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sábado, 7 de agosto de 2010

Somos realmente livres?

     Quando eu era criança (e isso foi há muito tempo) passava uma propaganda na televisão cujo gingle dizia mais ou menos o seguinte: "Liberdade é uma calça velha azul e desbotada que você pode usar do jeito que quiser. Não usa quem não quer." Lembro que eu assistia extasiado a essa propaganda, porque além de gostar da música, de seu visual colorido (de certa forma apenas imaginado, pois a televisão em questão era preta e branca) com jovens felizes numa caminhonete (ou coisa parecida) a rodar pelos campos, gostava mesmo era ouvir falar na tal de liberdade. A palavra liberdade cantada na música vinha de encontro com um anseio meu de ser livre, dono do meu próprio destino.
     Meus pais, sobretudo minha mãe, eram muito severos. Eles mantinham, a mim e a meus irmãos, sob rédea curta, como gostava de dizer minha mãe. Então ouvir naquela propaganda um conceito tão simples de liberdade me deixava qualquer coisa entre confuso e esperançoso. A qualquer dia eu poderia envergar uma calça velha e sair pelos campos livre como um pássaro para longe da repressão dos meus pais. Doce ilusão de uma criança que não sabia nada da vida. A tal calça velha azul ( calça jeans)  e desbotada era apenas uma forma lúdica de falar de liberdade, principalmente naqueles tempos de ditadura militar, e  estava longe de representar qualquer atitude concreta de liberdade.
     Sei que a essa altura você deve estar perguntando: "Que diabos esse cara está tentando falar com essa conversa mole?" Calma, não precisa tanta pressa. A gente chega lá. É que eu tenho pensando muito nos últimos tempos sobre o fato de se realmente somos seres livres e se essa liberdade é mesmo tão ampla, geral e irrestrita como prometia ser (será que foi?) a anistia que tentava acabar com a ditadura militar de que falei acima.
      A minha opinião é que não somos livres e se às vezes vislumbramos algum tipo de liberdade ela não é nem tão ampla nem tão irrestrita assim. É o que eu chamaria de uma liberdade meia-bomba, de "araque", como diriam outros. Somos, na verdade, pessoas presas a conceitos, padrões de comportamento, grupos, empregos, ideias e estamos sempre adiando para o futuro o dia em que  vamos dar nosso grito de liberdade e viver à nossa maneira, longe de tudo aquilo que nos prende e escraviza. Até lá vamos vivendo com a liberdade que podemos contar, ou seja, quase nenhuma. Embora crentes de que somos os seres mais livres que já pisaram sobre a terra. Ledo engano.
       Somos escravos do trabalho, precisamos ganhar nosso pão de cada dia, senão morremos de fome, ou seremos apontados como vagabundos, sanguessugas, parasitas e corremos o risco de parar no meio da rua onde nos tornaremos mendigos. Esses sim, os únicos a viver uma certa liberdade, mas vocês sabem a que preço, não é? O preço de não serem  escravos da moda ( é preciso estar em dia com ela), do peso ( olha essa "gordurinha" aí!), da aparência (você tem que ser bonito(a) ), do sucesso ( você tem que ser bem-sucedido), da ditadura do consumo (você tem consumir tudo o que lhe oferecem, tenha ou não condições para isso) e tudo o que cerca os "livres" de nossos tempos. Eu, pelo meu lado, ainda continuo cantando aquele gingle: "Liberdade é uma calça velha..."