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domingo, 28 de abril de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 10

Neste capítulo, depois de se livrar de policiais, Joel conhece Zelão, um homem que vai
levá-lo a conhecer um lado da vida que ele nem fazia ideia que existia.

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 10



CENA 1 - EXTERNA/DIA - PORTA DO RESTAURANTE
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 9.
JOEL ESTÁ DIANTE DO RAPAZ QUE CARREGA UMA SACOLA COM UMA QUENTINHA.

MOÇO – O que foi que você disse?

JOEL – Me dá essa quentinha, moço. Eu estou com muita fome.

MOÇO – (PARA OS AMIGOS QUE O ACOMPANHAM) Vejam só. O mendigo quer a minha quentinha pra ele, gente.

JOEL – (OFENIDO) Eu não sou mendigo, moço. Sou apenas um desempregado.

MOÇO – Sai da minha frente, mendigo sujo. Se quer comer, vai trabalhar. Vê se eu tenho cara de quem sustenta vagabundo?

O MOÇO VIRA AS COSTAS E VAI SAINDO COM OS AMIGOS. JOEL SE ADIANTA E TENTA LHE TIRAR A SACOLA COM A QUENTINHA. UMA CONFUSÃO É FORMADA. A QUENTINHA CAI NO CHÃO. JOEL TENTA PEGAR A QUENTINHA NO CHÃO E A COMIDA SE PERDE.

 MOÇO – (AGREDINDO JOEL ) Veja o que você fez, imbecil.

NO MEIO DO TUMULTO, DOIS POLCIAIS APARECEM.

POLICIAÇ – Que baderna é essa?

MOÇO – Esse mendigo tentou roubar a minha comida.

POLICIAL –  (PARA JOEL) O senhor está preso.

JOEL – Eu não fiz nada. Apenas pedi para ele um pouco de comida.

OS POLICIAIS LEVAM JOEL, APESAR DE SUA RESISTÊNCIA. A CONFUSÃO É DESFEITA. PRÓXIMO DALI UM HOMEM MAL ENCARADO ASSISTE A TUDO COM INDISFARÇÁVEL INTERESSE.  É ZELÃO, MORADOR DE RUA.

CORTA PARA:

CENA 2 - EXTERNA/DIA - RUA UM TANTO DESERTA DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
CARRO DA POLÍCIA ESTACIONA E POLICIAL DESCE.

POLICIAL – (PARA ALGUÉM NO INTERIOR DO CARRO) – Vamos, desce.

JOEL – (DESCENDO DO CARRO) Já falei que não fiz nada, moço.

POLICIAL – Tô vendo mesmo essa sua cara de santinho. (TEMPO) Escuta aqui, malandro. Trata de desaparecer dessa área, tá ouvindo? Dessa vez, a gente vai livrar a tua cara. Mas da próxima a conversa vai ser bem outra. (GRITA) Entendeu?

JOEL – Tudo bem, moço. Só queria um pouco de comida. Não como faz três dias.

POLICIAL – Isso não é problema meu. A gente cuida da ordem. Barriga vazia é outro departamento. (EM TOM AMEAÇADOR) Agora se manda daqui antes que eu mude de ideia.  (GRITA) Sai fora.

JOEL COMEÇA A ANDAR MEIO INDECISO E FRACO. POLICIAL ENTRA NO CARRO, QUE PARTE.  NOVAMENTE O HOMEM MAL ENCARADO (ZELÃO) OBSERVAVA TUDO.

CORTA PARA:

CENA 3 - EXTERNA/DIA - UM BECO DE RUA
JOEL ESTÁ SENTADO. O HOMEM MAL ENCARADO APARECE, AVISTA JOEL E SE APROXIMA.

ZELÃO – (PUXANDO CONVERSA) A vida tá difícil, né?

JOEL – Se tá.

ZELÃO – E com a barriga vazia, fica mais difícil ainda.

JOEL – Eu que o diga. Tô há três dias sem botar nada que preste na boca.

ZELÃO – Eu sei o que é isso. Também já fiquei assim.

JOEL – Sem comer?

ZELÃO – Mais de uma semana. (TEMPO) Vi o que fizeram com você. Covardia. Não custava nada o cara ter te dado aquela quentinha. Cara bem empregado, podia comprar quantas quentinhas quisesse. O mundo é cheio de injustiça.

JOEL – Se é.

ZELÃO – Meu nome é Zelão. E o seu?

JOEL – Joel.

ZELÃO – Prazer, Joel. (TEMPO) Se tiver a fim, posso te levar num lugar onde você pode comer alguma coisa.

JOEL – (INTERESSADO) Onde é isso?

ZELÃO – Vem comigo.

JOEL LEVANTA E ACOMPANHA ZELÃO.

CORTA PARA:

CENA 4 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO PRÓXIMO A PRÉDIOS DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
HÁ DE TUDO NO LOCAL. BASTANTE ENTULHO, CARCAÇA DE CARROS, MUITO MATO, BARRACOS DE PAPELÃO E MADEIRA, MÓVEIS VELHOS ESPALHADOS PELO TERRENO, SOBRETUDO, SOFÁS VELHOS E SUJOS.
É UM LOCAL HABITADO POR MORADORES DE RUA. HÁ MUITOS DELES POR ALÍ.  ALGUNS ESTÃO COZINHANDO EM FOGÕES IMPROVISADOS.
JOEL CHEGA TRAZIDO POR ZELÃO.

ZELÃO – É aqui. Lugar sem luxo. Mas aqui ninguém nega um prato de comida prum irmão de infortúnio.

JOEL – Não sabia que existia lugares assim no meio da cidade.

ZELÃO – Pois a gente existe. Pra eles, nós somos o lixo da sociedade. (TEMPO) Agora, vamos deixar de conversa. Quero te apresentar para o pessoal.


CORTA PARA:

CENA 5 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
NO TERRENO TODOS PARTICIPAM DE UM “ALMOÇO”.  JOEL ESTÁ COMENDO ENTRE ELES, TENDO ZELÃO AO SEU LADO.

ZELÃO – E então, Joel?  Tá dando pra enganar a fome?

JOEL – Não sei nem como te agradecer, Zelão. Se não fosse isso, acho que ia morrer de fome.

ZELÃO – Que é isso? De fome não se morre. (TEMPO) Não enquanto eu tiver na área.

JOEL – Você faz parte de alguma religião?

ZELÃO – Que nada. (TEMPO) Apenas acredito que “é dando que se recebe”. Sabe aquela história do santo...

JOEL – Não entendo muito de santo não. Mas acho isso bom.

ZELÃO – (RINDO) “È dando que se recebe”.

ZELÃO SE AFASTA E JOEL CONTINUA COMENDO.
CORTA PARA:

CENA 6 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
OS HABITANTES DO TERRENO ESTÃO EM FESTA. ALGUNS TOCAM INSTRUMENTOS IMPROVISADOS, OUTROS CANTAM E DANÇAM. JOEL ESTÁ ENTRE ELES. JÁ ESTÁ TOTALMENTE INTEGRADO.

ZELÃO – E aí? Tá se divertindo?

JOEL – Muito. Isso aqui é muito bom. Acho que encontrei o lugar que eu procurava na vida.

ZELÃO – Como assim?

JOEL – È aqui que eu quero viver pra sempre.

ZELÃO – Não disse pra você? Aqui ninguém nega nada pra ninguém. Todo mundo aqui é irmão.

ZELÃO SAI E VOLTA COM MAIS BEBIDA E SERVE JOEL, QUE FICA CADA VEZ MAIS BÊBADO E ANIMADO. ZELÃO SE AFASTA E FICA OBSERVANDO A ANIMAÇÃO DE JOEL.

CORTA PARA:

CENA 7 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
JOEL ESTÁ DORMINDO NO CHÃO. ZELÃO ESTÁ CONVERSANDO COM UMA MOÇA.

ZELÃO – E o nosso novo amigo?

SUZI – Tá dormindo feito um rei.

ZELÃO – Acho que já está na hora de chamar o cara às falas.

SUZI – O que você vai fazer?

ZELÃO – Eu não vou fazer nada. Quem vai fazer é você.

ZELÃO COCHICHA ALGUMA COISA NO OUVIDO DE SUZI E SAI. SUZI SE APROXIMA DE JOELE TENTA ACORDÁ-LO.

SUZI – Ei! Tá na hora de acordar.

JOEL – (DESPERTANDO) Hora de acordar? Isso aqui não é o paraíso?

SUZI – Quem te disse isso? (TOM) Aqui quem não trabalha, não come. (TEMPO) Dá uma olhada pra ver uma coisa. Tá todo mundo na batalha, meu. Levanta e trata de se virar.

JOEL LEVANTA E VÊ QUE O TERRENO ESTÁ VAZIO DE PESSOAS. SÓ ELE E SUZI ESTÃO LÁ.

CORTA PARA:

CENA 8 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
SUZI PEGA UM SACO PRETO E ENTREGA A JOEL.

JOEL – O que eu faço com isso?

SUZI – Pega e,,, (TEMPO) Não vai me dizer que você nunca garimpou na vida?

JOEL – Garimpeiro de ouro?

SUZI – Não deixa de ser...(TEMPO) Agora pega isso e vai.  E quer um conselho?

JOEL – Todos. Sabe como é: é que eu sou novo nisso de viver assim na natureza como vocês. Eu sou trabalhador, entende? Apenas estou desempregado. Eu sempre vivi como gente.

SUZI – Já deu pra sacar. (TOM) Cuidado! O Zelão está de olho em você.

JOEL NÃO ENTENDE O CONSELHO.

CORTA PARA:

CENA 9 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
MOVIMENTO NO TERRENO ESTÁ GRANDE, A MAIORIA DOS MORADORES DE RUA TRAZ O QUE GARIMPOU. PERCEBE-SE QUE JOEL NÃO CONSEGUIU NADA.

SUZI – Parece que seu protegido não conseguiu arranjar nada. Também, pelo que ele me disse...

ZELÃO – (NERVOSO) O que foi que ele disse?

SUZI – O moço é cheio de não me toques. Diz que não está acostumado a viver assim, que sempre viveu feito gente.

ZELÃO – Ah! Filho da mãe.

CORTA PARA:

CENA 10 - EXTERNA/DIA - TERRENO BALDIO
JOEL ESTÁ CONVERSANDO COM ALGUNS MORADORES DO TERRENO. ZELÃO CHEGA E O ARRASTA PARA O LADO.

ZELÃO – (PUXANDO JOEL) Acho que a gente precisa ter uma conversinha.

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO

domingo, 21 de abril de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 9

Neste capítulo, Joel começa a sentir o peso de sua irresponsábilidade diante da vida. Que será que o futuro lhe reserva?

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 9


CENA 1 - EXTERNA/DIA - RODOVIÁRIA NOVO RIO
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 D0 CAPÍTULO 8
JOEL E VERINHA ESTÃO NA PLATAFORMA DE EMBARQUE.

VERINHA – Chega de história, Joel. Perdi muito tempo da minha vida com você. Agora quero recuperar o tempo perdido. (TEMPO) Esquece que eu existo, Joel. É melhor para nós dois.

JOEL – Não posso acreditar que você esteja fazendo isso comigo. (TOM) Você não tem coração, Verinha? Não vê que eu não posso viver sem você?

VERINHA – Deixa de cinismo. (TOM) Você está livre para viver do jeito que sempre quis. Aproveita, Joel. Seja feliz.

UM ÔNIBUS ESTACIONA NA PLATAFORMA.

VERINHA – Chegou a minha hora. Eu tenho que ir.

JOEL – Não vai me dar nem um beijo de despedida?

VERINHA – Melhor não. (ENTRANDO NO ÔNIBUS) Adeus, Joel.

VERINHA ENTRA NO ÔNIBUS E JOEL FICA PARADO NA PLATAFORMA, SEM AÇÃO.  QUANDO O ÔNIBUS SAI, JOEL O ACOMPANHA IMPLORANDO QUE VERINHA FIQUE. DENTRO DO ÔNIBUS, VERINHA MANTÉM-SE FIRME EM SUA DECISÃO.

CORTA PARA:

CENA 2 - INTERNA/DIA – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
JOEL VEM ENTRANDO CAMBALEANDO  E O HOMEM O ABORDA.

HOMEM – Como é que ficamos, seu Joel?

JOEL – Como assim? “Como é que ficamos?”

HOMEM – O senhor sabe do que eu estou falando.

JOEL – Não faço a menor ideia.

HOMEM – Vamos falar sério, seu Joel. (TOM) Não dá mais para esperar. O senhor está devendo duas semanas.

JOEL – Pode ficar descansado, senhor...

HOMEM – Matias, senhor Joel. Meu nome é Matias.

JOEL – Senhor Matias. Pode deixar. Amanhã eu pago tudo. (SUBINDO AS ESCADAS) Amanhã.

O HOMEM FICA OBSERVANDO JOEL SUBIR AS ESCADAS TROPEGAMENTE.

CORTA PARA:

CENA 3 - EXTERNA/DIA - UMA RUA QUALQUER DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
JOEL ANDA SEM RUMO PELA RUA. DE REPENTE PARA DIANTE DE UMA LANCHONETE E FICA OBSERVANDO A VITRINE. ENTRA E PEDE ALGUMA COISA NO BALCÃO.

JOEL – Me dá duas coxinhas, três pastéis, dois joelhos e um misto quente. Para beber, um suco de laranja.

ATENDENTE – Cadê a ficha?

JOEL – Que ficha?

ATENDENTE – Tem que pegar a ficha no caixa. (TOM) Próximo...

JOEL ENFIA A MÃO NO BOLSO E DESCOBRE QUE ESTÁ SEM DINHEIRO. PASSA A MÃO NA BARRIGA E DESCOBRE QUE VAI TER QUE CONTINUAR COM FOME E VOLTA A ANDAR SEM RUMO.

CORTA PARA:

CENA 4 - INTERNA/NOITE – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
JOEL VAI ENTRANDO E SEU MATIAS (HOMEM) O INTERCEPTA.

MATIAS – Cadê o pagamento, seu Joel?

JOEL – Que pagamento? Não lhe devo nada.

MATIAS – Vai bancar o engraçadinho, é? (FAZ SINAL PARA UM HOMEM FORTE QUE ENTRA E ENCARA JOEL)

JOEL – O que é isso?

MATIAS – O senhor vai pagar ou não vai?

JOEL – Sabe o que é seu...

MATIAS – Matias.

JOEL – Seu Matias.  É que eu estou meio sem dinheiro, o senhor entende? Mas eu vou pagar tudo assim que eu receber uma grana aí que eu tenho pra receber.

MATIAS – Estou cansado das suas desculpas. (FAZ SINAL PARA O HOMEM FORTE) Bota esse mendigo daqui pra fora.

JOEL – Eu não mendigo não.

O HOMEM FORTE PEGA JOEL PELO COLARINHO E O ARRASTA PARA A RUA.

CORTA PARA:

CENA 5 - EXTERNA/NOITE - UMA PRAÇA QUALQUER
JOEL VAGA PELA PRAÇA SEM SABER O QUE FAZER. É NOITE ALTA E FAZ FRIO, CHOVE. JOEL SENTE MUITO FRIO.

JOEL – E agora, rapaz? Como se diz no popular: você tá fodido e mal pago. (VÊ UM BANCO VAZIO PERTO DELE) O jeito é se arranjar por aqui. Se, pelo menos, tivesse uma cachacinha pra beber. (PROCURA ALGUMA MOEDA NO BOLSO) Nem para uma cachaça você tem dinheiro, Joel. É o fundo do poço, mesmo.

JOEL SENTA NO BANCO E DEPOIS DE UM TEMPO RESOLVE DEITAR. EM POUCOS MINUTOS ESTÁ DORMINDO.

CORTA PARA:

CENA 6 - EXTERNA/DIA - UMA PRAÇA QUALQUER.
(A MESMA PRAÇA DA CENA 5)
JOEL AINDA ESTÁ DORMINDO NA PRAÇA, APESAR DO MOVIMENTO DE PASSANTES. ENTRE ELES ESTÁ FÁBIO. FÁBIO PASSA E FICA INTRIGADO.

FÁBIO – Será que é o Joel?

FÁBIO RESOLVE VOLTAR E SE CERTIFICAR QUE O HOMEM QUE DORME NO BANCO DA PRAÇA É MESMO SEU AMIGO JOEL.

FÁBIO – (CONFERINDO) Meu Deus! É o Joel mesmo. (TENTA DESPERTAR JOEL) Joel, Joel...

JOEL – O que é? O que foi? Me deixa.

FÁBIO – Joel, você está dormindo no meio da praça. Você passou a noite aqui?

JOEL – O que você tem com isso?

JOEL RECONHECE FÁBIO E SAI CORRENDO.

FÁBIO – Volta aqui, Joel. Volta aqui.

JOEL CORRE PARA LONGE E MISTURA À MULTIDÃO. FÁBIO TENTA SEGUÍ-LO, MAS O PERDE DE VISTA.

FÁBIO – Era só o que faltava. (TRISTE) Será que o Joel tá morando na rua?

CORTA PARA:

CENA 7  - INTERNA/DIA – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
FÁBIO ESTÁ FALANDO COM O SENHOR MATIAS (HOMEM).

FÁBIO – Acho que o senhor deve se lembrar de mim. Meu nome é Fábio. Estive aqui algumas vezes pra falar com um amigo meu Joel. O senhor se lembra dele?

MATIAS – E como não? (TEMPO) Um pilantra, vagabundo.

FÁBIO – Como assim? O Joel é um cara muito direito. Ele só está um pouco confuso porque perdeu o emprego, a noiva foi embora pra terra dela, a mãe foi morar com a irmã dele. Enfim...

MATIAS – Histórias tristes é que não faltam por aqui. Mas isso não justifica o cara ser pilantra, mau caráter. (TOM) O senhor acredita que ele ficou morando aqui quase um mês e não me pagou um tostão?

FÁBIO – È mesmo?

MATIAS – Fui confiar no bandido. Mas também, recebeu o que merecia. Foi colocado daqui pra fora na base do pontapé. (TOM) Ora, veja. A gente tentando trabalhar honestamente e me aparece um tipo desses.

CORTA PARA:

CENA 8 - EXTERIOR/DIA - UMA RUA QUALQUER DO CENTRO DA CIDADE
RUA MOVIMENTADA.
JOEL ESTÁ ANDANDO PELA RUA E PARA NA PORTA DE UM RESTAURANTE. VÊ AS PESSOAS COMENDO.
CLOSE EM JOEL. ELE PENSA. DE REPENTE, SEU PENSAMENTO O AFASTA DALÍ.

CORTA PARA:

CENA 9 - EXTERNA/DIA -  RUA -  EM FRENTE AO RESTAURANTE
FÁBIO CAMINHA COM JOEL. FÁBIO PARA E SE DIRIGE A UM HOMEM QUE ESTÁ SENTADO NO CHÃO E ENTREGA A ELE O EMBRULHO COM A QUENTINHA. O HOMEM  TEM REAÇÃO DE FELICIDADE E AGRADECE A FÁBIO. JOEL FICA INCOMODADO COM A CENA:

JOEL – Qual é, Fábio? Deu agora pra alimentar vagabundo?

FÁBIO – Esse homem não é um vagabundo. É seu Ramiro, um homem trabalhador. Depois que sofreu um revés da vida, ficou assim.

JOEL – E o que você tem com isso? Quem tem cuidar disso é o governo, não?

FÁBIO – Pode até ser, Joel.   Mas não consigo ficar de braços cruzados vendo alguém nessa situação.

JOEL – Você é um idiota, Fábio. Pra mim, vagabundo tem mais é que morrer de fome.

FÁBIO – Não fala uma coisa dessas, Joel. Nunca se sabe o dia de amanhã.

(JOEL MOSTRA-SE BASTANTE INCOMODADO COM A CONVERSA E ACABA DEIXANDO FÁBIO PARA TRÁS. FÁBIO CONTINUA CONVERSANDO COM O MENDIGO, TRATANDO-O COM HUMANIDADE E RESPEITO)

(ATENÇÃO PRODUÇÃO: ESSA CENA É A CENA 10 DO CAPÍTULO 1. AQUI ELA É UMA LEMBRANÇA DE JOEL)

CORTA PARA:

CENA 10 - EXTERNA/DIA- RUA – PORTA DO RESTAURANTE
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 8.
JOEL PERMANECE NA PORTA DO RESTAURANTE. DE REPENTE SAI UM HOMEM DE DENTRO DO RESTAURANTE CARREGANDO UMA BOLSA COM UMA QUENTINHA. ELE ESTÁ ACOMPANHADO DE OUTROS DE SUA MESMA IDADE. JOEL SE APROXIMA DO HOMEM.

JOEL – Ei, moço. Me dá essa quentinha?

MOÇO – (ASSUSTADO) – O quê?

JOEL – Me dá essa quentinha, moço. Eu estou com muita fome...

CORTA PARA:
FIM DO CAPÍTULO


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ponha-se no meu lugar.

     Quantas vezes você já ouviu isso na vida? Muitas vezes, não é mesmo? Vira e mexe e alguém aparece com essa proposta como forma de fazer a gente entender o seu ponto de vista em algum assunto ou com o simples intuito de nos sensibilizar. Dessa maneira, acredita-se que o outro consiga ver com os seus próprios olhos aquilo se vê.
     Geralmente, o efeito provocado é o da mudez. Ninguém, que eu saiba, já tentou sentir exatamente aquilo que o outro está sentindo, tomar para si a dor do outro de forma literal e radical. O que acontece é que a gente acaba fazendo um recuo e com isso termina por concordar com o interlocutor ou simplesmente se afasta da questão.
     Foi uma, digamos, proposta dessas que me fez pensar se realmente eu seria capaz de me "colocar no lugar do outro", sentir a dor ou a alegria que ele está sentindo. Acabei por me lembrar de um pensamento ou coisa parecida que diz mais ou menos o seguinte: "ninguém é capaz de sentir a dança do amor e da dor em seu lugar, sua vida só você a vive". Não sei se reproduzi fielmente, mas a minha intenção é mostrar com isso é, na realidade, difícil.
     É difícil se colocar no lugar do outro. Por mais racional que a gente seja, não sabemos o que faríamos nessa ou naquela situação, passando por esse ou aquele percalço. Tem gente que se mostra forte ao enfrentar um momento difícil, mas desaba ao receber um simples elogio ou um pouco mais de atenção de uma pessoa querida.
     Já outros se mostram apavorados ao menor sinal de que alguma coisa não vai  do jeito que se quer e quando elas estão bem não faz o menor esforço para assim mantê-las. Isso prova que cada um de nós é diferente do outro, vê a vida por prismas diferentes e, portanto, tem reações e atitudes diversas mesmo vivendo situações parecidas.
     Acima de tudo, colocar-se no lugar do outro é um exercício duro, penoso, mas necessário muitas vezes para que não façamos julgamentos apressados e sejamos carrascos demais com os outros. Mais do que isso, é um exercício de humildade, de compaixão em relação ao nosso semelhante.
     Por mais que seja difícil, impossível, é preciso tentar. Principalmente, mudando um pouco a pergunta e transformando-a em: "se fosse eu: o que eu faria? Em muitos casos. chegamos a conclusão de que teríamos atitudes muito mais radicais do aquelas que vemos os outros tomarem. Não é mesmo?
Bom fim de semana para todos.

domingo, 14 de abril de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 8

     Neste capítulo Joel recebe ajuda do amigo Fábio para tentar reconquistar Verinha e acertar a sua vida. Será que ele vai aproveitar essa chance? Leia o capítulo e descubra.

SÓ A VIDA ENSINA

CAPÍTULO 8



CENA 1 - INTERNA/DIA - QUATRO DE HOSPEDARIA
CONTINUAÇÃO IMEDITATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 7
FÁBIO E O HOMEM ESTÃO DIANTE DE JOEL, DEITADO NA CAMA.

FÁBIO – (PARA O HOMEM) Pode deixar. Agora eu me entendo com ele.

HOMEM – (DESCONFIADO) Olha lá, moço. Não quero saber de rolo aqui no meu estabelecimento. Se o moço aí te deve alguma coisa, é melhor acertar lá fora.

FÁBIO – Pode ficar tranqüilo. Sou amigo dele.

HOMEM – E um homem nessa situação tem amigo?

FÁBIO – (TENTANDO ACORDAR JOEL) Joel, acorda. Acorda, Joel.

HOMEM – Ele não vai acorda, não. Chegou muito doidão.

FÁBIO – Faz muito tempo que ele está morando aqui?

HOMEM – Mais ou menos uma semana.

FÁBIO – O Senhor podia dar um recado a ele?

HOMEM – Sim.

CORTA PARA:

CENA 2 - INTERNA/DIA - RECEPÇÃO DA HOSPEDARIA.
HOMEM DA CENA 1 ESTÁ NA RECEPÇÃO.
JOEL DESCE AS ESCADAS INDO PARA RUA.

HOMEM – Seu nome é Joel?

JOEL – Sim.

HOMEM – Tem um recado pro senhor.

JOEL – Recado?

HOMEM – Teve um moço aí dizendo ser seu amigo.

JOEL – É engano. Eu não tenho amigo, não. (SAI)

CORTA PARA:

CENA 3 - EXTERNA/DIA - UMA RUA QUALQUER
FÁBIO E VERINHA CONVERSAM.

FÁBIO – Precisava ver o estado dele, Verinha. Coisa de cortar o coração. (TEMPO) O Joel está virando um molambo.

VERINHA – E o que eu posso fazer?

FÁBIO – Dá uma chance para ele, Verinha. Quem sabe ele não toma um rumo na vida. (TEMPO) E você gosta dele que eu sei.

VERINHA – Mas eu estou mesmo resolvida a voltar pra minha terra.

FÁBIO – Pensa um pouco, Verinha. Perdoa as besteiras que ele fez. Dê uma chance para o amor de vocês dois.

VERINHA FICA MEIO INDECISA.

CPRTA PARA:

CENA 4 - INTERNA/DIA - HOSPEDARIA ONDE JOEL ESTÁ MORANDO - QUARTO
JOEL ESTÁ DEITADO. A PORTA ABRE E FÁBIO ENTRA.

JOEL – O que você quer aqui?

FÁBIO – Que é isso, Joel? Esqueceu que somos amigos?

JOEL – Amigo? Essa é boa. (TOM) Se eu tivesse amigo, não estava vivendo numa espelunca dessas.

FÁBIO – O que você quer que eu faça? (TEMPO) Lá em casa não dá para você ficar. A Marluce acha...

JOEL – (INTERROMPENDO) Eu sei o que a Marluce pensa de mim. Pra ela eu sou um cachaceiro que tira você do bom caminho. (TOM) Quer saber de uma coisa? Eu não vou ficar aqui falando com traidor. (LEVANTA E SAI)

FÁBIO – Espera aí, Joel. Que história de traidor é essa? (SAI)

CORTA PARA:

CENA 5 - EXTERNA/DIA - RUA  - EM FRENTE À  HOSPEDARIA
JOEL ESTÁ CAMINHANDO APRESSADO. FÁBIO É MAIS RÁPIDO E O ALCANÇA.

FÁBIO – Que história é essa, Joel? Eu nunca traí você.

JOEL – Não mesmo?

FÁBIO – Não.

JOEL – E o meu cargo de chefe lá no escritório? Soube que seu Olavo subiu você de cargo: agora é chefe. (TEMPO) Esse cargo era meu.

FÁBIO – Que bobagem é essa, Joel? Você saiu de lá, esqueceu?

JOEL – Era tudo o que você queria: ficar no meu lugar. Ser o chefe.

FÁBIO – Deixa de bobagem, Joel. Você não tá falando coisa com coisa. (TEMPO) Eu só vim aqui pra te dar um recado.

JOEL – Que recado?

FÁBIO – A Verinha está indo embora. Você está prestes a perder a mulher que você ama pra sempre.

JOEL SE ASSUSTA COM A REVELAÇÃO.

CORTA PARA:

CENA 6 - INTERNA/NOITE - CASA DE VERINHA -  SALA
JOEL, FÁBIO E VERINHA ESTÃO DE PÉ NO MEIO DA SALA.

VERINHA – Que é isso, Fábio? Eu falei pra você não dizer nada pra esse cara.

JOEL – Quer dizer que você ia me deixar sem nem uma despedida?

VERINHA – Você não merece nenhum tipo de consideração.

JOEL – Olha como ela me trata, Fábio. (TOM) Essa mulher quer destruir o meu coração.

FÁBIO –  (MEIO SEM JEITO) Eu vou deixar vocês sozinhos. Vocês têm muito que conversar. (SAI)

VERINHA – Volta aqui, Fábio. Eu não tenho nada para falar com esse cara.

JOEL – (APROXIMA-SE DE VERINHA E TENTA ABRAÇÁ-LA) Será que não temos mesmo? (TOM) Me dá uma chance, meu amor. Se for preciso, eu me ajoelho aos seus pés. (AJOELHA-SE) Olha aqui, eu já estou de joelhos.

VERINHA – (ENCABULADA) Para com isso, Joel.

CORTA PARA:

CENA 7 - INTERIOR/DIA - CASA DE VERINHA -  QUARTO
JOEL E VERINHA ESTÃO NA CAMA. TERMINARAM DE FAZER AMOR.

JOEL – Daria tudo pra ficar com você pelo resto de minha vida.

VERINHA – Lá vem você com suas velhas promessas. (TEMPO) Tô cansada de suas promessas, Joel.

JOEL – Agora é sério, Verinha. Quero ficar com você. Só você... Acredita em mim, meu amor.

VERINHA – Deixa de conversa, Joel. Você não me engana mais. (TOM) Minha decisão já está tomada. Acertei tudo com dona Damares. Vou embora, amanhã.

JOEL – Não faça isso, meu amor.

CORTA PRA:

CENA 8 - INTERIOR/DIA - CASA DE VERINHA - QUARTO
VERINHA ESTÁ PREPARANDO SUAS MALAS TENDO JOEL DO SEU LADO.

JOEL – Não faça isso, Verinha.

VERINHA – (ABORRECIDA) Para com isso, Joel! Há dias que você repete sempre a mesma coisa. Já não aguento mais isso.

JOEL – Eu vou continuar repetindo até você mudar de ideia. (TOM) Não faça isso, Verinha. Eu prometo que vou tomar juízo, virar um homem sério para ser digno do seu amor, prometo.

VERINHA – Seria tão bom se isso fosse verdade.

JOEL – E é verdade. Pode acreditar.

VERINHA – (DECIDIDA) Está bem. Pode parar com isso. Eu fico.

JOEL – (FELIZ) Verdade?

VERINHA – Verdade. (TOM) Mas olha lá: qualquer deslize seu e eu me mando.

JOEL – Tá combinado. Agora vamos desfazer essas malas.

CORTA PARA:

CENA 9 - INTERIOR/DIA. - CASA DE VERINHA – SALA CONJUGADA COM COZINHA
VERINHA ESTÁ TODA FELIZ PREPARANDO UM JANTAR. A TODA HORA OLHA NO RELÓGIO, VAI ATÉ A JANELA E DÁ UMA OLHADA.

VERINHA – O que foi feito do Joel? Até essa hora e ele não voltou.

PASSA MAIS ALGUM TEMPO, A PORTA SE ABRE E JOEL ENTRA COM ALGUNS COMPANHEIROS. ESTÃO TODOS BÊBADOS E MALTRAPILHOS.

JOEL – Verinha esses são os meus amigos. Amigos, essa é Verinha. A melhor mulher do mundo.

VERINHA – O que significa isso, Joel? Quem são esses homens?

JOEL – São meus amigos. Eles vão jantar com a gente.

VERINHA – Onde você encontrou essa gente? (TOM) Olha aqui, Joel. O jantar que eu estou preparando é para nós dois, não para um bando de bêbados. Quer fazer o favor de pedir para os seus AMIGOS irem embora?

JOEL – Que é isso, Verinha?  Se eles forem embora, eu vou com eles.

VERINHA – Faça isso. (TOM) E me faz o favor de não voltar mais. (GRITA) Nunca mais.

CORTA PARA:

CENA 10 - EXTERNA/DIA - RODOVIÁRIA NOVO RIO
VERINHA ESTÁ ESPERANDO UM ÔNIBUS NA PLATAFORMA. JOEL ESTÁ DO SEU LADO, INCONFORMADO.

JOEL – Você não vai mesmo mudar de ideia?

VERINHA – O que você acha?

JOEL – Eu sei que errei, Verinha, mas pensa melhor. A gente se ama. Nosso amor não pode terminar assim.

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO


sexta-feira, 12 de abril de 2013

OBRIGADO!

     Mais do que um simples sinal de educação, agradecer é um gesto cheio de significados. Tem gente que não agradece nunca. Pode receber a gentileza que for que continua agindo como se todo mundo só existisse para servi-la.
      Adentra-se à uma porta aberta como se a porta fosse automática ou se abrisse com a força do pensamento. Simplesmente não se digna a olhar para o lado e ver a mão que prontamente a abriu.    
     Isso só para dar um único exemplo das muitas gentilezas que recebemos (e ofertamos) no nosso dia a dia e que, muitas vezes, passam desapercebidas ou que, dado o costume (bom costume, é preciso que se diga) fazemos sem nos dar conta da sua grandeza.  
     Pessoas que agem assim, não esperam recompensas, é verdade. Agem assim porque assim é o seu natural. São pessoas que sabem que o mundo é habitado por outras pessoas além delas e sabem como é agradável receber uma gentileza por mais simples que seja e até por mais desnecessária que seja.
     Porque muitas vezes aquela ajuda que recebemos ou que oferecemos não é mesmo assim tão necessária. O que vale é o gesto feito, a intenção de ser útil, a beleza da mão estendida em nossa na nossa direção ou a vontade de amparar o outro. Nesses momentos, é como se um dissesse para o outro:
- Você não está sozinho. Eu estou aqui com você.
Verdade seja dita, muitas vezes, a ajuda oferecida nem resolve e nem nós temos certeza se podemos realmente ajudar. O que vale é a intenção, o desejo de que o outro se sinta melhor.
     Já tem outras pessoas que agradecem o tempo todo. Até por aquilo que não receberam. Estão sempre dizendo obrigado. Que bela palavra é "obrigado". Ela tem uma capacidade tão grande de mudar uma situação, de criar um clima de tranquilidade ao que a diz e àquele que a ouve.
     Meu Deus. Que vontade de sair dizendo, obrigado!, a todos que eu encontrar pelo caminho. Obrigado você que acessa o meu blog e lê o que eu escrevo. OBRIGADO! OBRIGADO POR TUDO E PARA SEMPRE!
     Sobretudo, OBRIGADO DEUS!, por tudo o que faz por mim.

OBRIGADO!

domingo, 7 de abril de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 7

No capítulo 7, mais da vida errante de Joel.

SÓ A VIDA ENSINA
Capítulo 7


CENA 1 - INTERIOR/NOITE - CASA DE VERINHA - QUARTO
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 6
JOEL E VERINHA AINDA ESTÃO NA CAMA. VERINHA PERMANECE CALADA.

JOEL – Eu lhe fiz uma pergunta.

VERINHA – Preferia não falar sobre isso, Joel.

JOEL – Por quê?... (TOM) A gente está junto há tanto tempo... E depois, você sempre quis casar, não quis?

VERINHA – Sempre quis, Joel. (TEMPO) Mas não desse jeito.

JOEL – Desse jeito, como?

VERINHA – Assim, correndo. Parece que está tirando o pai forca. Assim, eu não quero. (SONHADORA) Casamento, pra mim, é com igreja, padre, convidados, festa. (TOM) Você só quer casar agora porque está sem lugar para morar.

JOEL – O quê?

VERINHA – É isso mesmo, Joel. Você vem com esse jeitinho de apaixonado, mas o que você quer é um lugar para morar. Pensa que eu não sei? (TOM) Vê se te orienta, Joel. Não sou mulher de sustentar homem.

CORTA PARA:

CENA 2 - EXTERIOR/DIA - BANCO DE PRAÇA
JOEL E FÁBIO ESTÃO SENTADOS.

JOEL – Ela disse que não quer se casar comigo, Fábio.

FÁBIO – Ela falou assim, na lata?

JOEL – Com todas as letras. Só faltou me chamar de vagabundo. Disse que eu só quero me casar com ela porque estou sem ter onde morar. Vê se pode?

FÁBIO – Vamos ser sinceros, Joel. No fundo é isso mesmo, não é? Fala a verdade. Depois de enrolar a pobre da Verinha por tanto tempo, você aparece com essa história de casamento e justo no momento em que você tá... (TOM) Ela percebeu, Joel. A Verinha é apaixonada, mas não é burra.

JOEL – É...  Acho que você tem razão. Eu sempre abusei da boa vontade dela. Ela sempre ali, apaixonada, perdoando cada deslize meu. E eu sempre aprontando.

FÁBIO – Foi por isso que eu tratei de me sossegar com a Marluce. Vida de solteiro é boa, mas de casado pode ser melhor. (TOM) Marluce é uma companheira e tanto.

JOEL  – Falou, o apaixonado.

FÁBIO – E tô mesmo. (TOM) E você devia fazer o mesmo com a Verinha.

JOEL – Mas ela não me quer.

FÁBIO – Quer sim, homem. A Verinha é louca por você. Conversa com ela direito. Prova pra ela que você tá mudado.

JOEL – (RESOLVIDO) É isso mesmo que eu vou fazer.

CORTA PARA:

CENA 3 - EXTERNA/NOITE. - PORTA DA CASA DE VERINHA
JOEL ESTÁ PARADO NA PORTA, VERINHA CHEGA VINDO DO TRABALHO.

VERINHA – O que você está fazendo aqui, Joel? Não disse que não quero saber de você aqui? Minha casa não é nem pensão, nem hotel. Pode dar o fora.

JOEL – Não fala assim, Verinha. Vamos conversar. (TOM) Eu sei que sempre aprontei com você, que fui um canalha. Mas eu mudei, meu amor. Só agora caí em mim e vi a mulher maravilhosa que você é. Me dá uma chance, umazinha só.

VERINHA – (NERVOSA) Para com essa conversa, Joel. Daqui a pouco os vizinhos vão reclamar.

JOEL – Então, vamos conversar lá dentro.

VERINHA – Já disse que não. Vai embora, Joel. (TOM) Cansei de fazer papel de trouxa. Vai enrolar outra, tá?

VERINHA ENTRA E BATE A PORTA NA CARA DE JOEL. ELE FICA ALÍ UM TEMPO E DEPOIS VAI EMBORA.

CORTA PARA:

CENA 4 - EXTERNA/DIA - PORTA DO SALÃO DE BELEZA ONDE VERINHA TRABALHA
JOEL ESTÁ COMPLETAMENTE BÊBADO.

JOEL – (GRITANDO) Verinha, meu amor. Casa comigo. Eu te amo, Verinha. Você é o amor da minha vida. Sem você eu não posso viver. Sem você, eu prefiro morrer. Eu vou morrer, Verinha. Eu estou morrendo de amor por você. Vem me salvar, Verinha.

VERINHA – (APARECENDO NA PORTA DO SALÃO) Que escândalo é esse, Joel? Está querendo que eu perca o meu emprego? Dona Damares não gosta desse tipo de coisa. Vai embora daqui.

JOEL – Só se você aceitar se casar com comigo. (TEMPO) Promete que casa comigo?

VERINHA – Você está bêbado, Joel.

JOEL – Promete?

VERINHA – Vai embora, Joel. Eu vou acabar perdendo o meu emprego.

JOEL – Promete que casa comigo. Promete que vai me dar uma chance de provar o meu amor por você.

VERINHA – (PERDENDO A PACIÊNCIA) Vai procurar sua turma, Joel.

VERINHA ENTRA NO SALÃO E JOEL FICA POR ALI, SOB OLHARES DE CURIOSOS.

CORTA PARA:

CENA 5 - INTERNA/NOITE.  - CASA DE VERINHA - QUARTO
VERINHA ENTRA NO QUATRO, ACENDE A LUZ E LEVA UM SUSTO. JOEL ESTÁ DORMINDO EM SUA CAMA.

VERINHA – (ACORDANDO JOEL) O que significa isso?

JOEL – Me deixa dormir.

VERINHA – Acorda, Joel.

JOEL – (ACORDANDO) Oi, amor. Você chegou?

VERINHA – Como foi que você entrou aqui, Joel?

JOEL – Esqueceu que você me deu uma chave?

VERINHA – Nem me lembrava mais disso. (TOM) Me devolve essa chave, Joel. Eu não quero a chave da minha casa com você.

JOEL – Entenda de uma vez por todas, Verinha: nós nascemos um para o outro.

VERINHA – Entenda de uma vez por todas, você. (GRITA) Eu não te quaro na minha casa, nem na minha vida. Some de uma vez por todas, coisa ruim.

JOEL – (VENDO O ESTADO DE VERINHA) Está bem. (LEVANTANDO PARA SAIR) Eu saio.

VERINHA – (COM A MÃO ESTENDIDA) A chave.

JOEL TIRA DO BOLSO DA CALÇA UMA CHAVE E ENTREGA-A A VERINHA E SAI. VERINHA SENTA NA CAMA E CHORA.

CORTA PARA:

CENA 6 - EXTERNA/NOITE - UMA RUA QUALQUER
JOEL ANDA MEIO SEM RUMO, DE REPENTE DÁ UM ESBARRÃO EM ALGUÉM. É FÁBIO.

JOEL – Não presta atenção por onde anda?

FÁBIO – Qual é, meu? Você é que não olha.

OS DOIS SE RECONHECEM.

FÁBIO – Joel?

JOEL – Só podia ser você.

FÁBIO – O que você está fazendo por aqui?

JOEL – Andando sem rumo.

FÁBIO – O quê?

CORTA PARA:

CENA 7 - INTERNA/NOITE. - UM BAR QUALQUER
JOEL E FÁBIO CHEGAM E SENTAM.

FÁBIO – Fala aí. O que está acontecendo?

JOEL – A Verinha... (TOM) Ela não quer nada comigo. Me expulsou da casa dela.

FÁBIO – O que você andou aprontando?

JOEL – Nada. Apenas pedi que ela se casasse comigo.

FÁBIO – Ainda essa história? (TEMPO) Você precisa tomar jeito, Joel. Arrumar um emprego. Mostrar que está disposto a viver como um homem sério. Só assim a Verinha vai acreditar em você. Não se esqueça que você aprontou muito com ela.

JOEL – (TRISTE) Eu perdi a única mulher que podia me fazer feliz. A Verinha é tudo pra mim. (TOM) Mas vamos beber uma que assim a vida melhora.

FÁBIO – Para com essa bebedeira, Joel. Sei de muita gente que começou assim como você, bebendo para afogar as mágoas e virou mendigo.

JOEL – Vira essa boa pra lá, agourento.

CORTA PARA:

CENA 8 - EXTERNA/DIA - PORTA DE UMA HOSPEDARIA NO CENTRO DA CIDADE
JOEL VEM CAMBALEANDO PELA RUA E ENTRA NUMA
HOSPEDARIA. É UMA HOSPEDARIA BEM SIMPLES E POBRE.

DETALHE DA PLACA NA PORTA DA HOSPEDARIA:

- “ALUGAM-SE QUARTOS PARA RAPAZES SOLTEIROS”.

CORTA PARA:

CENA 9 - EXTERNA/DIA - PORTA DO SALÃO ONDE VERINHA TRABALHA
VERINHA E FÁBIO CONVERSAM.

FÁBIO – Desculpa ter vindo te procurar no seu emprego. (TOM) Eu ando muito preocupado com o Joel. Desde que você disse não ao pedido de casamento dele, ele não faz outra coisa senão beber.

VERINHA – O Joel sempre bebeu e vai continuar bebendo. (TEMPO) Eu não posso me casar com ele só pra resolver os problemas dele. E eu?

FÁBIO – Eu entendo o seu lado, mas dá uma chance pra ele. Quem sabe o que ele precisa é de um apoio. Antes tinha a mãe dele, dona Margarida. Ela controlava um pouco. Mas ela foi morar com a outra filha.

VERINHA – E tudo, por quê? (TOM) Por causa da irresponsabilidade dele. (TEMPO) Ele só quer ficar comigo agora, por que não tem onde morar. Tudo o que ele quer é um canto para morar e comida na mesa. (TOM) Eu tomei uma decisão...

FÁBIO – O quê?

VERINHA – Decidi voltar pra minha terra, lá no nordeste.

CORTA PARA:

CENA 10 - INTERNA/DIA - QUARTO DE HOSPEDARIA
QUARTO PEQUENO E ESCURO.
FÁBIO ENTRA NO QUATRO ACOMPANHADO DE UM HOMEM.

HOMEM – O homem que você está procurando é esse aí?

FÁBIO VÊ JOEL CAÍDO NUMA CAMA SUJA, DORMINDO, COMPLETAMENTE BÊBEDO.

FÁBIO – (HORRORIZADO) Meu Deus!

CORTA PARA:
FIM DO CAPÍTULO