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domingo, 20 de setembro de 2009

Ivani Ribeiro, a maior novelista do Brasil

     Acho que sempre se cometeu uma grande injustiça com a novelista Ivani Ribeiro, autora de incontáveis sucessos em quase todos, para não dizer todos, os canais de televisão do Brasil. Ivani atuou na Tv Excelsior, Tv Tupi, Tv Record (antes do Bispo Macedo), Tv Bandeirantes, Tv Globo, dentre outros canais, sempre com sucesso. Quem não se lembra de títulos como A moça que veio de longe, Alma cigana, A deusa vencida, A muralha, As minas de prata, Os fantoches, Meu pé de laranja lima, Nossa filha Gabriela, Camomila e bem-me-quer, Mulheres de Areia, Os inocentes, A viagem, O profeta, Aritana, O espantalho, Os adolescentes, Cavalo amarelo, Final feliz e todos os remakes que fez de suas próprias novelas alcançando igual ou maior sucesso que as primeiras versões. Não só para a televisão, Ivani Ribeiro escreveu também para o rádio onde começou sua carreira de sucesso e muitas vezes readaptou seus sucessos no rádio para a televisão como foi o caso de Mulheres de areia e Os inocentes.
 
     Não se dá o verdadeiro valor à Ivani Ribeiro. Fala-se da genialidade de Janete Clair esquecendo que além de ter escrito muito  menos que Ivani, Janete enfrentou muito mais fracassos e problemas em suas novelas, sendo considerada, muitas vezes, fantasiosa demais e até alienada, ao contrário de Ivani, que além de escrever sobre diversos assuntos, procurando se inovar a cada trabalho, sempre foi respeitada pelo seu trabalho. Por onde passou, Ivani deixou sua marca inconfundível. Já se falou que Ivani tinha um verdadeiro estoque ou reservatório de histórias, uma capacidade de criação impressionante. Eu acrescento que ela tinha uma técnica apuradíssima, sabia escrever roteiros como ninguém. Era essa técnica que fazia com que ela poucas vezes errasse na mão. Poucas vezes, ela teve insucessos. Pelo que sabe, poucas vezes seus trabalhos foram rejeitados pelo público, pelo contrário, sempre foram sucessos retumbantes.
 
     Sempre tímida, ela dava poucas entrevistas e aparecia pouco na mídia, não se fazendo conhecer do grande público. A única imagem que tive de Ivani, cujo nome de batismo era Cleide, por muito tempo, era uma foto dela diante de uma máquina de escrever usando uns óculos enorme de aro meio arredondado.
 
    O fato dela ter trabalho durante quase toda a vida em emissoras com problemas financeiros fazia com ela tivesse que escrever novelas com orçamento baixo, elenco reduzido, mas nunca de baixa qualidade. Sua passagem pela Tv Tupi é um grande exemplo disso. Enquanto ela lá esteve, a emissora lutava com grandes dificuldades financeiras. Apesar disso, foi lá que ela escreveu  seus sucessos mais marcantes: Mulheres de Areia, Os inocentes, A viagem, O Profeta e Aritana. E por que não falar de Aritana?
 
     Em Aritana, a sempre inovadora, Ivani tocou num assunto difícil até hoje: a questão indígena. Em A viagem, Ivani entrou na seara espírita e deu ao Brasil a possibilidade de conhecer melhor a doutrina de Alan Kardec, contando com a ajuda do mestre Chico Xavier, numa adaptação livre do seu livro Nosso Lar. Para ninguém poder dizer que ela estivesse puxando para o espiritismo,, sua novela seguinte, O Profeta, foi o que se pode chamar de uma novela ecunêmica. Nela, Ivani misturou vários credos mostrando sua maestria em tocar em temas espinhosos. Em O espantalho, novela que escreveu para o rescém-nascido canal Tv S, ela falou de ecologia, a poluição das praias, assunto que na época poderia parecer ainda distante da realidade do grande público, mas que hoje ninguém mais desconhece. Era o alerta, o pioneirismo. Infelizmente, a novela não foi sucesso. Ivani não fez por menos. Quando readaptou Mulheres de areia para a Tv Globo, colocou a trama central de O espantalho no meio da outra trama e novamente tocou no assunto.
 
     Muito se fala das novelas temáticas de Glória Peres, onde ela fala de assuntos do dia-a-dia, partindo de um tema de interesse do público, isso já estava presente em Ivani. Quando ouço dizerem que Glória tomou isso emprestado de sua mestra Janete Clair, acho estranho. Poucas vezes Janete Clair usou temas reais em tramas (isso se deu apenas em Duas vidas e Fogo sobre terra), sempre preferindo os temas românticos, sua grande marca. Creio que Glória bebeu nas fontes de Ivani mais que nas de Janete. De Janete ela tem apenas o jeito desvairado de conduzir suas tramas, sem se preocupar muito com a realidade imediata. Aliás, não só Glória, mas muitos outros dos quais Valcir Carrasco é o o que mais se destaca. Valcir tem de Ivani a preocupação em passar uma mensagem com a história que está contando. Dado que sempre foi muito importante nas histórias de Ivani, basta lembrar de Camomila e bem-me-quer, que já tinha uma certa preocupação com a espiritualidade.
 
    Outro lado importante de Ivani era seu talento para adaptações: A muralha, As minas de prata e Meu pé de laranja lima, todas grandes sucessos tirados de nossa literatura. Sem se esquecer que ela começou sua carreira na televisão adaptando novelas "mexicanas" , mas sempre dava um jeito de subverter o original, dando uma cara mais brasileira para a história, passo decisivo para que as novelas passassem a retratar a nossa realidade e não  reinos imaginários e distantes.
 
     E Os estranhos? Nessa Ivani faz uma espécie de ficção científica, assunto em voga na época por causa da ida do homem à lua, mostrando que ela era uma mulher antenada com seu tempo.
 
 
 
 
     Poderia ficar falando muito mais de Ivani Ribeiro, a quem eu gostaria de ter conhecido. Pretendo , um dia, me aprofundar mais em sua obra e, quem sabe, escrever um livro sobre essa grande escritora. Não sei o que foi feito de seu acervo e a quem pertence, mas espero que não seja esquecido. Ela merece um museu ou algo parecido, onde sua história seja preservada. Nunca vou esquecer que a primeira novela que eu acompanhei foi "A viagem", desde então acompanhei tudo sobre ela. Sua morte me causou muita tristeza, mas ela continua viva no meu coração
 
Viva Ivani Ribeiro!

domingo, 13 de setembro de 2009

A discípula de Janete Clair.

Com o final da novela Global, Caminho das Índias, muito tem-se falado do fato da autora da novela, Glória Peres, ser uma autêntica seguidora ou discípula da "chamada" mestra Janete Clair. Fato que tem seu lado de verdade, pois se sabe que Glória Peres começou a escrever novela justamente assessorando Janete Clair em sua última novela, Eu prometo. Dela herdou a forma pouco clara de desenvolver suas tramas, sempre optando pelas soluções que deram a Janete a fama de desvairada e alienada da realidade que o país vivia nos anos em que a autora escreveu seus maiores sucessos. Discussões a parte, não pretendo julgar os motivos que levavam Janete Clair a optar por tramas fantasiosas quando o Brasil não estava para fantasia, principalmente no que dizia respeito a liberdade de expressão. O caso que essa semelhança entre as autoras, que eu acho que não é tão grande assim ( Glória usa muitos elementos da realidade em suas tramas) tem sido motivo para "perdoar" os inúmeros "erros" que Glória Peres cometeu em sua trama. Para mim, a sequência da morte do Raul, embora é preciso lembrar que se trata de uma boa trama, mostrou o quanto a autora se faz valer de maniqueísmos para desenvolver sua história. É bem verdade que a realidade está cheia de gente capaz de atitudes até muito mais absurdas do que tramar a própria morte, mas vamos pensar direito, aquela história do caixão não ser aberto, o atestado de óbito ser assinado por uma médica falsa, as pessoas contratadas para participar da trama (os carregadores e etc.), a atitude da viúva, tudo muito estranho. Eu também escrevo e sei que a gente não pode ser tão realista o tempo todo, as vezes é preciso dar asas à imaginção, mas tudo tem limite, muita gente ainda vê novela como algo muito próximo da realidade e na falta de melhor informação toma aquilo como verdade. E o pior de tudo é que quando essas tramas vão ser solucionadas no final da história é que se percebe o quanto elas estavam distantes da realidade. Tem soluções simplistas, deixando o público com a sensação de que esteve se enganando ao seguir a novela. Quase todas as tramas beiravam o absurdo. O núcleo dos indianos, muito bom no início, mostrou-se repetitivo e expôs as chagas da cultura indiana, cheia de preconceitos no que diz respeito às mulheres e distante da realidade nossa de cada dia. Não ficou claro como vivem os indianos, o que eles comem. como dormem, tomam banho, lavam suas roupas. Coisas boas como a violência nas escolas, ficaram devendo um desenvolvimento maior, em favor de outras tramas mais palatáveis como a da Norminha e seu "guardinha". Isso sem falar do Bahuan o herói sem atos heróicos. Creio que nesse quesito a Glória invou ao criar um herói individualista e que não se sacrificaria seus sonhos nem pela mulher amada e nem pelo seu povo. Afinal, herói de que? Soube que Glória não cria escaletas para escrever, ou seja, ela não faz um planejamento do desenvolvimento da trama e que segue sua intuição, além de escrever sozinha. Tudo muito admirável, aliás a Glória Peres é uma grande mulher, com uma história de vida cheia de lances de superação, mas um planejamento da trama resolveria certas inconsistências.
Glória Peres fica devendo uma trama que não seja sobre uma cultura e suas amarrações que obriga a autora a escrever seguindo um manual do tipo pode isso, não pode aquilo. Quero ver Glória Peres contando uma história de verdadeira ficção, onde fique claro seu dom inventivo. Isso quase foi possível com a trama da família Cadore e seus agregados. Faltou acreditar na trama e escrever uma novela só com eles. O lado dos indianos foi puro manual, como aliás já tinham sido os ciganos em Explode Coração e arabes em O Clone. Nada além do manual da cultura em questão.