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sábado, 5 de maio de 2012

Feios e pobres, bonitos e ricos...

     Já faz tempo que nossas novelas se tornaram um tanto quanto lugar comum. Entra novela e sai novela, a receita é a mesma. Todos os autores (alguns até que tentam, às vezes, criar um traçado novo, mas fica só na tentativa) seguem o mesmo roteiro ou seja:
     - personagens bons e maus - nesse caso, a separação chega a ser tão nítida quanto a mistura de água e óleo. É onde se comete os maiores deslizes. Se o cara é mau, ele é muito mau, algo patético. se é bom,chega a parecer bobo, idiota. A coisa chega a tal ponto que, quase sempre, tem-se a impressão de que não se trata de novela e sim de uma peça infantil escrita por alguém debilóide. No caso dos maus, os pobres do atores se matam em cenas estapafurdias, falas absurdas, onde os personagens sempre querem aquilo que não lhes pertence ou querem vingança pelos motivos mais disparatados.
     - os feios e os bonitos:  a conhecida frase de Vinícius de Moraes que condena as feias e diz que beleza é fundamental parece ser a máxima nesse quesito. Além dos bonitos terem direitos e regalias, só a eles cabe se apaixonarem e serem felizes no amor. Algo como: a felicidade só existe para os  belos e os muito belos, os feios têm que amargar a solidão ou quando muito torcer pela felicidade dos bonitos. Quando se apaixonam, os feios estão condenados ao que antigamente (parece que saiu de moda essa palavra) amor platônico e o máximo que conseguem é ser amigo do ser amado. Cenas de amor só em sonhos, recurso usado para que os enjeitados possam ter seus minutinhos de desfrute. Mas não se engane, a cena seguinte sempre será a do feio sonhador acordando de seu devaneio, descobrindo que na verdade estava vivendo uma fantasia e que sua realidade está lá intacta. O jeito é botar a mão na cabeça e dizer: "Oh, como eu sou infeliz".
    - os velhos e os novos - em novela velho é sempre alguém muito antiguado, que perdeu o bonde ( essa expressão também caiu no limbo, juntamente com o meio de transporte tão, digamos, charmoso), reacionário e quando tenta fazer alguma coisa de diferente tem sempre alguém lembrando a sua idade. Para falar a verdade. novela é sempre coisa de jovem, mesmo que o protagonista seja um velho.
   - os ricos e os pobres:  dessa divisão novela nenhuma escapa. É até possível dizer que só se faz novela com ricos e pobres bem separados. Além do núcleo pobre ser sempre empregado dos ricos, a separação precisa ser sempre marcada com algo bastante peculiar: rico entende de tudo, conhece tudo, já viajou o mundo todo, já esteve em todos os lugares, já comeu todas as comidas, fala línguas e está sempre aberto para o novo. Já os pobres... Bem, esses vivem num mundo totalmente à parte. Não conhecem nada, não viram nada. É como alguém que acabou de chegar: tudo é novidade, tudo é estranho. Mesmo nesse nosso mundo pós internet, onde todos têm acesso a tudo. Tem claros traços de "casa grande e senzala".
     - os bem vestidos e os mal vestidos - Pobre é sempre mal vestido, tem um mau gosto atroz e não entende nada de  moda, de comportamento em sociedade (falam alto, não sabem usar talheres, um horror), em resumo. estão sempre dando vexame. Agora os ricos... Esses, mesmo quando têm  carater duvidoso não perdem a linha, o bom gosto, estão sempre bem vestidos, perfumados com os melhores perfumes.
     - os vilões e o dinheiro: tudo o que todo vilão quer é dinheiro, mesmo quando ele já tem o suficiente. Eles sempre querem mais e, principalmente, o de todos aqueles que o cercam. Desalmados, adoram roubar o dinheiro do leite das crianças dos outros.
     Para encurtar a conversa, é disparate em cima de disparate. O jeito é mudar de canal e dar um jeito de voltar para a realidade nossa de cada dia, onde tudo parece seguir ditames menos maniqueístas..