Pesquisar este blog

sábado, 9 de outubro de 2010

Morrer é castigo?

     Eu sei que o tema em questão é muito espinhoso e que poucos são os que aceitam falar dele sem reservas. O fato é que a morte (desculpe a falta de cerimônia) apavora a todos, sem exceção. Ninguém quer falar do assunto e foge, como o diabo da cruz, quando alguém resolve trazer o tema para o centro da discussão. Sei de muitos que além de não querer encarar a ideia da própria morte, também evitam o tema quando acontece com os outros: não vão a hospitais, enterros, missas de sétimo dia ou qualquer coisa que lembra a "indigitada das horas", como o grande poeta Manoel Bandeira a cunhou num de seus poemas. Tudo com a vã intenção de, com isso, mantê-la bem longe. Bem no estilo: se eu não falo dela ela não existe e se ela não existe não virá me importunar.
     Não cabe a mim criticar uma pessoa que encara a vida dessa maneira, ou seja, fugindo do assunto, mas precisamos nos conscientizar de que é necessário que a gente tente encara-lo, uma vez que, querendo ou não, um dia (todos torcemos para que este tal dia esteja sempre muito distante) vamos ter que encara-la de frente. Pois, como o diz o dito popular, não nascemos para semente. O que já significa um grande ganho: por que você já pensou como seria chato ficar "plantado" nesse mundo para sempre? É melhor nem pensar nessa possibilidade, não é mesmo? Definitivamente, o mundo não é o lugar mais indicado para alguém viver toda a eternidade, existem lugares melhores nesse universo, tenho certeza.
     E não devemos esquecer que ao nascer já trazemos essa marca. Todos somos informados da brevidade da vida, da sua transitoriedade, de que um dia, cedo ou tarde, teremos que ir embora. E certamente isso acontecerá da mesma maneira que se deu nossa vinda, de maneira natural e suave.
     Por isso, não devemos ficar tristes. Muito pelo contrário, isso deveria nos deixar felizes, pois somos esperados em algum lugar como fomos esperados aqui. Em algum lugar do universo alguém conta os dias para nos rever. Alguém que deixamos tristes quando viemos para a terra cumprir nossa missão evolutiva. Nunca devemos esquecer que a terra é um local de passagem, onde expiamos nossas faltas, mas também o lugar onde crescemos, construimos relações de afeto que perduram para sempre. Portanto, nada a temer. Tudo é ganho. Até o fato de sermos mortais, de um dia partirmos para outras viagens, como diria algum poeta, para outras paisagens.
     Toquei nesse assunto porque uma conhecida que perdeu um ente querido não está conseguindo aceitar o fato. Embora se diga uma pessoa espiritualizada está vivendo uma crise de fé e de entendimento dos mistérios da vida. Em sua crise passou a ver a morte, como aliás a maioria vê, como um castigo cruel e injusto. Uma visão comummente propagada em nossa sociedade e que nossos autores de novelas fazem questão de manter viva: quando querem castigar um personagem malvado, o condenam a morte, numa visão mesquinha de um momento importante de todo ser vivente. Isso me fez pensar em como nós enfrentamos não só o fato de as pessoas que amamos serem mortais, mas no fato de nós mesmos sermos mortais. Porque se não aceitamos a partida de um ente querido também não vamos aceitar quando chegar a nossa hora. Somos, assim, candidatos a sermos espíritos revoltados e trevosos, desses que povoam a terra transformando a vida dos encarnados (nesse momento nós) num inferno. Será que é isso que queremos?  Vale a pena fugir da verdade e depois sofrer mais e fazer os outros sofrerem?
      Convido todos a pensarem no assunto. Vamos aproveitar a vida em todos os sentidos, todos mesmo, inclusive tomando consciência do nosso papel diante de Deus, diante do Universo.