Pesquisar este blog

domingo, 13 de setembro de 2009

A discípula de Janete Clair.

Com o final da novela Global, Caminho das Índias, muito tem-se falado do fato da autora da novela, Glória Peres, ser uma autêntica seguidora ou discípula da "chamada" mestra Janete Clair. Fato que tem seu lado de verdade, pois se sabe que Glória Peres começou a escrever novela justamente assessorando Janete Clair em sua última novela, Eu prometo. Dela herdou a forma pouco clara de desenvolver suas tramas, sempre optando pelas soluções que deram a Janete a fama de desvairada e alienada da realidade que o país vivia nos anos em que a autora escreveu seus maiores sucessos. Discussões a parte, não pretendo julgar os motivos que levavam Janete Clair a optar por tramas fantasiosas quando o Brasil não estava para fantasia, principalmente no que dizia respeito a liberdade de expressão. O caso que essa semelhança entre as autoras, que eu acho que não é tão grande assim ( Glória usa muitos elementos da realidade em suas tramas) tem sido motivo para "perdoar" os inúmeros "erros" que Glória Peres cometeu em sua trama. Para mim, a sequência da morte do Raul, embora é preciso lembrar que se trata de uma boa trama, mostrou o quanto a autora se faz valer de maniqueísmos para desenvolver sua história. É bem verdade que a realidade está cheia de gente capaz de atitudes até muito mais absurdas do que tramar a própria morte, mas vamos pensar direito, aquela história do caixão não ser aberto, o atestado de óbito ser assinado por uma médica falsa, as pessoas contratadas para participar da trama (os carregadores e etc.), a atitude da viúva, tudo muito estranho. Eu também escrevo e sei que a gente não pode ser tão realista o tempo todo, as vezes é preciso dar asas à imaginção, mas tudo tem limite, muita gente ainda vê novela como algo muito próximo da realidade e na falta de melhor informação toma aquilo como verdade. E o pior de tudo é que quando essas tramas vão ser solucionadas no final da história é que se percebe o quanto elas estavam distantes da realidade. Tem soluções simplistas, deixando o público com a sensação de que esteve se enganando ao seguir a novela. Quase todas as tramas beiravam o absurdo. O núcleo dos indianos, muito bom no início, mostrou-se repetitivo e expôs as chagas da cultura indiana, cheia de preconceitos no que diz respeito às mulheres e distante da realidade nossa de cada dia. Não ficou claro como vivem os indianos, o que eles comem. como dormem, tomam banho, lavam suas roupas. Coisas boas como a violência nas escolas, ficaram devendo um desenvolvimento maior, em favor de outras tramas mais palatáveis como a da Norminha e seu "guardinha". Isso sem falar do Bahuan o herói sem atos heróicos. Creio que nesse quesito a Glória invou ao criar um herói individualista e que não se sacrificaria seus sonhos nem pela mulher amada e nem pelo seu povo. Afinal, herói de que? Soube que Glória não cria escaletas para escrever, ou seja, ela não faz um planejamento do desenvolvimento da trama e que segue sua intuição, além de escrever sozinha. Tudo muito admirável, aliás a Glória Peres é uma grande mulher, com uma história de vida cheia de lances de superação, mas um planejamento da trama resolveria certas inconsistências.
Glória Peres fica devendo uma trama que não seja sobre uma cultura e suas amarrações que obriga a autora a escrever seguindo um manual do tipo pode isso, não pode aquilo. Quero ver Glória Peres contando uma história de verdadeira ficção, onde fique claro seu dom inventivo. Isso quase foi possível com a trama da família Cadore e seus agregados. Faltou acreditar na trama e escrever uma novela só com eles. O lado dos indianos foi puro manual, como aliás já tinham sido os ciganos em Explode Coração e arabes em O Clone. Nada além do manual da cultura em questão.