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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O(a) cara do espelho.


   Todo mundo tem uma imagem real que representa aquilo que é de verdade, e outra que é aquela que acreditamos ser. É possível que esta imagem que acreditamos ter seja igual, ou quase igual, àquilo que realmente temos. Salvo, é claro, algumas distorções. Visto que, nesse caso, somos aquele(a) que é e aquele (a) que vê que é. Parece meio difícil de entender, mas é só imaginar-se fora do corpo como um espectador que observa e analisa suas atitudes, ações e reações. Por sermos ao mesmo tempo o observador e o observado nos tira o distanciamento necessário para uma análise mais fria e objetiva de nós mesmos.
    É possível que você já esteja se perguntando: "que papo mais estranho é esse'? Calma! Ninguém está aqui para dar nó em cabeça alheia. Muito pelo contrário. O fato é que é muito mais comum do que a gente pensa as pessoas terem um ideia diferente e, por que não dizer, errada de si mesmos. Alguns tendem a se acharem muito melhores do que geralmente são, já outros vão pela via contrária e saem por aí desfazendo-se de si mesmos.
    Nos dois casos, fica claro que a pessoa está tentando enganar não só aos outros como a si enganar; seja usando de vanglória ou nivelando-se por baixo. Porque não é justo nem para si, nem para os outros, que a sua imagem não corresponda a verdade; não é justo que passemos a vida inteira vendendo algo falso sobre nós.
    Que ninguém é perfeito, não há a menor dúvida. E não é necessário que a gente se sinta envergonhado por isso. Antes, podemos usar as fraquezas e imperfeições como trampolim para a busca de nos melhorarmos física e espiritualmente. Aliás, não é por outra razão que viemos a este mundo. Se falo de melhora física e espiritual é porque acredito que essas duas coisas não podem estar dissociadas. Como muitos antes já disseram, o corpo é o templo do espírito e se um está doente o outro também está.
    Portanto, quando nos aceitamos como somos fica tudo mais fácil. E se descobrimos que essa nossa maneira de ser não é exatamente aquilo que queremos, que gostaríamos de ser melhores ou diferentes do que somos, podemos partir para uma mudança de paradigma. Essa mudança, sem dúvida, será para melhor.
    Certo é que mentir para si mesmo está longe de ser a melhor saída. Tentar, deliberadamente, ver no espelho alguém diferente de nós pode ser perigoso. É preciso aprender a amar o(a) cara que aparece no nosso espelho. É tudo o que ele(a) precisa: ser amado(a), perdoado(a), instruído(a) a seguir melhores trilhas. Então não seja condescendente com ele(a), mas também não seja duro(a), inflexível. Na medida certa, ensinemos esse(a) cara a olhar-se de frente, sem medo do que está sendo apresentado. Se a imagem não é boa, partamos agora em busca de melhorá-la. O que não podemos fazer é cobrir essa imagem com uma maquiagem. Por mais perfeita que uma maquiagem seja, chega uma hora em que ela fica toda borrada e aí a saída é limpar a cara e enfrentar a realidade. Ou você prefere seguir com a cara borrada?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pra quê tanta raiva?

     Confesso que nunca fui, como se diz popularmente, um anjinho de candura. Por vezes, me pego cheio raiva e rancor sempre que sinto que alguém está tentando me humilhar ou desafiar. Em algumas situações, é mesmo muito difícil controlar o ímpeto de responder à altura. Principalmente, levando em consideração o fato de vivermos numa verdadeira selva, onde o vale-tudo impera e, nesse caso, salve-se quem puder. 
     Acho que não é difícil concordar comigo, pois exemplos não faltam no nosso dia a dia. Basta sair à rua para constatar. Um simples encontrão, uma buzina alta ou qualquer coisa é motivo para se sair gritando impropérios, fazer acusações, ofensas desmedidas, cometer desatinos. Quantos crimes não acontecem no trânsito por causa de uma pequena batida, um esbarrão mais forte? Todos conhecemos histórias que poderiam ter tido finais bem melhores se um dos (ou os dois) envolvidos tivesse procurado se acalmar e visto a banalidade da situação e que não valia a pena tanto barulho por nada.
    Acontece que mesmo sabendo de que o simples ato de respirar fundo antes de agir nos leva a ter uma atitude mais sensata diante das coisas, nós ainda continuamos a usar o padrão "bateu levou". Parece que achamos bonito bancar os valentões ( e isso vale tanto para homens quanto para mulheres) cada vez que alguém "pisa em nosso pé".  O padrão contrário, ou seja, pedir desculpa ou desculpar aquele que nos causou um dano nos soa mais ofensivo e por isso "partimos para cima" dispostos à desforra.
    É claro que muitas vezes as pessoas agem de maneira pensada e depois fingem que tudo aconteceu por acaso. Não sou bobo de pensar que todas as ofensas, os acidentes, as calúnias ocorrem sem intenção. É nesse ponto que quero chegar. É aí que está toda a raiva. Pessoas que vivem por aí demonstrando toda uma raiva, um descontentamento com o mundo e consigo próprias que as impedem de agir de maneira mais calma e mais amorosa.
    Como disse, também me pego agindo assim, às vezes com razão e outras apenas por causa dos meus desconfortos pessoais. Com o tempo, tenho procurado ficar mais calmo e tentar ver o outro com mais compaixão. Por isso, quando levo um pisada no pé ou alguém atravessa literalmente na minha frente, tenho tentado refrear meus impulsos.
   Tenho a sorte (será?) de não ter o hábito usar xingamentos no meu vocabulário. Por outro lado, quanto aos impulsos, sempre preciso controlá-los para não ficar o tempo todo me aborrecendo à toa. Mas o que quero falar mesmo é que devemos deixar de ser pessoas tão raivosas e, sem medo de ser piegas, exortar todos a desenvolver nossas potencialidades amorosas. Vamos todos ser adeptos do amor incondicional, mesmo quando levamos uma pisada na nossa "unha encravada".

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Uma resposta surpreendente.


      Túlio não é exatamente aquela pessoa que se pode chamar alegre e feliz. Tem jeito um tanto acanhado de levar a vida, está quase sempre cabisbaixo e se você não puxar conversa ele fica o tempo todo calado. Só dá opinião quando a gente pede com muita insistência e mesmo assim é comum ele sair com aquelas respostas que não dizem nada: "é, talvez, pode ser, acho que sim, talvez quem sabe..."
     Depois de tudo isso, dá para imaginar que você já desenhou o perfil do Túlio e decidiu que ele fica calado porque não tem mesmo nada para dizer. Isso é típico, não é? Não no caso dele. Túlio é um cara inteligente. Quando resolve falar, o que, como eu já disse, acontece muito raramente, sempre fala aquilo que as pessoas esperaram ouvir. Não que ele  faça isso de maneira estudada, é espontâneo.  Não há quem não goste de ouvi-lo. Poderia até ser chamado de um cara inspirado, um sábio.
     Quem o conhece superficialmente logo liga a sua fama de mal humorado e triste com o fato dele ter sempre dado o que, por um olhar mais fatalista  diria,  um certo azar na vida. A bem da verdade, quem pensa dessa maneira não está de todo errado. Túlio passou poucas e boas. Perdeu os pais cedo demais e teve que se virar sozinho, sobrevivendo, muitas vezes, da caridade das pessoas. Há quem diga que ele escapou de ser marginal por muito pouco, pois oportunidade é que não faltou.
     Estudou com muita dificuldade e quase tudo o que sabe apreendeu por conta própria. Curioso como só ele, lê de tudo que chega às suas mãos e se interessa por todos os assuntos. Com a mesma desenvoltura fala de filosofia, religião, futebol, literatura. Isso faz dele um tipo de autodidata, embora ele já possa se orgulhar de ter uma formação acadêmica conseguida depois de inúmeras vezes trancar matricula na faculdade por problemas  financeiros e outros, como ele mesmo gosta de dizer, quando insistentemente perguntado.
     Porém, os ventos começaram a sopra a favor de Túlio: ele conseguiu um emprego melhor e tem se destacado nas coisas que faz chamando a atenção de todos para os seus talentos que ficavam meio que ofuscados pelo seu jeito de ser tímido e pouco dado a autopromoção, tão comum em nossos dias. Só que mais uma vez Túlio deixa a todos boquiabertos. Mesmo com a virada que aconteceu na sua vida, ele continuam agindo da mesma maneira de antes: calado, meio triste, sempre evitando ser o centro das atenções. Foi quando, apesar de não privar de sua intimidade, resolvi perguntar:
- Por que você continua tão triste e calado, se a vida parece lhe sorrir?
A resposta veio certeira:
- Não estou triste, nem nunca fui. Se fico calado é porque todos à minha volta só querem falar e nunca ouvir. Além do mais, tenho medo de que a minha felicidade possa incomodar. Por isso, fico calado no meu canto esperando que alguém queira realmente estabelecer algum tipo de diálogo.