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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Felicidade existe?

     Quando faziam essa pergunta para Elaine, ela fatalmente respondia que não. E não era um não baixinho, envergonhado ou indeciso. Era um não para acabar com qualquer dúvida possível. Essa pergunta era comumente feita a ela porque, visto de fora, ela parecia ter o que podemos chamar de uma vida perfeita: era bonita, bem casada, um casal de filhos, uma boa casa; ela e o marido eram formados ela, professora, ele, engenheiro. Os dois eram muito queridos dos familiares e amigos, chegavam a exercer uma certa liderança sobre todos e eram vistos como exemplos de pessoas bem sucedidas, casal apaixonado, filhos bem educados, enfim, uma vida que muitos pediram a Deus.
     O ceticismo de Elaine assustava um pouco. Era difícil acreditar que uma pessoa de certa forma abençoada por Deus, tivesse aquele tipo de visão da vida. Para ela tudo o que tinha conseguido na vida foi por seus méritos e esforços. Aquilo que todos chamavam de sorte, felicidade ela via apenas como resultado do seu trabalho. Segundo ela, tudo em sua vida tinha sido planejado. Desde criança ela planejou ser professora de português, disciplina em que sempre se considerou péssima, por isso decidiu estudar para aprender e acabou tornando-se doutora na língua. Doutorado para não ser uma professora qualquer, mas alguém com grande conhecimento. Elaine escreve livros sobre a língua portuguesa e é muito conhecida. 
    No casamento não foi diferente. A primeira vez que viu Paulo, ela decidiu que ele seria seu marido. Viu nele as características do homem com o qual queria casar e criar os seus filhos. Paulo nem a notava, envolvido com outras garotas, mas ela foi em frente e não demorou muito e eles estavam casados. Os filhos também foram planejados: um menino e uma menina. Nasceram Paulinho e Flávia.
     A casa com piscina, churrasqueira e tudo que uma família de classe média pode sonhar, o carro (na verdade, "os"), as viagens para o exterior, o doutorado para ela nada aconteceu por acaso. Pelo menos, ela pensava assim. Ela não acreditava em acaso, acreditava em planejamento, trabalho, dedicação. Era o que se pode chamar de uma pessoa pragmática.  De vez em quando ela gostava de lembrar o passado. Recordava a casa dos pais muito pobres, os seis irmãos... Ela foi a única a estudar. Estudou em colégios públicos, com esforço entrou na universidade. Chamava atenção para esse nosso contra senso: os alunos das escolas públicas geralmente não conseguem entrar para as universidades do governo, mas ele conseguiu. E da primeira vez.
    A vida de Elaine ia como ela desejava e planejava até que o destino lhe pregou uma peça. Algo que ela não planejou aconteceu. Numa tarde de sábado o telefone tocou e do outro lado uma voz:
- A senhora é dona Elaine?
- Sim. - respondeu ela, distraidamente.
- É que aconteceu uma coisa... Seu filho Paulo, ele foi assaltado.
- O que? Onde está meu filho? Quem está falando? Deixa  eu falar como meu filho. Passa o telefone para ele. - disse ela, com a autoridade de sempre.
- Eu sinto muito, dona Elaine. Seu filho está morto.
Naquele momento, Elaine sentiu seu mundo desabar. Aquilo não poderia ser verdade. Afinal, ela planejara um futuro brilhante para o filho. Ele ainda tinha que se formar, casar, ter filhos, ganhar muito dinheiro, ser um homem bem sucedido. Não poderia morrer assim de uma hora para outra mal começando a vida, sem mais nem menos.
     Porém, não teve outro jeito: Elaine, juntamente com o marido, Paulo, e a filha, Flávia tiveram que enfrentar a realidade: um bandido fortemente armado roubou o carro de Paulinho e, não satisfeito, atirou contra ele, covardemente, à queima roupa. Segundo as testemunhas, o bandido já estava de posse do carro quando efetuou os disparos contra Paulinho, que não ofereceu nenhum tipo de resistência. Parecia agir movido por raiva, ódio; Não como quem quisesse somente roubar um carro.
     A vida de Elaine e sua família sofreu uma forte transformação. Aquela mulher determinada, com um olhar sempre à frente, deu lugar a uma mulher triste e saudosa do tempo em que vivia feliz com os filhos e o marido. Como forma de extravasar sua dor, Elaine participou de passeatas, protestos, jurou que lutaria até o fim para que o assassino de seu filho passasse o resto de seus dias na prisão. O ódio e o ressentimento tomaram conta de sua vida. Elaine passou a viver para vingar a morte de seu filho. Abandonou o trabalho e a família. Quando deu por si o seu casamento já tinha acabado, sua filha tinha saído de casa e os amigos, antes tão próximos, tinham desaparecido. Elaine estava sozinha.
     Na sua solidão ela descobriu que a felicidade realmente existia e ela tinha sido muito feliz quando seu filho estava vivo e todos viviam confiantes e harmoniosamente. Agora sabia que aquilo que ela achava que era apenas fruto de seu planejamento era na verdade felicidade em estado puro. Agora tudo aquilo tinha acabado. Elaine lamentava não ter aproveitado mais aqueles momentos e quanto mais pensava nisso, mais ódio sentia do assassino do filho.
    Um dia Elaine teve uma ideia um tanto absurda. Resolveu ir até o presidio onde estava o assassino de seu filho. Queria olhar frente à frente para ele, interrogá-lo, saber por que ele destruíra a vida de seu filho e a sua própria. Teve dificuldade para conseguir seu intento, pois todos achavam aquilo fora de propósito. Não tinha cabimento ela fazer aquilo. Determinada, ela acabou conseguindo. Chegou o dia, e lá foi ela. Quando bateu os olhos no rapaz, ela não pode acreditar: ele era tão jovem quanto seu filho e por um momento ela chegou a pensar que estava reencontrando o seu Paulinho. Todo o seu ódio veio por terra. Ela que planejava partir para cima dele, dizer aquilo que estava preso em sua garante desde o assassinato do filho sentiu vontade, não de maltratá-lo, mas de dar-lhe um abraço apertado e chamá-lo de filho.
     Sem dizer nenhuma palavra Elaine saiu porta à fora. No caminho de volta para casa, sentia-se mais leve. Chegou em casa e, depois de muito tempo, dormiu um sono reparador. Durante o sono teve um sonho com o filho. No sonho ele estava abraçado com o seu assassino. Sorrindo, o filho lhe pedia que perdoasse aquele rapaz e acrescentava:
- Tudo faz parte de um plano infinitamente maior.
Quando acordou, Elaine tomou uma decisão que chocaria a todos: voltou ao presidio, teve uma longa conversa com o rapaz, coincidentemente também Paulinho, onde se inteirou de toda a vida rapaz: ele tinha vinte e dois anos, a mesma idade que seu filho teria, vivia com uma garota e tinha  uma filha. A partir daquele dia, Elaine os tomou como sua família. Aquele rapaz. antes o assassino cruel de seu filho, agora tomava o seu lugar.  Assim ela retomou sua vida e quando perguntada já consegue responder:
 - Sim, felicidade existe.

sábado, 24 de setembro de 2011

Falsos padrões de comportamento.

     Como todo bom brasileiro, Adolfo faz questão de dizer que não  é preconceituoso. Imagina! Ele jamais seria capaz de um ato desse tipo. Pelo contrário. Ele até faz questão de dizer que tem amigos negros, gays, favelados e mais um enorme grupo que ele considera estar na lista dos que podem sofrer preconceito.
- Isso não é atitude de um homem evoluído, antenado com o seu tempo. - diz ele, quando questionado sobre a possibilidade dele ter preconceito de alguém.
    Não sei se é necessário dizer, mas Adolfo acha que não se inclui em nenhuma das categorias acima descritas e nem em nenhuma outra. Para ser mais claro, ele faz questão de dizer que é loiro, que tem olhos azuis (difícil perceber, porque ele usa óculos de lentes grossas) e que comumente é confundido com estrangeiros (gringos), como se isso fosse um atestado, uma defesa:
- Isso que dá ser loiro e ter olhos azuis numa terra de mestiços, né? - diz ele, sem falsa modéstia.
   Esses atributos faz dele, segundo a sua estreita de visão de vida, uma espécie de semideus, ou seja, ele está livre de sofrer preconceitos de qualquer ordem. Que coisa boa, não? Adolfinho, como comumente é chamado pelos parentes e amigos, é uma figura. Baixinho, com uma calvície evoluindo para careca, com uns bons quilos acima do peso, pé chato e com uma voz um tanto desafinada, para não dizer outra coisa e, ia me esquecendo, sem muita coordenação motora.
     Porém, basta começar uma conversa qualquer para ele sair com meia dúzia de histórias que não nos deixam pensar outra coisa a seu respeito. Está sempre contando piadas envolvendo gays, negros, pobres, se espanta com casamentos ou amizades inter-raciais, ri de pessoas com defeitos físicos, gagueiras e etc, acha que pobre fede, que velho não presta para nada e que deve morrer e quando vê um travesti ou gay sai sempre com com coisas do tipo:
-  Ui, ui.. Olha a menina... E aí gostosona?
Mulher no transito para ele é o fim. Qualquer coisa e lá vem ele:
- Só podia ser mulher...
Com negros a situação não melhora nem um pouco:
- Marcinho é negro, mas é muito gente boa. O cara é muito gente fina. Ninguém diz que é crioulo. É o típico preto de alma branca. - diz, confiante que sua fala é legítima e que não está cometendo um ato preconceituoso ou criminoso.
     Como Adolfo, muitos vivem essa dicotomia: proclama que não são preconceituosos, mas seus atos e palavras parecem insistirem em ir para o lado contrário. Agem de forma preconceituosa exatamente por julgarem que não o são. Como se bastasse falar e as palavras agissem sozinhas, sem nenhuma coerência. Diz uma coisa e faz outra. Esquecendo-se que nossas palavras precisam estar conectadas com nossos atos e ações. Se assim não for, uma anula coisa a outra e o resultado é que a pessoa acaba sendo aquilo que afirma não ser. É provável que Adolfo gostaria de não ser preconceituoso, ser gente boa, um cara descolado, talvez apenas para ser politicamente correto como dita a moda dos nossos dias, mas não consegue.
   Por outro lado, coloca-se numa posição privilegiada onde nada pode atingi-lo e enganado vai levando a vida. Sem se dar conta de que somos todos iguais, que estamos todos sujeitos às mesmas "leis".

sábado, 17 de setembro de 2011

Questão de bom-senso

     É comum as pessoas confundirem seriedade com mau humor, falta de traquejo para levar a vida. Como se somente os extrovertidos soubessem o que é bom na vida. O resto é um bando de mau humorados que precisa afrouxar suas gravatas, desatar os seus cintos, lançar fora os sapatos apertados e ir para a avenida atrás do bloco dos felizes antes que seja tarde demais. Basta ver alguém que se preocupa um pouco mais com a correção, pontualidade, ou seja, pessoas com senso de responsabilidade para logo taxarem o dito cujo como alguém que não tem prazer de viver, que vive de mal com a vida.
      Com esse tipo de visão, na minha opinião, um tanto retorcida, muitos optam por levar a vida sem tomar muito a sério as coisas agindo, muitas vezes, de forma irresponsável e até leviana acreditando que assim estão se preservando de serem taxadas de pessoas que não  fazem parte do "deixa a vida me levar", como canta o "filósofo" Zeca Pagodinho.
    Muitos chegam a não levar absolutamente nada a sério. São capazes de dar gargalhadas num velório, perturbar o silêncio num hospital, profanar um ato religioso, rir da desgraça alheia. Em nome desse estilo de vida, não respeitam nada e nem ninguém. No popular, são aquelas pessoas que perdem o amigo mas não perdem a piada. Tudo o que fazem em nome da velha pergunta:
- Pra que levar tudo tão a sério?
    Para muitos essa forma de encarar a vida significa estar a salvo de problemas, aborrecimentos. Evitam tudo o que pode fazer pensar e assim trazer tristeza. A fome na África, os desastres naturais, as chacinas, tragédias nada lhes interessam. Por esse motivo, evitam tomar conhecimento das coisas chamadas indesejadas e beiram a alienação.
     Espera lá. É bem verdade que um pouco de bom humor não faz mal a ninguém. Alguns dizem, acertadamente, que rir é o melhor remédio. Só não podemos é rir de tudo, fazer da vida uma eterna piada. Concorda comigo? Tem hora para tudo nessa vida, não é? Tem hora de se divertir e tem hora do trabalho sério. Embora isso não signifique que há uma linha divisória entre as duas coisas. É claro que não há. Tem momentos em que as coisas se confundem um pouco mesmo, mas sempre... Aí a coisa pega. A pessoa corre o risco de, aí sim ,de ficar taxada de louca, de pessoa em que não de se deve confiar. Acha que existe coisa mais triste do que ser uma pessoa em quem não possa confiar, em quem não se possa contar numa hora de necessidade? Acredito que não. Por isso, temos que apelar para o bom senso, buscar o equilíbrio entre ser alguém de bem com a vida, que gosta de levar a vida sem fazer muito drama ou alguém simplesmente irresponsável.

sábado, 10 de setembro de 2011

Quando menos é menos mesmo.

     Existe um dito popular que diz que em certos casos "menos é mais". Essa máxima se emprega quando a pessoa é dada a exageros e o conselho surge para evitar que ela acabe, como também se diz popularmente, "pagando mico".  Até aí nada de mais, não é mesmo? Quem não gosta de ter alguém que lhe alerte naqueles momentos em que, por uma questão ou outra, acreditando que está fazendo o maior sucesso está, na verdade, é apenas dando o maior vexame. Confesso que adoraria. Eu também sou danado para errar a mão e acabar passando do ponto. Quando vejo, já fiz algo acima do tom. Quando o assunto é música então, estou sempre duas oitavas acima. Se não tenho alguém por perto para chamar a minha atenção, a coisa descamba para a gritaria.
     Exageros à parte, a minha intenção aqui é falar daquelas pessoas que se aproveitam dessa história para estar sempre dando o mínimo possível delas. Pode o mundo estar desabando que elas nem se mexem. Dão aquele seu "pouquinho quase nada" e pronto. E lá vão elas para suas casas certas de que aquilo era tudo o que tinham para dar e quem quiser que faça o resto.
    São pessoas até bem intencionadas, cheias de ideias, ninguém é capaz de negar isso,  mas que na "h" estão sempre com algum problema sério para resolver. E isso, naturalmente, as impedem de ajudar um pouco mais ou dedicar  mais tempo àquela causa, que elas acham da maior importância, mas... O problema é que elas já se comprometeram com outra coisa mais urgente. Se não fosse isso...
    Pura conversa fiada. O problema importante a resolver, muitas vezes, é apenas uma desculpa para fugir daquela responsabilidade ou apenas falta de coragem de dizer que não está nem aí para os outros e que, no fundo, jamais seria capaz de se doar realmente. O que quer é só fingir que tem amor pelo seu semelhante, principalmente o mais necessitado, porque isso o (a) deixa bem na foto. Vivemos numa época em que imagem é tudo. E fazer o chamado "politicamente correto" significa, em muitos momentos, falsear nosso verdadeiro caráter.  
    Pode parecer estranho, mas acho perfeitamente possível que uma pessoa seja egoísta, que só pense nela mesmam que não esteja nem aí para a hora do Brasil. Sei que isso é, aos olhos daqueles que não têm esse tipo de atitude diante da vida, algo condenável. Porém, existe o livre arbítrio,o direito de escolha. Cada um pode fazer livremente as suas escolhas e não se deve condenar alguém por não pensar como a gente, não é? Condenável talvez seja fingir caridade, fingir amor ao próximo, fingir que se importa com os outros. Nesse caso não tem meio tom. Ou somos caridosos, amorosos, disponíveis ou não. Não existe espaço para o fingimento. Definitivamente, nesse tipo de situação, menos é menos mesmo.  Muito menos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O sobrevivente.

    Houve uma grande mudança na firma em que eu trabalho. Algo um tanto drástico, pois de um dia para o outro toda uma estrutura que parecia mais firme que uma rocha, ruiu. Não sei se é necessário dizer que no meio dos escombros que eu sobrevivi, mas foi exatamente isso que aconteceu. Sim, eu sobrevivi. Ainda não posso dizer se isso foi bom ou não. Talvez seja cedo para tirar esse tipo de conclusão.
   A essa altura, imagino que você já esteja se perguntando: e o que eu tenho com isso? Pera lá. Provavelmente nada. Trata-se de uma situação corriqueira: firmas mudam de dono, diretorias caem, chefias são trocadas, mandatos de políticos chegam ao fim e o retrato sai da parede para dar lugar a outro, não é mesmo?
    Porém, não sei se você está me entendendo. Mas vamos lá: o que acontece é que eu nunca vivi essa situação de ser sobrevivente. Aí vem a pergunta que não quer calar: sobrevivente por que, cara pálida? Sobrevivente. Aquela situação que o cara vive quando todos "desaparecem" e ele fica para contar a história. Vou lhe contar uma coisa: nunca vivi nada mais estranho na vida. Uma situação muito maluca, cara. Todo mundo quer saber tudo e você fica lá no meio sem saber o que fazer: se responde tem a sensação de que está entregando a turma que saiu, se cala parece estar escondendo coisas. Além do que fica aquela eterna sensação de traidor da pátria. Como se eu me sentisse culpado por estar vivo (?). O mais difícil de tudo mesmo é encontrar com os "mortos e feridos". A acusação vem com toda certeza, com dedo em riste e tudo mais:
- Quer dizer que você ainda continua lá!?
Dá até para ouvir o "traidor" escapar entre os dentes. Já pensaram em uma situação mais esquisita? Pois essa é mais. Dá vontade de pegar o boné e cair fora. Está bem. Eu sei que você está tentando ser gentil, mas pode fazer a pergunta:
- Por que você ainda não fiz isso? - dirá você, depois de uma certa exitação. - E você acha que eu tenho pensado em outra coisa nos últimos tempos? Só penso nisso. Mas aí vem aquela história de que empregado não deve pedir para sair e sim esperar ser mandado embora. Parece coisa de doido, mas esse é o tal motivo que me mantém nesse papel, pouco honrado(preciso dizer), de sobrevivente. Mesmo porque, apesar de tudo o que se diz por aí, arranjar emprego não está essa moleza toda não.
     Outro dia estava conversando com uma conhecida e ela me disse algo que me deixou bastante intrigado. Ela disse que esse papo de que a escravidão acabou é furado. Os empregos de hoje não estão muito distantes da vida escrava do passado. No fundo ainda trabalhamos em troca de comida e moradia e quando abrimos mão disso voluntariamente ou não, quase sempre, acabamos indo parar, literalmente, no olho da rua. Eu que o diga. Embora considere essa minha conhecida um tanto radical nas suas opiniões e posições, não posso deixar de concordar com ela.
    Um dado relevante é que se formos pensar bem, nós até somos capazes de viver com pouco ou sem dinheiro nenhum e até viver num mundo de incertezas financeira. O que nos impede é que somos (olha minha a conhecida aí de novo) escravos do consumo. Como ela diz, não conseguimos viver sem alguns pequenos luxos (serão luxos mesmo?) como os eletrônicos, carros, roupas, sapatos, uma moradia decente, praia, cinema e é, pelo menos no meu caso, o salário no final do mês que garante isso. Por isso, confesso, a ideia de abrir mão do emprego me causa tanto desconforto. Não que eu não seja capaz de encontrar outro, mas procurar emprego nunca foi o meu esporte preferido. Não me sinto bem no papel de desempregado, disponível. Sinto-me rejeitado, excluído. Talvez alguns anos de análise resolvesse isso, não é?
   Como ainda pretendo continuar no emprego, tenho que aturar as perguntas sobre a antiga administração, cada uma mais desagradável que a outra,
 - E aí, o que você acha? Agora está melhor, não? A outra administração não te dava esse conforto, essas máquinas novas, esse ambiente de trabalho onde reina a camaradagem, onde você pode falar o que pensa, pode dar opinião e se fazer ouvir. Está ou não está melhor?
Sem ter muito o que dizer, olho o indivíduo com cara de sobrevivente que, para manter essa condição deve, acima de qualquer coisa, manter a boca fechada.   

sábado, 3 de setembro de 2011

Histórias inventadas

    Ela levou um susto enorme quando descobriu que podia fazer aquilo sem a ajuda de alguém. Durante muito tempo acreditou que não podia. Bastava ver-se sozinha diante de um elevador para sentir aquela sensação estranha, aquele medo que tomava conta de todo o seu corpo e então nada era capaz de fazê-la entrar num elevador desacompanhada. Os porteiros e moradores do prédio onde ela morava já sabiam disso. Alguns tinham pena dela e a ajudavam, mas outros além de fazer pouco de seu "medo de elevador" ainda riam dela, faziam comentários jocosos, impíngiam-lhe pequenas maldades.
    A situação durou anos. Definitivamente, ela não andava de elevador sozinha. Nada era capaz de mudar aquele estado de coisas: médicos, remédios, conselhos e exemplos e até mesmo a palavra dos técnicos que afirmavam que aquele aparelho era seguro e coisa e tal. Parecia que a situação não tinha saída. Até que alguém lhe fez aquela pergunta:
- Desde de quando você tem medo de elevador?
Ela já estava pronta para responder quando descobriu que não tinha resposta. Tudo que lembrava e que desde pequena sua mãe dizia que ela tinha medo de elevador, que quando bebê chorava muito quando entrava num deles e que a partir daí... Bem, a partir daí ela passou a ter isso como uma verdade e nunca discutiu o assunto: a mãe falava que ela tinha medo, então ela tinha medo. Não via por que discutir isso, pois sua mãe estava sempre por perto quando ela precisava andar de elevador. Só que ela foi crescendo e aquilo passou a ser um problema muito maior do que antes. A mãe já não estava tão presente para protegê-la do monstro chamado elevador e foi aí que...
    Histórias como essa são mais comuns do que se pode imaginar. Existem aos milhares por aí: são as histórias que se contam a respeito de pessoas, muitas vezes, sem que elas mesmas saibam como surgiram e muitas delas (as histórias, não as pessoas) não têm o menor fundamento e o que é pior: a própria pessoa acaba acreditando na história que se conta dela.  Geralmente essas histórias começam de maneira tímida e quando a pessoa (aquela da qual se conta a tal história) vê já não há como desmentí-las nem para os outros, nem para si.
    Essas histórias podem ser extreamamente negativas ou absurdamente positivas, ou seja, elas podem transformar um anônimo num herói do dia para a noite, mas também podem destruir a vida de uma pessoa. Em muitos casos elas marcam a vida das pessoas para sempre. E como uma marca, elas colam e são difíceis de sair, mesmo com sucessivos desmentidos, provas documentadas e tratamento de choque. Elas também podem ser simples do tipo: "Ela é fodona em inglês, sabia? Fala inglês como se fosse uma verdadeira inglesa"  E a fulana nem português fala direito,quanto mais inglês.  Ou graves como: "Ele já matou um homem". E o pobre coitado é incapaz de matar uma mosca.
    Creio que todo mundo conhece esse tipo de histórias envolvendo algum conhecido próximo ou distante. O fato é que um fala e os outros saem por aí repetindo. Repetem tanto que acabam virando uma quase verdade e passam a fazer parte da vida daquela pessoa, em muitos casos, causando constragimento e embaraços ou mesmo criando espequitativas falsas.
    Você já deve ter ouvido algo como: "minha mãe sempre disse que eu não tenho facilidade para aprender, por isso não estudo"; "eu não dou sorte na vida porque minha madrinha me rogou praga quando eu era pequeno" ; "ele é assim porque foi abandonado pela mulher"; " ele anda maltrapilho assim, mas tem muito dinheiro no banco, é milionário"; " não trabalho porque estudo para concurso". Mais do que histórias inventadas, são condicionamentos que criamos ou deixamos que se criem sobre nós  e que limitam a nossa vida. Como a moça do início texto, nós, muitas vezes, aceitamos condicionamentos que criam para nós e passamos a vida inteira paralisados por algo que nem mesmo sabemos como surgiu.