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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tio, me dá uma moeda.


   Marco andava distraidamente pela rua quando ouviu aquele chamado: 
- Tio...
Instintivamente parou e olhou. Na sua frente estava um garoto todo maltrapilho que, um tanto surpreendido por aquela atenção, completou a frase:
- ... me dá uma moeda.
     Não era a primeira vez que Marco recebia aquele tipo de abordagem. Na verdade, no trajeto de sua casa para o trabalho, aquilo era até muito comum. Muito mais comum até do que ele desejava. Embora, como todos os outros dias, ele estivesse com pressa, sentiu uma estranha vontade de estabelecer um contato mais estreito com aquela figura que o tomava por seu tio. E foi logo encarando o garoto:
- Que história de tio é essa? Por acaso sou irmão do seu pai ou da sua mãe? E fique sabendo de uma coisa: eu sou filho único. Portanto, jamais terei um sobrinho. E se você fosse meu sobrinho, não estaria pedindo dinheiro no meio da rua, entendeu?
     O garoto não deu muita atenção ao que ele falou e repetiu o pedido. Isso acabou por irritá-lo ainda mais. Teve vontade de passar uma descompostura naquele moleque para ensiná-lo a ter mais educação com os mais velhos. Afinal, ele o estava chamando de tio e, querendo ou não, aquele parentesco era sinônimo de que ele lhe devia um certo respeito. Foi com esse pensamento que ele partiu para cima dele:
- Volta para casa, agora.
- O que é isso, tio? - perguntou ele, assustado.
- Estou mandando você voltar para casa. - confirmou.
- Ih, qual é? - perguntou o garoto achando aquilo estranho e fora de propósito. Afinal, ele estava apenas pedindo dinheiro. Mas Marco parecia estar com vontade de levar aquilo adiante:
- Como: "ih, qual é?" Você me para no meio da rua, me chama de tio, me pede dinheiro e acha estranho que eu o mande de volta para casa?
- É claro. Você não é nada meu. Sai fora.
- Quer dizer que eu sou seu tio para lhe dar dinheiro, mas para mandá-lo de volta para casa, não?
- Isso mesmo.
- Olha aqui, seu moleque. Você acha que eu iria encontrar um sobrinho maltrapilho e descalço no meio da rua, lhe daria dinheiro e seguiria meu caminho como se nada tivesse acontecido? Você é louco?
- Ih, louco é você. Tô fora.
     O garoto sumiu na multidão julgando ter encontrado um maluco em seu caminho. Porém, Marco estava levando aquela conversa a sério. No fundo, apesar de ser dado a certos destemperos, ele sempre se sentiu incomodado com aquela situação. Nunca entendeu direito como podia aquelas crianças viverem pelas ruas roubando, cometendo delitos e chamando todo mundo de tio sem que ninguém fizesse nada. Será que ninguém mais via aquelas crianças? Só ele?
     Na nossa sociedade aprendemos a não nos meter naquilo que não nos diz respeito. Aprendemos que muitas coisas são problemas do governo.  Esse é o nome que se dá a essa figura sem rosto e sem sentimentos que deveria cuidar para que as coisas andassem nos eixos, mas que parece ser também surda  e cega, pois nada sabe, nada vê. Assim, basta sair às ruas para nos depararmos com um monte de situações sem solução. A das crianças nas ruas é, sem sombra de dúvidas, uma das piores. Junto dela temos os moradores de rua, a velhice desassistida, a falta de saneamento básico e tantas outras.
     Marco continuou sua caminhada para o trabalho. Mas aquele encontro mexeu com ele. Poderia parecer loucura, mas ele viajou naquele "tio, me dá uma moeda". E se aquele garoto fosse seu sobrinho? Talvez o seu destino fosse diferente, talvez não. O que ele poderia fazer para que não houvessem mais garotos vivendo nas ruas, nos sinais, drogando-se, sendo usados, abusados? Provavelmente nada. Mais uma vez, mergulhou a cara no trabalho e deixou que a vida seguisse o seu curso.