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terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Avenida Brasil", depois do capítulo 100.

    Sou fã da novela "Avenida Brasil" desde a primeira hora. ou melhor dizendo, desde o primeiro capítulo. Melhor ainda, bastou ver as chamadas para descobrir que a história tinha pegada e que seu desenrolar seria interessante e cheio de reviravoltas. Além do mais, João Emanuel Carneiro ( não se pode negar que o rapaz tem um nome pomposo) já provou por a + b que entende do riscado e que, diferente de muitos de seus colegas, não pensa que o ofício de escrever novela esteja diretamente ligado ao ato de enrolar, embromar.
     Vá lá que novela seja mesmo entretenimento, que pode claramente ser confundido com passatempo, mas, cá pra nós, até passatempo precisa e deve ter alguma qualidade, não é? E isso João Emanuel Carneiro vinha apresentando a contento em sua "Avenida Brasil". História ágil (apensar de lembrar, e muito, "A favorita", do mesmo autor), muito mistério, acontecimentos impactantes, texto fluente, personagens verossímeis, situações idem. Não seria nada de mais se a gente colasse na novela o selo de "perfeita".  Isso mesmo. Eu sei que pode parecer exagero, mas confesso que cheguei a achar isso.
     A trama vinha redondinha ,embora os deslises quanto ao uso das tecnologias modernas sejam flagrantes, mas até isso dava para perdoar. Afinal de contas, se a gente for levar as coisas ao pé da letra, ficaria impossível escrever novela nos dias de hoje. Então é preciso perdoar que a Nina não tivesse uma câmera de vídeo, uma máquina fotográfica, um celular que tira foto e faz gravação de vós. O autor "teve" que esquecer esses avanços da tecnologia para nos garantir mais emoção e ação e , é claro, alguns capítulos a mais. Do contrário, tudo se resolveria em, no máximo, dez capítulos.
     Estava tudo muito bem, tudo muito bom, a novela caiu no gosto do povo; a Carminha confirma o talento de Adriana Esteves; o Max dá fôlego a carreira de Marcelo Novaes; e tem mais o Nilo, a Lucinda, o Leleco (Marcos Caruso não é tão velho quanto se pensava), o Adaulto (grande surpresa), a Mona Lisa, Olenka, Verônica, Cadinho, a Ivana, as duas empregadas, Zezé e Janaína. Suelem; enfim, é gente demais, melhor parar por aqui. Isso sem deixar de lado a direção, segura e eficiente. Nossa! Repararam? Estou  quase me sentindo um crítico especializado.
     Porém (tinha que ter um "porém"), chegamos ao capítulo cem. Lembra de tudo o que foi dito acima? Estou quase me arrependendo do arroubo. A partir do capítulo cento e qualquer coisa, aquela novela ágil, aqueles acontecimentos impactantes deram lugar a uma novela requentada, quase um pastiche de si mesma. Sem exagero. O autor pisou no freio e a história está devagar quase parando.  Situações que eram resolvidas no mesmo capítulo, agora se arrastam, dando a ideia de que não se tem mais muita história para contar e que o jeito é dar uma "enroladinha".
     Que pena! Um dos grandes trunfos da produção era exatamente sua agilidade, um jorro de ideias e desfechos sempre surpreendentes. Em alguns momentos, tem-se a impressão de que depois do capítulo cem o autor passou a repetir situações já apresentadas e que sua criatividade anda um tanto esgotada. Parece ter acelerado demais sua história no início e agora precisa ir devagar para cumprir um número de capítulos estipulados.
      Já vi isso acontecer com outro bom autor da Globo, Benedito Rui Barbosa. Ele também costuma contar toda a sua história nos primeiros capítulos e depois fica apenas repetindo (literalmente) o que aconteceu antes. E por falar em outro autor, João Emanuel Carneiro resolveu fazer uma "homenagem" ao rei da armação, Gilberto Braga, mas derrapou e ficou devendo para o mestre. A cena em que Nina tem um saquinho de drogas plantado em sua bolsa foi muito mal escrita. Deu até para sentir saudades das tramas do Gilberto Braga e de todos os seus seguidores.
     Mesmo assim ainda é possível assistir a "Avenida Brasil" com a sensação de que o gênero pode ter alguma sobrevida. Mas ninguém me tira da cabeça que a novela tinha fôlego apenas para uns cem ou cento e vinte capítulos. Nada mais que isso. Pois aguentar a Nina (acho que deixei de citar a Débora Falabela, com sua contraditória mocinha (?)) emperrando a trama com a desculpa de que se revelarem os segredos de Carminha o Tufão vai sofrer muito. Engano, garotinha. Quem sofre muito somos nós, os telespectadores.