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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Preconceito.


      Que a vida está sempre nos surpreendendo, isso não é novidade para ninguém, não é mesmo? Só que enquanto essas surpresas são boas tudo muito que bem, mas quando elas não são exatamente aquilo que acreditávamos ser possível acontecer, então, a coisa "pega". A história que passo a narrar abaixo é bem um  exemplo de como nossa sociedade (na verdade, cada um de nós) não perdoa aqueles que vivem de forma diferente do pré-estabelecido e do convencional.
     Marly participava de um grupo, digamos, de música e oração. Ela sempre foi uma pessoa um tanto quanto fechada, de poucos amigos. Foi esse o motivo que a levou àquele grupo. Ela frequentava a igreja e um dia ouviu que estavam convidando pessoas para fazer parte de um grupo de música e como ela gostava de cantar (na verdade, o que ela queria mesmo era aprender a tocar violão), tomou coragem e  foi.
     Logo de cara, foi muito bem recebida, as pessoas até lhe foram solícitas e ela se sentiu bem. Chegou mesmo a pensar que tinha encontrado a "sua turma", tal foi a empatia. Logo começou a se destacar sendo chamada para participar de mais atividades tornando-se, inclusive, secretária do grupo. Marly nunca se sentiu tão bem. Aos poucos foi perdendo aquele seu jeito fechado e começou a se abrir com as pessoas.
     Passado algum tempo, ninguém, nem a própria Marly, reconheceria aquele "bichinho do mato" de antes, tal era a integração dela no grupo. Sua voz não era o que podia se chamar de bonita nem  afinada, mas o Maestro também se deixou contagiar por sua transformação e deixava que ela participasse sem cobrar-lhe muito apuro artístico. Mesmo porque aquele não era o objetivo do grupo, pois o que se queria ali era apenas louvar a Deus. Pelo menos, a intenção era essa.
    Porém, ao se sentir acolhida Marly pensou que podia abrir seu coração e deixar sair coisas que, muitas vezes, não ousaria. A aproximação de certas pessoas que ela admirava, o contato direto e, aparentemente, íntimo e franco a fez pensar que estava entre amigos e entre irmãos, como gostavam de dizer. Assim ela sentiu-se forte para confessar, num dia de conversa "aberta e descontraída", a sua opção sexual:
- É que, para falar a verdade, eu sou homossexual - confessou ela, emocionada, pensando que iria encontrar o apoio e a compreensão que tanto procurava e precisava.
    Foi o bastante para que ela passasse a não ser mais bem-vinda no grupo. Quando chegava já não era recebida com o entusiasmo de antes; quando tentava dar sua opinião ou falar alguma coisa já não era ouvida e nem sua companhia era mais requisitada. Sentiu mesmo que as pessoas a estavam evitando. Inicialmente, ela não entendeu o que estava acontecendo, chegou a pensar que tinha feito alguma coisa errada, ofendido alguém. Não conseguiu descobrir o porque daquela hostilidade tão repentina. 
     A partir daquele momento, Marly começou a fazer sua viagem de volta ao mundo fechado, escuro e sombrio que habitava antes. Aos poucos foi diminuindo suas idas aos encontros do grupo, até que um dia não apareceu mais. Para seus antigos "amigos" um alívio, afinal aquela pessoa que incomodava com seu jeito "diferente" já não estava mais por perto. Para ela, a certeza de que só era aceita enquanto mantinha em segredo sua verdadeira identidade.