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domingo, 21 de abril de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 9

Neste capítulo, Joel começa a sentir o peso de sua irresponsábilidade diante da vida. Que será que o futuro lhe reserva?

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 9


CENA 1 - EXTERNA/DIA - RODOVIÁRIA NOVO RIO
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 D0 CAPÍTULO 8
JOEL E VERINHA ESTÃO NA PLATAFORMA DE EMBARQUE.

VERINHA – Chega de história, Joel. Perdi muito tempo da minha vida com você. Agora quero recuperar o tempo perdido. (TEMPO) Esquece que eu existo, Joel. É melhor para nós dois.

JOEL – Não posso acreditar que você esteja fazendo isso comigo. (TOM) Você não tem coração, Verinha? Não vê que eu não posso viver sem você?

VERINHA – Deixa de cinismo. (TOM) Você está livre para viver do jeito que sempre quis. Aproveita, Joel. Seja feliz.

UM ÔNIBUS ESTACIONA NA PLATAFORMA.

VERINHA – Chegou a minha hora. Eu tenho que ir.

JOEL – Não vai me dar nem um beijo de despedida?

VERINHA – Melhor não. (ENTRANDO NO ÔNIBUS) Adeus, Joel.

VERINHA ENTRA NO ÔNIBUS E JOEL FICA PARADO NA PLATAFORMA, SEM AÇÃO.  QUANDO O ÔNIBUS SAI, JOEL O ACOMPANHA IMPLORANDO QUE VERINHA FIQUE. DENTRO DO ÔNIBUS, VERINHA MANTÉM-SE FIRME EM SUA DECISÃO.

CORTA PARA:

CENA 2 - INTERNA/DIA – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
JOEL VEM ENTRANDO CAMBALEANDO  E O HOMEM O ABORDA.

HOMEM – Como é que ficamos, seu Joel?

JOEL – Como assim? “Como é que ficamos?”

HOMEM – O senhor sabe do que eu estou falando.

JOEL – Não faço a menor ideia.

HOMEM – Vamos falar sério, seu Joel. (TOM) Não dá mais para esperar. O senhor está devendo duas semanas.

JOEL – Pode ficar descansado, senhor...

HOMEM – Matias, senhor Joel. Meu nome é Matias.

JOEL – Senhor Matias. Pode deixar. Amanhã eu pago tudo. (SUBINDO AS ESCADAS) Amanhã.

O HOMEM FICA OBSERVANDO JOEL SUBIR AS ESCADAS TROPEGAMENTE.

CORTA PARA:

CENA 3 - EXTERNA/DIA - UMA RUA QUALQUER DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
JOEL ANDA SEM RUMO PELA RUA. DE REPENTE PARA DIANTE DE UMA LANCHONETE E FICA OBSERVANDO A VITRINE. ENTRA E PEDE ALGUMA COISA NO BALCÃO.

JOEL – Me dá duas coxinhas, três pastéis, dois joelhos e um misto quente. Para beber, um suco de laranja.

ATENDENTE – Cadê a ficha?

JOEL – Que ficha?

ATENDENTE – Tem que pegar a ficha no caixa. (TOM) Próximo...

JOEL ENFIA A MÃO NO BOLSO E DESCOBRE QUE ESTÁ SEM DINHEIRO. PASSA A MÃO NA BARRIGA E DESCOBRE QUE VAI TER QUE CONTINUAR COM FOME E VOLTA A ANDAR SEM RUMO.

CORTA PARA:

CENA 4 - INTERNA/NOITE – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
JOEL VAI ENTRANDO E SEU MATIAS (HOMEM) O INTERCEPTA.

MATIAS – Cadê o pagamento, seu Joel?

JOEL – Que pagamento? Não lhe devo nada.

MATIAS – Vai bancar o engraçadinho, é? (FAZ SINAL PARA UM HOMEM FORTE QUE ENTRA E ENCARA JOEL)

JOEL – O que é isso?

MATIAS – O senhor vai pagar ou não vai?

JOEL – Sabe o que é seu...

MATIAS – Matias.

JOEL – Seu Matias.  É que eu estou meio sem dinheiro, o senhor entende? Mas eu vou pagar tudo assim que eu receber uma grana aí que eu tenho pra receber.

MATIAS – Estou cansado das suas desculpas. (FAZ SINAL PARA O HOMEM FORTE) Bota esse mendigo daqui pra fora.

JOEL – Eu não mendigo não.

O HOMEM FORTE PEGA JOEL PELO COLARINHO E O ARRASTA PARA A RUA.

CORTA PARA:

CENA 5 - EXTERNA/NOITE - UMA PRAÇA QUALQUER
JOEL VAGA PELA PRAÇA SEM SABER O QUE FAZER. É NOITE ALTA E FAZ FRIO, CHOVE. JOEL SENTE MUITO FRIO.

JOEL – E agora, rapaz? Como se diz no popular: você tá fodido e mal pago. (VÊ UM BANCO VAZIO PERTO DELE) O jeito é se arranjar por aqui. Se, pelo menos, tivesse uma cachacinha pra beber. (PROCURA ALGUMA MOEDA NO BOLSO) Nem para uma cachaça você tem dinheiro, Joel. É o fundo do poço, mesmo.

JOEL SENTA NO BANCO E DEPOIS DE UM TEMPO RESOLVE DEITAR. EM POUCOS MINUTOS ESTÁ DORMINDO.

CORTA PARA:

CENA 6 - EXTERNA/DIA - UMA PRAÇA QUALQUER.
(A MESMA PRAÇA DA CENA 5)
JOEL AINDA ESTÁ DORMINDO NA PRAÇA, APESAR DO MOVIMENTO DE PASSANTES. ENTRE ELES ESTÁ FÁBIO. FÁBIO PASSA E FICA INTRIGADO.

FÁBIO – Será que é o Joel?

FÁBIO RESOLVE VOLTAR E SE CERTIFICAR QUE O HOMEM QUE DORME NO BANCO DA PRAÇA É MESMO SEU AMIGO JOEL.

FÁBIO – (CONFERINDO) Meu Deus! É o Joel mesmo. (TENTA DESPERTAR JOEL) Joel, Joel...

JOEL – O que é? O que foi? Me deixa.

FÁBIO – Joel, você está dormindo no meio da praça. Você passou a noite aqui?

JOEL – O que você tem com isso?

JOEL RECONHECE FÁBIO E SAI CORRENDO.

FÁBIO – Volta aqui, Joel. Volta aqui.

JOEL CORRE PARA LONGE E MISTURA À MULTIDÃO. FÁBIO TENTA SEGUÍ-LO, MAS O PERDE DE VISTA.

FÁBIO – Era só o que faltava. (TRISTE) Será que o Joel tá morando na rua?

CORTA PARA:

CENA 7  - INTERNA/DIA – HOSPEDARIA -  RECEPÇÃO
FÁBIO ESTÁ FALANDO COM O SENHOR MATIAS (HOMEM).

FÁBIO – Acho que o senhor deve se lembrar de mim. Meu nome é Fábio. Estive aqui algumas vezes pra falar com um amigo meu Joel. O senhor se lembra dele?

MATIAS – E como não? (TEMPO) Um pilantra, vagabundo.

FÁBIO – Como assim? O Joel é um cara muito direito. Ele só está um pouco confuso porque perdeu o emprego, a noiva foi embora pra terra dela, a mãe foi morar com a irmã dele. Enfim...

MATIAS – Histórias tristes é que não faltam por aqui. Mas isso não justifica o cara ser pilantra, mau caráter. (TOM) O senhor acredita que ele ficou morando aqui quase um mês e não me pagou um tostão?

FÁBIO – È mesmo?

MATIAS – Fui confiar no bandido. Mas também, recebeu o que merecia. Foi colocado daqui pra fora na base do pontapé. (TOM) Ora, veja. A gente tentando trabalhar honestamente e me aparece um tipo desses.

CORTA PARA:

CENA 8 - EXTERIOR/DIA - UMA RUA QUALQUER DO CENTRO DA CIDADE
RUA MOVIMENTADA.
JOEL ESTÁ ANDANDO PELA RUA E PARA NA PORTA DE UM RESTAURANTE. VÊ AS PESSOAS COMENDO.
CLOSE EM JOEL. ELE PENSA. DE REPENTE, SEU PENSAMENTO O AFASTA DALÍ.

CORTA PARA:

CENA 9 - EXTERNA/DIA -  RUA -  EM FRENTE AO RESTAURANTE
FÁBIO CAMINHA COM JOEL. FÁBIO PARA E SE DIRIGE A UM HOMEM QUE ESTÁ SENTADO NO CHÃO E ENTREGA A ELE O EMBRULHO COM A QUENTINHA. O HOMEM  TEM REAÇÃO DE FELICIDADE E AGRADECE A FÁBIO. JOEL FICA INCOMODADO COM A CENA:

JOEL – Qual é, Fábio? Deu agora pra alimentar vagabundo?

FÁBIO – Esse homem não é um vagabundo. É seu Ramiro, um homem trabalhador. Depois que sofreu um revés da vida, ficou assim.

JOEL – E o que você tem com isso? Quem tem cuidar disso é o governo, não?

FÁBIO – Pode até ser, Joel.   Mas não consigo ficar de braços cruzados vendo alguém nessa situação.

JOEL – Você é um idiota, Fábio. Pra mim, vagabundo tem mais é que morrer de fome.

FÁBIO – Não fala uma coisa dessas, Joel. Nunca se sabe o dia de amanhã.

(JOEL MOSTRA-SE BASTANTE INCOMODADO COM A CONVERSA E ACABA DEIXANDO FÁBIO PARA TRÁS. FÁBIO CONTINUA CONVERSANDO COM O MENDIGO, TRATANDO-O COM HUMANIDADE E RESPEITO)

(ATENÇÃO PRODUÇÃO: ESSA CENA É A CENA 10 DO CAPÍTULO 1. AQUI ELA É UMA LEMBRANÇA DE JOEL)

CORTA PARA:

CENA 10 - EXTERNA/DIA- RUA – PORTA DO RESTAURANTE
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 8.
JOEL PERMANECE NA PORTA DO RESTAURANTE. DE REPENTE SAI UM HOMEM DE DENTRO DO RESTAURANTE CARREGANDO UMA BOLSA COM UMA QUENTINHA. ELE ESTÁ ACOMPANHADO DE OUTROS DE SUA MESMA IDADE. JOEL SE APROXIMA DO HOMEM.

JOEL – Ei, moço. Me dá essa quentinha?

MOÇO – (ASSUSTADO) – O quê?

JOEL – Me dá essa quentinha, moço. Eu estou com muita fome...

CORTA PARA:
FIM DO CAPÍTULO