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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Deixando de ser invisível.

     Pedro nunca ligou para datas comemorativas. Para ele natal, ano novo, aniversário sempre foram dias como outros quaisquer. Nunca viu diferença ou sentiu aquele entusiasmo que as pessoas normalmente sentem nesses dias, nem se preparou para a noite de natal, para a passagem de ano ou comemorou a data de seu aniversário. Pelo contrário, sempre que via as pessoas animadas nesses dias achava muito estranho. Não via a menor graça em, por exemplo, contar para os conhecidos que seu aniversário é em tal dia. Longe disso, sempre fez questão de não revelar a data a ninguém. Somente seus parentes mais próximos sabiam da data, mais ninguém.
      A simples ideia de que alguém pudesse desconfiar de sua data de aniversário já fazia com que ele suasse frio. Tinha pavor de que alguém pudesse saber e cumprimentá-lo no dia. Nesse dia, sempre inventava uma forma de não ter contato com quem quer que fosse. E quando algum parente ligava para ele por esse motivo e tinha alguém por perto, ele fazia com que a conversa parecesse outra. Quem ouvia o diálogo jamais imaginaria que a pessoa do outro lado estava dizendo coisas do tipo: "Feliz aniversário, Pedro."  "Parabéns!" "Muitos anos de vida." Sua saída era  usar respostas lacônicas: "Sim." " Não." "Tá." " Não precisava se incomodar". 
     E assim ele viveu durante muitos anos. Sempre se escondendo, andando pelas sombras como se esteve o tempo todo tentando ser invisível, não fazer parte do mundo social. Vivia sozinho, quase à margem. Não preciso dizer que todos o viam como uma pessoa estranha e antissocial, não é? Era exatamente isso que acontecia. Quando ele passava não era raro que alguém tecesse um comentário:
- Que cara estranho! Não fala com ninguém, não dá nem sequer um "bom dia". Parece bicho do mato.
     As vezes, ele até ouvia. Chegava a ter vontade de responder ao dono do comentário, mas deixava para lá. Afinal, a pessoa não estava falando nenhuma grande mentira. Ele era mesmo estranho, diferente. A maioria que ele conhecia vivia falando, comentando, perguntando, informando tudo a respeito delas mesmas: o dia do aniversário, se estavam doentes ou não, se iam viajar ou se estavam chegando de viagem, se o dinheiro estava sobrando (quase nunca) ou faltando (quase sempre), da roubalheira na política, da violência, do time do coração, da chuva, do sol, do frio, do calor, enfim, usando todo de tipo de comunicação disponível. Enquanto ele, se pudesse, se isolaria e não teria contato com ninguém.
     Foi exatamente num dia de aniversário que Pedro se fez aquela atormentadora pergunta:
- Por que e de quem eu estou me escondendo?
   A resposta veio de pronto:
- Que história é essa? Não estou me escondendo de ninguém. Apenas não gosto de me envolver com as pessoas. Prefiro ficar no meu canto, quietinho. Não gosto de incomodar, nem de ser incomodado. Existe algum mal nisso?
     Ele levou um grande susto quando ouviu um grande SIM como resposta. Era sua consciência que travava com ele aquele diálogo. E então, aproveitando a ocasião, ela desfiou um verdadeiro rosário justificando aquele SIM. Lembrou-lhe que ele fazia parte do mundo, que ninguém vem aqui para se negar a conviver com o seu semelhante por mais que esse convívio seja desagradável, que a vida em sociedade é necessária para o crescimento espiritual de cada um e que aprendemos muito com esse convívio, com todos os prós e os contras próprios.
      Passado algum tempo, Pedro não se transformou em um cara extrovertido, capaz de sair por aí dizendo a data do seu aniversário ou coisas que lhe vão na alma. Porém, quando está andando pelas ruas ele já não se sente tão estranho. Não raro ele esboça um sorriso para um desconhecido ou mesmo dá um "bom dia", "um olá". Já aceita convites para festas de natal, passagem de ano, para brincar o carnaval. Meio desajeitadamente ele começa a sentir-se parte integrante do mundo em que vive e até pode dizer que isso lhe faz bem.