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domingo, 25 de julho de 2010

Passando como um rio.

     Outro dia falei aqui sobre as amizades que, por uma razão e outra, tive que interromper. Falei da dor que essa interrupção, tenha sido ela voluntária ou não, muitas vezes me causou. Isso me levou a uma outra reflexão: vale a pena ir atrás de relacionamentos seja de amor ou amizade que vivemos no passado para tentar reavê-los? A conclusão a que cheguei foi que não, não vale a pena. A vida vive-se para frente, como um rio que nunca volta a irrigar novamente as terras por onde passou, que segue sempre o seu curso cujo  destino é o grande oceano. Assim acredito que somos nós.
     Talvez não seja boa ideia fazer o caminho de volta, sobretudo quando temos a clara intenção e desejo de reviver tudo o que se viveu num passado próximo ou distante. Falo isso porque vive esse tipo de experiência de maneira bastante dolorosa. 
     Nasci em Ibiá, pequena cidade do interior de Minas Gerais, de onde saí "em busca de melhores oportunidades na vida", creio, como qualquer jovem que nasce numa cidade que oferece poucas oportunidades de trabalho e progresso na vida.
     Até aí, nada de mais, não é? Isso acontece todos os dias em todos os lugares do mundo. E como qualquer pessoa que deixa sua cidade natal, no início eu voltei algumas vezes. Confesso que eu não fazia a menor ideia de como é difícil deixar para  trás a família, amigos, vizinhos e até mesmo a paisagem, as ruas, o cheiro da cidade, enfim tudo o que diga respeito àquela vida que você está deixando para trás. Sofri muito, tentei voltar muitas vezes. O tempo passou e acabei ficando.
    Não preciso dizer que enfrentei muitas dificuldades e que isso me afastou de Ibiá. Fiquei muitos anos sem aparecer por lá e sem dar muitas notícias; só o bastante para saberem que eu estava vivo, que estava tudo bem comigo. Um belo dia bateu uma saudade daqueles ares e, como as coisas tinham dado uma melhorada, resolvi ir até lá para rever o pessoal. Fui cheio de amor para dar, certo de que (ingenuamente) encontraria braços abertos e belos sorrisos nos lábios de todos, felizes com a minha "volta".
     Nem tanto. Encontrei pessoas que talvez até estivessem felizes com a minha volta, mas o tempo tinha passado. Elas não eram mais as mesmas, nem eu era mais o mesmo. Posso dizer que chegou a ser constrangedor. Aquela alegria toda, aqueles abraços só existiam na minha cabeça. Eu criei uma fantasia onde as pessoas continuavam as mesmas de antes, mas como o rio, que embora pareça que está sempre no mesmo lugar, elas passaram. Algumas envelheceram, constituíram famílias, desfizeram famílias, mudaram-se como eu para outros cantos e até morreram. As que ficaram não tinham os mesmos objetivos de antes, mudaram por dentro e por fora, como eu. Afinal, eu também não era o mesmo jovenzinho que deixou aquele cidade.
     Por essa experiência passei a acreditar que é preciso pensar bem antes de sair por aí tentando resgatar o passado em busca de pessoas, momentos felizes (ou não) que vivemos. Que cada um de nós, sem magoas, rancores sejamos como o rio que passa, não por acaso ou capricho, mas porque tem como objetivo maior o grande oceano.

Deus nos proteja.