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domingo, 9 de outubro de 2011

"Ela não é moça para casar".

    Algo parecido com a expressão aí do título é (pelo menos era) muito usado em minha cidade natal (Ibiá, Minas Gerais, Brasil) quando alguém (geralmente a mãe ou familiares ) queria reprovar o envolvimento de um rapaz (os chamados de "boa família") com alguma moça, que não fosse de "boa família", é claro. Enquanto era um namoro sem grandes envolvimentos com poucas chances de dar em casamento, estava tudo muito bom. Afinal, o galalau era homem e tal e coisa... Sabe como é a mentalidade do povo, né? Acho que não precisamos entrar em mais detalhes. Mas bastava a coisa começar a evoluir para um compromisso mais sério que essa frase surgia como explicação definitiva para que o namoro conhecesse seu inexorável fim:
- Ela não é moça para se casar! - vociferava uma mãe disposta a qualquer coisa para livrar a sua cria das garras da "pistoleira de plantão".
     E não adiantava o filho insistir porque uma vez que a frase fosse dita, não tinha saída: o inferno estava instalado e só com muito amor para vencer a barreira criada. Era então que se descobria se aquele namoro era mesmo para valer ou não. Se era, geralmente o casal apaixonado fazia ouvidos moucos e seguia com o interlúdio, muitas vezes até o altar onde tudo acabava bem. Não aquele bem de final de novela, é claro. Mas aquele bem que é permitido pela realidade nossa de cada dia. Um terminar bem com prazo de validade longo ou não, só o tempo pode dizer, não é?
   Mas se, por outro lado, a coisa não era assim tão séria ou "amor" não fosse tão grande, o galalau muitas vezes aproveitava a "ajudinha" da mãe para sair fora com a desculpa de que mãe tem sempre razão e não se pode contrariá-las. Coisas do intrincado jogo das relações amorosas e sociais que não são assim tão fáceis de serem entendidas ou mesmo explicadas. Na verdade, essa frase era usada não apenas para designar uma moça, como se diria, de vida mais livre, mas para mascarar preconceito de cor, raça, social, rivalidades de família e tantos outros que conhecemos tão bem.
     Porém, depois de todo esse tralalá,  antes que você pergunte aonde eu quero chegar eu digo: o que eu quero mesmo é falar de uma conhecida minha que não leva desaforo para casa, não é nenhuma flor de candura, nem faz questão de agradar a ninguém. Outro dia, depois de eu tentar convencê-la a ser um pouco mais sociável, ela saiu com essa:
- E para o seu governo: eu nunca fui moça pra casar. - disse ela, querendo dizer que nunca esteve dentro dos padrões de comportamento exigidos pela nossa sociedade e que, portanto,eu a deixasse em paz com seus rompantes e seu "jeito de ser".
    Depois dessa, não me restou outra saída senão deixá-la ser como ele é. Afinal, ela se diz feliz assim. E para ser sincero, isso até lhe confere um certo charme.  O problema é que a frase dita por ela me levou de volta à Ibiá e aí eu senti uma saudade daquele tempo que não volta mais.