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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Onde estão os amigos?

     Para dizer a verdade, e somente a verdade, ele não podia dizer em altos brados que era  aquele cara que todos chamariam de amigo do peito. Mas... Não. Deixa o "mas" pra lá. Ele desistiu da tal de verdade e quer mesmo dizer em altos brados que é "aquele cara" que todos podem chamar de amigo do peito. Espera aí:
"amigo do peito"? Esse tipo de expressão ainda se usa?  Pensando bem, isso não importa muito. O caso é que ele acha que sempre compareceu com os amigos, sempre esteve presente e não é que acabaram se esquecendo dele? 
- Ei, eu tô aqui! - gritou ele depois de tanto tempo esquecido da galera. Parecia um náufrago no meio do oceano. Gritava, acenava, gritava de novo e nada. O cara foi mesmo esquecido. E agora?
    Bem e agora ele vai ter que se conformar com o seu triste destino de esquecido, de brinquedo velho, coisa sem serventia. Nossa! Essa foi forte: "coisa sem serventia". Acho que  ele nunca pensou algo tão duro sobre si mesmo. Vá lá que ele nunca foi de ter alta autoestima, mas baixar ao ponto de se considerar "coisa sem serventia" também não:
- Olha aqui, eu tenho serventia, sim, tá. Não sou de se jogar fora não. Eu tenho o meu valor. Vocês é que não sabem valorizar as pessoas e ficam me relegando ao ostracismo. Eu quero ser lembrado. Me tirem do limbo e me botem de novo na ordem do dia. 
    Falou isso gritado pela janela do seu apartamento. Gritou tanto que os vizinhos chamaram a polícia para ele. E não é que ele acabou sendo levado para a delegacia onde teve que explicar ao delegado o motivo de estar gritando na janela de seu apartamento? Ele até que tentou se explicar, mas o pobre do delegado não entendeu nada. Achou que o cara tinha pirado de vez. Aí ele se sentiu ofendido:
- Quer dizer que os meus amigos me abandonam, me relegam ao esquecimento e o senhor acha que eu não passo de um louco? Isso é muita humilhação, sabia? Eu me esforço, me dedico aos amigos, estou sempre querendo agradar e o senhor... Não, isso não! É o fim da picada.
    Dizendo isso, desatou a chorar. Não um chorinho qualquer, mas um choro sentido de quem está se sentindo como um cachorro abandonado, aquele que caiu do caminhão de mudanças.
- Onde estão os meus amigos? - gemeu ele entre soluços. -  Meio sem saber o que fazer, o delegado o abraçou e ofereceu seu ombro amigo. Ele, o delegado, também ele se sentia assim. Os amigos, ele achava que tinha mais de mil, igualmente o abandonaram. Também conhecia aquela dor, a dor do abandono. E ao ver aquele rapaz naquele estado de abandono tão deplorável declarou:
- Vou dar voz de prisão para todos os seus amigos. Não se abandona um amigo assim.
Naquele momento ele, não o delegado, mas o nosso indigitado heroi, descobriu que tinha finalmente encontrado um amigo.