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domingo, 26 de maio de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 14

Neste penúltimo capítulo, Joel decide se unir a Ramiro num plano para livrar seus anigos companheiros das mãos de Zelão, o homem que explora os moradores de rua se fazendo passar por um deles.

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 14


CENA 1 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL E RAMIRO.
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 13

RAMIRO – Lá vem você de novo com as suas perguntas.

JOEL – Você não acha que eu tenho direito de saber com quem estou lidando?

RAMIRO – É claro. (TEMPO) Mas eu não tenho muito que te dizer. Apenas que tenho uma missão: ajudar os mais necessitados da mesma forma que um dia fui ajudado.

JOEL – E o que eu tenho a ver com isso?

RAMIRO – Você também foi ajudado. Esteve entre a vida e a morte e recebeu ajuda. Agora está aí forte e revigorado, mas tudo o que você quer é ir embora. (TOM) Pois que vá. Siga o seu caminho.

JOEL – É isso que eu vou fazer. (TEMPO) Muito obrigado por tudo o que o senhor fez por mim. Adeus.

RAMIRO – Adeus. (TEMPO) Apenas tome cuidado para não encontrar outro Zelão pelo seu caminho.

JOEL SAI.

CORTA PARA:

CENA 2 – EXTERNA/DIA – RUA DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
JOEL ANDA PELA RUA. ELE TENTA SE SENTIR NORMAL, MAS OS PENSAMENTOS NÃO O DEIXAM EM PAZ. AS PALAVRAS DE SEU RAMIRO NÃO SAEM DA SUA CABEÇA: “cuidado para não encontrar outro Zelão no seu caminho”.

JOEL – Como eu vou ajudar os outros se eu não posso ajudar nem a mim mesmo? Acho que aquele velho é maluco. Eu jamais voltaria para um lugar como aquele. (TEMPO) Se bem aquela gente precisa de ajuda. A Suzi... (TOM) Não. Foi por causa dela que eu... Melhor nem pensar nisso.

CORTA PARA:

CENA 3 – EXTERNA/DIA – PORTA DO SALÃO ONDE VERINHA TRABALALHA
JOEL SE APROXIMA DA PORTA DO SALÃO.

JOEL – Será que a Verinha...? Que bobagem! A Verinha voltou para o norte.(TEMPO) Era aqui que ela trabalhava...

A PORTA DO SALÃO SE ABRE E VERINHA SAI, ACOMPANHADA DE FABIO. JOEL SE ESCONDE.

VERINHA – Por que você não desiste disso, Fábio? O Joel deve estar numa boa e nem está lembrando de ninguém.

FÁBIO – Eu prometi para a irmã dele, Verinha. Eu tenho que cumprir a promessa.

VERINHA – Você que sabe, Fábio. Para mim, ele está morto.

OS DOIS SE DESPEDEM E VERINHA VOLTA A ENTRAR NO SALÃO. FÁBIO SE AFASTA. JOEL CAMINHA ATÉ A PORTA DO SALÃO.

JOEL – Então é isso? Aquela conversa de voltar para o norte era desculpa. A Verinha e o Fábio...  (TOM) Como eu nunca desconfiei de nada?

JOEL SAI ANDANDO PELA RUA A ESMO.

CORTA PARA:

CENA 4 – EXTERNA/DIA – PRAIA DO FLAMENGO
JOEL ANDA PELO CALÇÃO DA PRAIA. PARA E SENTA NUMA SOMBRA.

JOEL – O que vou fazer da vida? Perdi emprego, casa, família, a mulher que eu amava... (TEMPO) Seu Ramiro tem razão. Meu destino é encontrar outro Zelão e
me deixar escravizar. É isso que sempre acontece quando a gente não toma a direção da nossa vida com responsabilidade.

JOEL LEVANTA-SE E ANDA UM POUCO MAIS. LOGO AVISTA UM GRUPO DE MORADORES DE RUA. PENSA EM SE APROXIMAR DELES, MAS VÊ QUE ZELÃO ESTÁ ENTRE ELES. ZELÃO CONVERSA ANIMADAMENTE COM ELES. EM SEGUIDA TODOS SAEM, COM ZELÃO À FRENTE.

JOEL – Com certeza ele deve ter prometido para eles o mesmo que prometeu para mim: um lugar para viver entre irmãos, onde uns ajudam os outros. (TOM) Tudo mentira.

SENTE O ÍMPETO DE CORRER ATRÁS E ESCLARECER OS MORADORES DE RUA.

JOEL – Podia até lá e dizer tudo a eles. (TEMPO) Não vai adiantar nada. Eu conheço bem a covardia do Zelão.

CORTA PARA:

CENA 5 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL ESTÁ DIANTE DE RAMIRO.

RAMIRO – Ué!? Você está de volta?

JOEL – Sim. (TOM) Eu quero ajudar a libertar aquela gente.

RAMIRO – O que aconteceu? Por que mudou de ideia tão rápido?

JOEL – Acabei de ver o Zelão recrutando mais moradores de rua com suas falsas promessas.

RAMIRO – Ele faz isso sempre. Ele se aproxima dos moradores de rua e oferece um lugar para morar onde todos são irmãos e uns ajudam os outros, não é?

JOEL – Foi isso que ele fez comigo.

RAMIRO – E quando chega lá, ele os vicia em bebida e em drogas. Uma vez viciados, eles os escraviza obrigando-os a trabalhar para ele em troca de alguma bebida e droga. (TOM) Você teve sorte de sair daquele lugar.

JOEL – Diga o que eu tenho que fazer.

RAMIRO – Primeiro vou te mostrar uma coisa. Venha comigo.

RAMIRO SAI E JOEL O SEGUE.

CORTA PARA:

CENA 6 – EXTERNA/DIA – UMA RUA DO BAIRRO RIO COMPRIDO
RAMIRO E JOEL ANDAM PELA RUA. RAMIRO PARA E JOEL FAZ O MESMO.

RAMIRO – Vamos ficar por aqui.

JOEL – O que tem essa rua?

RAMIRO – Espere um pouco e você verá.

POUCO TEMPO DEPOIS SURGE ZELÃO ANDANDO PELA RUA E ENTRA NUMA CASA.

JOEL – Aquele é o Zelão. Que casa é aquela?

RAMIRO – Ele mora naquela casa.

JOEL – Como assim? Ele não mora no acampamento junto com todo mundo?

RAMIRO – Não. Zelão não é morador de rua como tenta fazer crer, Joel. Ele vive de explorar aquelas pessoas. E isso garante a ele uma boa vida. Dizem que ele é dono de muitas casas por aqui e que vive de renda.

JOEL – Filho da mãe! (TOM) Eu vou lá desmascarar esse desgraçado.

RAMIRO – Nada disso. (TOM) Nós vamos voltar e você vai fazer tudo o que combinamos.

CORTA PARA:

CENA 7 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL E RAMIRO. JOEL ESTÁ VESTIDO COM UM MENDIGO SUJO E MATRAPILHO.

JOEL – Que tal estou?

RAMIRO – Está bem. Quer dizer, está mal. (TEMPO) Com esse aspecto o Zelão vai pensar que você está mesmo na pior.

JOEL – (TOM) Aquele desgraçado vai se ver comigo.

RAMIRO – Nada de querer enfrentar o Zelão, Joel. Você vai fazer do jeito que combinamos. O Zelão é um traiçoeiro. Se ele descobrir o nosso plano pode matar você.

JOEL – (TEMPO) E o que vamos fazer com aquela gente?

RAMIRO – Isso você deixa comigo.

JOEL – Você e os seus segredos.

RAMIRO – (TOM) Existem muito mais segredos nessa história do que você pode imaginar.

CORTA PARA:

CENA 8 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
ALGUNS MORADORES DO ACAMPAMENTO ESTÃO POR ALI. JOEL CHEGA E VÊ SUZI ENTRE ELES. ELA CORRE ATÉ ELE.

SUZI – Joel! Você por aqui? Você está bem?

JOEL – Mais ou menos, Suzi. Estou com muita fome.

SUZI – O velho Ramiro ajudou você?

JOEL – Que nada! Aquele velho é muito sacana. Logo que eu fiquei bom, ele me mandou de volta para a rua.

SUZI – Estranho. Ela costuma ajudar a todo mundo.

JOEL – Acho que ele não foi com a minha cara. (TEMPO) Bom mesmo é o Zelão. Ele é amigo do povo de rua.

SUZI ACHA ESTRANHO O QUE ACABOU DE OUVIR.

SUZI – Você está bem mesmo?

JOEL – A cabeça não ficou muito boa não. Ando meio esquecido das coisas.

SUZI – Espera aí que eu vou chamar o Zelão.

SUZI SAI. OS OLHOS DE JOEL PASSEAM PELO ACAMPAMENTO. POR TODO LADO, DESOLAÇÃO. ROSTOS TRISTES, CORPOS DOENTES, SEM VIDA, SEM ESPERANÇA SE ESPALHAM PELO ACAMPAMENTO. MUITOS SE CONFUDEM COM CARCAÇAS, COM RESTOS. PELA PRIMEIRA VEZ, JOEL CHORA. NO FUNDO, ELE É UM DELES.

CORTA PARA:

CENA 9 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
JOEL ESTÁ DIANTE DE ZELÃO E SUZI.

ZELÃO – O que você quer aqui? Pensei que tivesse morrido.

JOEL – Oi, Zelão. Vim pedir para voltar. Acho que já estou bom para trabalhar. Preciso muito de sua ajuda.

ZELÃO – (DESCONFIADO) Sei. Mas você está disposto a fazer tudo o que eu mandar?

JOEL – Tudo.

ZELÃO – Pode ficar. (TOM) Dá um saco para ele, Suzi.  Vamos ver se ele ainda lembra como se GARIMPA.

SUZI ENTREGA UM SACO PLÁSTICO A JOEL.

ZELÃO – Pode ir.

JOEL – Não podia me dar um pouco de comida antes?

ZELÃO – Não. Você só vai comer quando voltar com o saco cheio. E não me venha com porcaria não. Quero garimpo de valor.

JOEL – E se eu não achar nada de valor no lixo?

ZELÃO – Rouba. (TEMPO) É o único jeito de você conseguir comida, cachaça e uma pedra. Entendeu? Agora vai.

SUZI TENTA APELAR PARA ZELÃO DAR COMIDA A JOEL, MAS ELE SE MOSTRA IRREDUTÍVEL. JOEL SAI.

SUZI – Podia ter dado ao menos um pouco de comida para ele.

ZELÃO – Nada disso. Eu quero ele assim mesmo: faminto e todo alquebrado. (TOM) No fim, você acabou fazendo o serviço bem feito, Suzi. O homem virou um trapo. Acho que agora você não vai mais querer se engraçar com ele, vai?

SUZI SE AFASTA E ZELÃO FICA SORRINDO.

CORTA PARA:

CENA 10 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
RAMIRO E JOEL.

RAMIRO – E então? Ele te aceitou?

JOEL – Tudo saiu do jeito que nós combinamos.

RAMIRO – (ENTREGA UM SACO) Leva essas coisas aqui e entrega a ele como sendo garimpo. Ele vai gostar.

JOEL – E o que eu faço agora?

RAMIRO – Agora vem a segunda parte do plano. (TEMPO) Você está pronto?

JOEL – Estou.

RAMIRO – Agora vai. Ele não pode desconfiar de nada.

JOEL SAI.

CORTA PARA:

CENA 11 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
JOEL ESTÁ DIANTE DE NESTOR E VÁRIOS OUTROS MORADORES DO ACAMPAMENTO.

JOEL – Eu descobri um lugar onde tem muito garimpo bom. Vocês não querem vir comigo?

NESTOR – Onde é esse lugar que eu não conheço?

JOEL – É só vir comigo que eu mostro.

JOEL VAI SAINDO E ALGUNS MORADORES RESOLVEM SEGUÍ-LO. QUANDO ELES ESTÃO SAINDO DO ACAMPAMENTO, ZELÃO SE APROXIMA.

ZELÃO – Onde vocês estão indo?

TODOS PARAM DIANTE DE ZELÃO.

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO