NA CAMA DE ROUPA E TUDO E DORME. ALGUM TEMPO DEPOIS A PORTA SE ABRE E APARECE UMA MULHER. TEM CERCA DE UNS SESSENTA ANOS. É DONA MARGARIDA, A MÃE DE JOEL. ELA PARA DIANTE DA CAMA DO FILHO.

DONA MARGARIDA – (TIRANDO OS SAPATOS DOS PÉS DE JOEL) Você não tem jeito mesmo, Joel. Até essa hora na rua, bebendo. Quando é que você vai tomar jeito, meu filho? (SAI DO QUARTO, TRISTE)

CORTA PARA:

CENA 3 - INTERIOR/DIA - QUARTO DE JOEL.
JOEL DORME, RONCANDO, JOGADO NA CAMA.  O QUARTO ESTÁ TODO ILUMINADO, POIS A MANHÃ JÁ ESTÁ QUASE NO FIM. A PORTA SE ABRE E DONA MARGARIDA ENTRA. ELA SE DIREGE AO FILHO, CHAMANDO-O.

DONA MARGARIDA – Acorda, Joel. Já é muito tarde. Você vai chegar atrasado no trabalho. Acorda, Joel.

JOEL – (VIRANDO-SE  NA CAMA) O quê? Me deixa dormir em paz.

DONA MARGARIDA – Você  vai acabar perdendo esse emprego.

(DONA MARGARIDA TENTA UM POUCO MAIS E ACABA DESISTINDO. QUANDO ELA SAI DO QUARTO, JOEL PERMANECE DORMINDO A SONO SOLTO.)

CORTA PARA:

CENA 4 - INTERIOR/DIA - ESCRITÓRIO DE CONTABILIDADE ONDE JOEL TRABALHA.
É UM ESCRITÓRIO DESSES QUE LRMBRAM ANTIGAS REPARTIÇÕES PÚBLICAS.  SALA PEQUENA, TRÊS MESAS, COMPUTADORES ANTIGOS, MÁQUINAS DE ESCREVER, SOMAR, E MUITA PAPELADA.. HÁ DOIS FUNCIONÁRIOS TRABALHANDO. UM DELES É FÁBIO, 38 ANOS, ESTATURA MÉDIA. UMA PORTA SE ABRE E ENTRA UM HOMEM MAIS VELHO.  É OLAVO, O DONO DO ESCRITÓRIO.

OLAVO – Bom dia!

FÁBIO – Bom dia, seu Olavo.

OLAVO – (VÊ A MESA DE JOEL VAZIA) E o Joel? Ainda não chegou?

FÁBIO – Ainda não, seu Olavo.

OLAVO – Qual é a desculpa da vez?

FÁBIO – (SEMPRE CONSTRANGIDO) Não sei não, seu Olavo. A mãe dele estava meio adoentada. Acho que ele teve que levá-la ao médico.

OLAVO – (ABORRECIDO) Sempre a mesma coisa. Esse rapaz está brincando com a verdade. Se ele quer trabalhar, precisa cuidar do emprego.

(OLAVO SAI E FÁBIO OLHA PARA O COLEGA, COM AR DE PREOCUPAÇÃO)

FÁBIO – Joel não se emenda mesmo.

CORTA PARA:

CENA 5 - INTERIOR/DIA - QUARTO DE JOEL.
JOEL DESPERTA ASSUSTADO E VERIFICA AS HORAS NO RELÓGIO. PERCEBE QUE JÁ É TARDE, LEVANTA DA CAMA APRESSADAMENTE E SAI DO QUARTO.
CORTA PARA A SALA DO APARTAMENTO. DONA MARGARIDA ESTÁ SENTADA FAZENDO TRICÔ:

JOEL – (AFOBADO) Por que a senhora não me chamou, mãe?  Perdi a hora.

DONA MARGARIDA – Tentei te acordar várias vezes, mas você virava para o canto e dormia de novo. (TOM) Você está facilitando, Joel. Uma hora dessas, seu Olavo acaba te mandando embora e aí como é que vai ser?

JOEL – Seu Olavo precisa de mim naquele escritório, mãe. Sem mim, aquilo não anda. (AJEITA A ROUPA PARA SAIR) Tchau.

DONA MARGARIDA – Não vai tomar café?

JOEL – (SAINDO) Não dá mais tempo. (SAI)

CORTA PARA:

CENA 6 - INTERIOR/DIA - ESCRITÓRIO ONDE JOEL TRABALHA
FÁBIO E O OUTRO FUNCIONÁRIO ESTÃO TRABALHANDO.  OLAVO ENTRA E SE DIRIGE A FÁBIO.

OLAVO – E então? Nosso turista já deu as caras?

FÁBIO – Ainda não, seu Olavo. (TOM) Do jeito que os hospitais andam cheios...

OLAVO – (IRÔNICO) Os hospitais andam mesmo muito cheios. (TOM) Portanto, se o abnegado filho da dona Margarida der o ar da graça, diz para ele ir até a minha sala. Preciso ter uma conversinha com ele.

FÁBIO – Pode deixar, seu Olavo.

(OLAVO SAI. FÁBIO FICA PENSATIVO)

CORTA PARA:

CENA 7 - EXTERNA/DIA - RUA DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
JOEL DESCE DE UM ÔNIBUS E ANDA APRESSADO PELA RUA. APROXIMA-SE DA PORTA DE UM PRÉDIO. O PORTEIRO, QUE ESTÁ POR ALÍ, OLHA PARA ELE CHEIO DE MALÍCIA:

PORTEIRO – Olha a hora que chega o marajá. Isso que dá ser patrão e não empregado. Um dia ainda arrumo uma boca dessas.

JOEL – Isso é pra quem pode e não pra quem quer.

CORTA PARA:

CENA 8 - INTERIOR/DIA - ESCRITÓRIO ONDE JOEL TRABALHA
MESMA SITUAÇÃO DAS CENAS ANTERIORES, OU SEJA, FÁBIO E O OUTRO FUNCIONÁRIO TRABALHANDO.  JOEL ENTRA TODO AFOBADO E VAI DIRETO PARA A SUA MESA.

FABIO – Que foi que aconteceu, Joel?

JOEL – Perdi a hora.

FÁBIO – Você está facilitando, rapaz. Seu Olavo já perguntou diversas vezes por você.

JOEL – O que foi que você disse?

FÁBIO – O de sempre. Que sua mãe... (TOM) Aquela velha história.

JOEL – Obrigado, companheiro. Quando ele me colocar de chefe, eu não vou me esquecer de você. Tá no meu caderninho.

FÁBIO – Sei... Se eu fosse você ficava de olho. Ele está cismado com você. (FÁBIO LEVANTA E SE ARRUMA PARA SAIR)

JOEL – (FAZENDO MUXOXO) Deixa pra lá. Com seu Olavo, eu me entendo. Ele é meu chapa. (VÊ FÁBIO SAINDO) Onde você está indo?

FÁBIO – Tem noção das horas, Joel? Já é hora do almoço. (VAI SAINDO)

JOEL – Espera aí. Eu vou com você. Tá na minha hora também.

(OS DOIS SAEM. APENAS O OUTRO FUNCIONÁRIO PERMANECE TRABALHANDO)

CORTA PARA:

CENA 9 - INTERIOR/DIA - RESTAURANTE
JOEL E FÁBIO ESTÃO TERMINANDO O ALMOÇO. O GARÇOM CHEGA E ENTREGA A FÁBIO UM EMBRULHO COM UMA QUENTINHA:

JOEL – O que isso? Tá levando merenda?

FÁBIO – Nada disso. É para um amigo.

(OS DOIS AGRADECEM AO GARÇOM E SAEM DO RESTAURANTE.)

CORTA PARA:

CENA 10  - EXTERNA/DIA - RUA EM FRENTE AO RESTAURANTE
FÁBIO CAMINHA COM JOEL. FÁBIO PARA E SE DIRIGE A UM HOMEM QUE ESTÁ SENTADO NO CHÃO E ENTREGA A ELE O EMBRULHO COM A QUENTINHA. O HOMEM TEM REAÇÃO DE FELICIDADE E AGRADECE A FÁBIO. JOEL FICA INCOMODADO COM A CENA:

JOEL – Qual é, Fábio? Deu agora pra alimentar vagabundo?

FÁBIO – Esse homem não é um vagabundo. É seu Ramiro, um homem trabalhador. Depois que sofreu um revés da vida, ficou assim.

JOEL – E o que você tem com isso? Quem tem que cuidar disso é o governo, não?

FÁBIO – Pode até ser, Joel.   Mas não consigo ficar de braços cruzados vendo alguém nessa situação.

JOEL – Você é um idiota, Fábio. Pra mim, vagabundo tem mais é que morrer de fome.

FÁBIO – Não fala uma coisa dessas, Joel. Nunca se sabe o dia de amanhã.

(JOEL MOSTRA-SE BASTANTE INCOMODADO COM A CONVERSA E ACABA DEIXANDO FÁBIO PARA TRÁS. FÁBIO CONTINUA CONVERSANDO COM O MENDIGO, TRATANDO-O COM HUMANIDADE E RESPEITO)

CORTA PARA:

(ATENÇÃO PRODUÇÃO E DIREÇÃO: ESTA CENA 10 TEM GRANDE IMPORTÂNCIA NO DESENVOLVIMENTO DA HISTÓRIA E SERÁ USADA NOVAMENTE MAIS TARDE)

CENA 11 - INTERNA/DIA - ESCRITÓRIO ONDE JOEL TRABALHA. SALA DE OLÁVO.
SALA PEQUENA COM APENAS UMA  MESA.
OLAVO ESTÁ SENTANDO EM SUA MESA. FÁBIO ESTÁ DE FRENTE PARA ELE, MOSTRANDO ALGUNS PAPÉIS.

FÁBIO – Está tudo aí, como o senhor pediu.

OLAVO – (VERIFICANDO OS PAPÉIS) Está certo.

FÁBIO – Mais alguma coisa, seu Olavo?

OLAVO – Não. Quer dizer, pede ao Joel que venha falar comigo, I-ME-DI-A-TA-MEN-TE.

FÁBIO – Sim, senhor. (SAI)

CENA 12 - INTERIOR/DIA - ESCRITÓRIO ONDE JOEL TRABALHA
JOEL E O OUTRO FUNCIONÁRIO ESTÃO TRABALHANDO.  FÁBIO ENTRA. CAMINHA E PARA NA FRENTE DE JOEL. COMO JOEL NÃO NOTA A SUA PRESENÇA, ELE FICA ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO. JOEL ACABA POR NOTAR O NERVOSISMO DO AMIGO.

JOEL – Que foi, Fábio? Você está se sentindo bem?

FÁBIO – Sabe o que é...?

JOEL – Fala, homem.

FÁBIO – O seu Olavo está te chamando na sala dele, I-ME-DI-A-TA-MEN-TE.

JOEL REAGE ASSUSTADO.

CORTA PARA:
FIM DO CAPÍTULO