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sábado, 3 de setembro de 2011

Histórias inventadas

    Ela levou um susto enorme quando descobriu que podia fazer aquilo sem a ajuda de alguém. Durante muito tempo acreditou que não podia. Bastava ver-se sozinha diante de um elevador para sentir aquela sensação estranha, aquele medo que tomava conta de todo o seu corpo e então nada era capaz de fazê-la entrar num elevador desacompanhada. Os porteiros e moradores do prédio onde ela morava já sabiam disso. Alguns tinham pena dela e a ajudavam, mas outros além de fazer pouco de seu "medo de elevador" ainda riam dela, faziam comentários jocosos, impíngiam-lhe pequenas maldades.
    A situação durou anos. Definitivamente, ela não andava de elevador sozinha. Nada era capaz de mudar aquele estado de coisas: médicos, remédios, conselhos e exemplos e até mesmo a palavra dos técnicos que afirmavam que aquele aparelho era seguro e coisa e tal. Parecia que a situação não tinha saída. Até que alguém lhe fez aquela pergunta:
- Desde de quando você tem medo de elevador?
Ela já estava pronta para responder quando descobriu que não tinha resposta. Tudo que lembrava e que desde pequena sua mãe dizia que ela tinha medo de elevador, que quando bebê chorava muito quando entrava num deles e que a partir daí... Bem, a partir daí ela passou a ter isso como uma verdade e nunca discutiu o assunto: a mãe falava que ela tinha medo, então ela tinha medo. Não via por que discutir isso, pois sua mãe estava sempre por perto quando ela precisava andar de elevador. Só que ela foi crescendo e aquilo passou a ser um problema muito maior do que antes. A mãe já não estava tão presente para protegê-la do monstro chamado elevador e foi aí que...
    Histórias como essa são mais comuns do que se pode imaginar. Existem aos milhares por aí: são as histórias que se contam a respeito de pessoas, muitas vezes, sem que elas mesmas saibam como surgiram e muitas delas (as histórias, não as pessoas) não têm o menor fundamento e o que é pior: a própria pessoa acaba acreditando na história que se conta dela.  Geralmente essas histórias começam de maneira tímida e quando a pessoa (aquela da qual se conta a tal história) vê já não há como desmentí-las nem para os outros, nem para si.
    Essas histórias podem ser extreamamente negativas ou absurdamente positivas, ou seja, elas podem transformar um anônimo num herói do dia para a noite, mas também podem destruir a vida de uma pessoa. Em muitos casos elas marcam a vida das pessoas para sempre. E como uma marca, elas colam e são difíceis de sair, mesmo com sucessivos desmentidos, provas documentadas e tratamento de choque. Elas também podem ser simples do tipo: "Ela é fodona em inglês, sabia? Fala inglês como se fosse uma verdadeira inglesa"  E a fulana nem português fala direito,quanto mais inglês.  Ou graves como: "Ele já matou um homem". E o pobre coitado é incapaz de matar uma mosca.
    Creio que todo mundo conhece esse tipo de histórias envolvendo algum conhecido próximo ou distante. O fato é que um fala e os outros saem por aí repetindo. Repetem tanto que acabam virando uma quase verdade e passam a fazer parte da vida daquela pessoa, em muitos casos, causando constragimento e embaraços ou mesmo criando espequitativas falsas.
    Você já deve ter ouvido algo como: "minha mãe sempre disse que eu não tenho facilidade para aprender, por isso não estudo"; "eu não dou sorte na vida porque minha madrinha me rogou praga quando eu era pequeno" ; "ele é assim porque foi abandonado pela mulher"; " ele anda maltrapilho assim, mas tem muito dinheiro no banco, é milionário"; " não trabalho porque estudo para concurso". Mais do que histórias inventadas, são condicionamentos que criamos ou deixamos que se criem sobre nós  e que limitam a nossa vida. Como a moça do início texto, nós, muitas vezes, aceitamos condicionamentos que criam para nós e passamos a vida inteira paralisados por algo que nem mesmo sabemos como surgiu.