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domingo, 26 de maio de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 14

Neste penúltimo capítulo, Joel decide se unir a Ramiro num plano para livrar seus anigos companheiros das mãos de Zelão, o homem que explora os moradores de rua se fazendo passar por um deles.

SÓ A VIDA ENSINA

Capítulo 14


CENA 1 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL E RAMIRO.
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 13

RAMIRO – Lá vem você de novo com as suas perguntas.

JOEL – Você não acha que eu tenho direito de saber com quem estou lidando?

RAMIRO – É claro. (TEMPO) Mas eu não tenho muito que te dizer. Apenas que tenho uma missão: ajudar os mais necessitados da mesma forma que um dia fui ajudado.

JOEL – E o que eu tenho a ver com isso?

RAMIRO – Você também foi ajudado. Esteve entre a vida e a morte e recebeu ajuda. Agora está aí forte e revigorado, mas tudo o que você quer é ir embora. (TOM) Pois que vá. Siga o seu caminho.

JOEL – É isso que eu vou fazer. (TEMPO) Muito obrigado por tudo o que o senhor fez por mim. Adeus.

RAMIRO – Adeus. (TEMPO) Apenas tome cuidado para não encontrar outro Zelão pelo seu caminho.

JOEL SAI.

CORTA PARA:

CENA 2 – EXTERNA/DIA – RUA DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
JOEL ANDA PELA RUA. ELE TENTA SE SENTIR NORMAL, MAS OS PENSAMENTOS NÃO O DEIXAM EM PAZ. AS PALAVRAS DE SEU RAMIRO NÃO SAEM DA SUA CABEÇA: “cuidado para não encontrar outro Zelão no seu caminho”.

JOEL – Como eu vou ajudar os outros se eu não posso ajudar nem a mim mesmo? Acho que aquele velho é maluco. Eu jamais voltaria para um lugar como aquele. (TEMPO) Se bem aquela gente precisa de ajuda. A Suzi... (TOM) Não. Foi por causa dela que eu... Melhor nem pensar nisso.

CORTA PARA:

CENA 3 – EXTERNA/DIA – PORTA DO SALÃO ONDE VERINHA TRABALALHA
JOEL SE APROXIMA DA PORTA DO SALÃO.

JOEL – Será que a Verinha...? Que bobagem! A Verinha voltou para o norte.(TEMPO) Era aqui que ela trabalhava...

A PORTA DO SALÃO SE ABRE E VERINHA SAI, ACOMPANHADA DE FABIO. JOEL SE ESCONDE.

VERINHA – Por que você não desiste disso, Fábio? O Joel deve estar numa boa e nem está lembrando de ninguém.

FÁBIO – Eu prometi para a irmã dele, Verinha. Eu tenho que cumprir a promessa.

VERINHA – Você que sabe, Fábio. Para mim, ele está morto.

OS DOIS SE DESPEDEM E VERINHA VOLTA A ENTRAR NO SALÃO. FÁBIO SE AFASTA. JOEL CAMINHA ATÉ A PORTA DO SALÃO.

JOEL – Então é isso? Aquela conversa de voltar para o norte era desculpa. A Verinha e o Fábio...  (TOM) Como eu nunca desconfiei de nada?

JOEL SAI ANDANDO PELA RUA A ESMO.

CORTA PARA:

CENA 4 – EXTERNA/DIA – PRAIA DO FLAMENGO
JOEL ANDA PELO CALÇÃO DA PRAIA. PARA E SENTA NUMA SOMBRA.

JOEL – O que vou fazer da vida? Perdi emprego, casa, família, a mulher que eu amava... (TEMPO) Seu Ramiro tem razão. Meu destino é encontrar outro Zelão e
me deixar escravizar. É isso que sempre acontece quando a gente não toma a direção da nossa vida com responsabilidade.

JOEL LEVANTA-SE E ANDA UM POUCO MAIS. LOGO AVISTA UM GRUPO DE MORADORES DE RUA. PENSA EM SE APROXIMAR DELES, MAS VÊ QUE ZELÃO ESTÁ ENTRE ELES. ZELÃO CONVERSA ANIMADAMENTE COM ELES. EM SEGUIDA TODOS SAEM, COM ZELÃO À FRENTE.

JOEL – Com certeza ele deve ter prometido para eles o mesmo que prometeu para mim: um lugar para viver entre irmãos, onde uns ajudam os outros. (TOM) Tudo mentira.

SENTE O ÍMPETO DE CORRER ATRÁS E ESCLARECER OS MORADORES DE RUA.

JOEL – Podia até lá e dizer tudo a eles. (TEMPO) Não vai adiantar nada. Eu conheço bem a covardia do Zelão.

CORTA PARA:

CENA 5 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL ESTÁ DIANTE DE RAMIRO.

RAMIRO – Ué!? Você está de volta?

JOEL – Sim. (TOM) Eu quero ajudar a libertar aquela gente.

RAMIRO – O que aconteceu? Por que mudou de ideia tão rápido?

JOEL – Acabei de ver o Zelão recrutando mais moradores de rua com suas falsas promessas.

RAMIRO – Ele faz isso sempre. Ele se aproxima dos moradores de rua e oferece um lugar para morar onde todos são irmãos e uns ajudam os outros, não é?

JOEL – Foi isso que ele fez comigo.

RAMIRO – E quando chega lá, ele os vicia em bebida e em drogas. Uma vez viciados, eles os escraviza obrigando-os a trabalhar para ele em troca de alguma bebida e droga. (TOM) Você teve sorte de sair daquele lugar.

JOEL – Diga o que eu tenho que fazer.

RAMIRO – Primeiro vou te mostrar uma coisa. Venha comigo.

RAMIRO SAI E JOEL O SEGUE.

CORTA PARA:

CENA 6 – EXTERNA/DIA – UMA RUA DO BAIRRO RIO COMPRIDO
RAMIRO E JOEL ANDAM PELA RUA. RAMIRO PARA E JOEL FAZ O MESMO.

RAMIRO – Vamos ficar por aqui.

JOEL – O que tem essa rua?

RAMIRO – Espere um pouco e você verá.

POUCO TEMPO DEPOIS SURGE ZELÃO ANDANDO PELA RUA E ENTRA NUMA CASA.

JOEL – Aquele é o Zelão. Que casa é aquela?

RAMIRO – Ele mora naquela casa.

JOEL – Como assim? Ele não mora no acampamento junto com todo mundo?

RAMIRO – Não. Zelão não é morador de rua como tenta fazer crer, Joel. Ele vive de explorar aquelas pessoas. E isso garante a ele uma boa vida. Dizem que ele é dono de muitas casas por aqui e que vive de renda.

JOEL – Filho da mãe! (TOM) Eu vou lá desmascarar esse desgraçado.

RAMIRO – Nada disso. (TOM) Nós vamos voltar e você vai fazer tudo o que combinamos.

CORTA PARA:

CENA 7 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL E RAMIRO. JOEL ESTÁ VESTIDO COM UM MENDIGO SUJO E MATRAPILHO.

JOEL – Que tal estou?

RAMIRO – Está bem. Quer dizer, está mal. (TEMPO) Com esse aspecto o Zelão vai pensar que você está mesmo na pior.

JOEL – (TOM) Aquele desgraçado vai se ver comigo.

RAMIRO – Nada de querer enfrentar o Zelão, Joel. Você vai fazer do jeito que combinamos. O Zelão é um traiçoeiro. Se ele descobrir o nosso plano pode matar você.

JOEL – (TEMPO) E o que vamos fazer com aquela gente?

RAMIRO – Isso você deixa comigo.

JOEL – Você e os seus segredos.

RAMIRO – (TOM) Existem muito mais segredos nessa história do que você pode imaginar.

CORTA PARA:

CENA 8 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
ALGUNS MORADORES DO ACAMPAMENTO ESTÃO POR ALI. JOEL CHEGA E VÊ SUZI ENTRE ELES. ELA CORRE ATÉ ELE.

SUZI – Joel! Você por aqui? Você está bem?

JOEL – Mais ou menos, Suzi. Estou com muita fome.

SUZI – O velho Ramiro ajudou você?

JOEL – Que nada! Aquele velho é muito sacana. Logo que eu fiquei bom, ele me mandou de volta para a rua.

SUZI – Estranho. Ela costuma ajudar a todo mundo.

JOEL – Acho que ele não foi com a minha cara. (TEMPO) Bom mesmo é o Zelão. Ele é amigo do povo de rua.

SUZI ACHA ESTRANHO O QUE ACABOU DE OUVIR.

SUZI – Você está bem mesmo?

JOEL – A cabeça não ficou muito boa não. Ando meio esquecido das coisas.

SUZI – Espera aí que eu vou chamar o Zelão.

SUZI SAI. OS OLHOS DE JOEL PASSEAM PELO ACAMPAMENTO. POR TODO LADO, DESOLAÇÃO. ROSTOS TRISTES, CORPOS DOENTES, SEM VIDA, SEM ESPERANÇA SE ESPALHAM PELO ACAMPAMENTO. MUITOS SE CONFUDEM COM CARCAÇAS, COM RESTOS. PELA PRIMEIRA VEZ, JOEL CHORA. NO FUNDO, ELE É UM DELES.

CORTA PARA:

CENA 9 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
JOEL ESTÁ DIANTE DE ZELÃO E SUZI.

ZELÃO – O que você quer aqui? Pensei que tivesse morrido.

JOEL – Oi, Zelão. Vim pedir para voltar. Acho que já estou bom para trabalhar. Preciso muito de sua ajuda.

ZELÃO – (DESCONFIADO) Sei. Mas você está disposto a fazer tudo o que eu mandar?

JOEL – Tudo.

ZELÃO – Pode ficar. (TOM) Dá um saco para ele, Suzi.  Vamos ver se ele ainda lembra como se GARIMPA.

SUZI ENTREGA UM SACO PLÁSTICO A JOEL.

ZELÃO – Pode ir.

JOEL – Não podia me dar um pouco de comida antes?

ZELÃO – Não. Você só vai comer quando voltar com o saco cheio. E não me venha com porcaria não. Quero garimpo de valor.

JOEL – E se eu não achar nada de valor no lixo?

ZELÃO – Rouba. (TEMPO) É o único jeito de você conseguir comida, cachaça e uma pedra. Entendeu? Agora vai.

SUZI TENTA APELAR PARA ZELÃO DAR COMIDA A JOEL, MAS ELE SE MOSTRA IRREDUTÍVEL. JOEL SAI.

SUZI – Podia ter dado ao menos um pouco de comida para ele.

ZELÃO – Nada disso. Eu quero ele assim mesmo: faminto e todo alquebrado. (TOM) No fim, você acabou fazendo o serviço bem feito, Suzi. O homem virou um trapo. Acho que agora você não vai mais querer se engraçar com ele, vai?

SUZI SE AFASTA E ZELÃO FICA SORRINDO.

CORTA PARA:

CENA 10 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
RAMIRO E JOEL.

RAMIRO – E então? Ele te aceitou?

JOEL – Tudo saiu do jeito que nós combinamos.

RAMIRO – (ENTREGA UM SACO) Leva essas coisas aqui e entrega a ele como sendo garimpo. Ele vai gostar.

JOEL – E o que eu faço agora?

RAMIRO – Agora vem a segunda parte do plano. (TEMPO) Você está pronto?

JOEL – Estou.

RAMIRO – Agora vai. Ele não pode desconfiar de nada.

JOEL SAI.

CORTA PARA:

CENA 11 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
JOEL ESTÁ DIANTE DE NESTOR E VÁRIOS OUTROS MORADORES DO ACAMPAMENTO.

JOEL – Eu descobri um lugar onde tem muito garimpo bom. Vocês não querem vir comigo?

NESTOR – Onde é esse lugar que eu não conheço?

JOEL – É só vir comigo que eu mostro.

JOEL VAI SAINDO E ALGUNS MORADORES RESOLVEM SEGUÍ-LO. QUANDO ELES ESTÃO SAINDO DO ACAMPAMENTO, ZELÃO SE APROXIMA.

ZELÃO – Onde vocês estão indo?

TODOS PARAM DIANTE DE ZELÃO.

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO

domingo, 19 de maio de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 13

Neste capitulo, Joel encontra a ajuda do velho Ramiro e escapa da morte certa, mas vai precisar deixar o egoismo de lado.

Só a vida ensina

Capítulo 13


CENA 1 – EXTERNA/NOITE – FUNDOS DO TERRENO BALDIO
JOEL, ZELÃO, SUZI E OS HOMENS DO ACAMPAMENTO.
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 DO CAPÍTULO 12
SUZI ESTÁ AGARRADA A JOEL.

SUZI – Não faz isso, Zelão.  (TOM) Deixa eu cuidar dele.

ZELÃO – Deixa de onda, Suzi. (PARA OS HOMENS) Saiam logo.

OS HOMENS LEVAM JOEL EMBORA.

SUZI – Ele vai morrer.

ZELÃO – Que morra.

SUZI – Como você pode ser assim, Zelão?

ZELÃO – Não vem não, Suzi. Você está nesse negócio comigo ou não está? Vai dar para trás agora?

SUZI – No fundo, o Joel está certo. A gente fica explorando essa gente fingindo que está ajudando. (TOM) Estou cansada dessa vida. (SAI)

ZELÃO – Volta aqui, Suzi.

ZELÃO SAI ATRÁS DE SUZI.

CORTA PARA:

CENA 2 – EXTERNA/NOITE – LOCAL ABANDONADO.
HOMENS CHEGAM CARREGANDO JOEL, E O COLOCAM NO CHÃO.

HOMEM 1 – Esse pode entregar a alma.

HOMEM 2 – Vamos deixar ele aí.

OS DOIS HOMENS SAEM. JOEL PERMANECE IMÓVEL E INCONSCIENTE. PASSADO UM TEMPO, SUZI CHEGA. ELE SE APROXIMA DE JOEL.

SUZI – Joel, Joel... (TEMPO) Não responde. (TOM) Esse homem vai morrer, meu Deus! Eu tenho que fazer alguma coisa.

SUZI SAI.

CORTA PARA:

CENA 3 – EXTERNA/NOITE – RUA ESCURA
SUZI CAMINHA PELA RUA. PARA DIANTE DE UMA CASA VELHA E FICA NA DÚVIDA SE ENTRA OU NÃO.

SUZI – Será que ele está aí? (TEMPO)E se estiver não vai querer falar comigo.

DE REPENTE, CAMINHA DECIDIDA NA DIREÇÃO DA PORTA.

SUZI – Seja o que Deus quiser.

BATE NA PORTA. DEPOIS DE ALGUM TEMPO, UM SENHOR APARECE. É O SENHOR RAMIRO, O MENDIGO DO CAPÍTULO 1.

RAMIRO – O que você quer aqui coisa ruim?

SUZI – Estou precisando de sua ajuda, seu Ramiro.

RAMIRO – Andou fazendo mais alguma trapalhada?

SUZI – Tenho um amigo que está precisando da sua ajuda.

RAMIRO – Amigo seu?

SUZI – Vem comigo, seu Ramiro. É caso de vida ou morte.

RAMIRO – Não me venha com a suas conversas, hein?

RAMIRO FECHA A PORTA E SAI COM SUZI.

CORTA PARA:

CENA 4 – EXTERNA/NOITE – LOCAL ABANDONADO
JOEL PERMANECE DEITADO, INCONSCIENTE. SUZI CHEGA COM RAMIRO.

SUZI – É esse moço, seu Ramiro. Ele está precisando de ajuda.

RAMIRO EXAMINA JOEL.

RAMIRO – Mas ele está praticamente morto.

SUZI – Faz alguma coisa por ele, seu Ramiro. Ele não pode morrer.

RAMIRO – O que é isso? Está enrabichada por ele, é? Nunca vi você tão preocupada com a vida de alguém. (TEMPO) O Zelão está sabendo disso?

SUZI – Foi ele que furou o moço numa briga.

RAMIRO – E você nem precisa me dizer o motivo. (TOM) Você  e o Zelão não tomam jeito na vida. Até quando vocês vão explorar aquela gente e vão fazer essas barbaridades?

SUZI – (TEMPO) Cuida dele, seu Ramiro.

RAMIRO – Vou ver o que posso fazer. (TEMPO) Esse homem está muito mal. (TOM) Pode ir embora. Eu cuido dele.

SUZI SE DESPEDE DE JOEL COM UM OLHAR E SAI. RAMIRO COMEÇA A SE MOVIMENTAR.

RAMIRO – O jeito vai ser deixar você aqui mesmo, por enquanto. Força, meu filho. Você vai sair dessa.

CORTA PARA:

CENA 5 – EXTERNA/DIA – LOCAL ABANDONADO.
JOEL ESTÁ DEITADO NUM COLCHÃO. RAMIRO CUIDA DANDO-LHE REFEIÇÃO NA BOCA. ELE REJEITA. RAMIRO INSISTE.

RAMIRO – Você precisa comer para ficar forte, rapaz. Só assim eu posso te tirar daqui.
(TEMPO) Você quer ou não ficar bom? Vamos lá. Só mais um pouco.

COM OS OLHOS, JOEL RESPONDE QUE SIM. RAMIRO VOLTA A LHE OFERECER A COMIDA E ELE ACEITA.

CORTA PARA:

CENA 6 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – QUARTO.
JOEL ESTÁ DORMINDO NUMA CAMA. ELA JÁ ESTÁ MELHOR. ELE DESPERTA E SEU RAMIRO ESTÁ AO LADO DELE.

JOEL – Onde eu estou? Quem é o senhor?

RAMIRO – Calma, rapaz. Uma pergunta de cada vez. Primeiro me diga como está se sentindo.

JOEL – Eu acho que estou bem. (TENTA LEVANTAR) Ai...

RAMIRO – Cuidado. Você ainda está bastante fraco.

JOEL – O que aconteceu?

RAMIRO – Você andou se metendo em confusão, meu rapaz. Por pouco não passou dessa.

JOEL – Isso aqui é um hospital?

RAMIRO – Não. 

JOEL – Quem é o senhor?

RAMIRO – Eu sou um amigo do povo de rua. A Suzi me chamou para te ajudar.

JOEL – Onde ela está?

RAMIRO – É melhor você esquecer aquela “chave de cadeia”. Trata de ficar bom logo. (TEMPO) Eu vou preparar alguma coisa para você comer.

RAMIRO SAI. JOEL TENTA SENTAR NA CAMA E SENTE DORES.

CORTA PARA:

CENA 7 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA
JOEL ESTÁ SENTADO NUMA CADEIRA. RAMIRO ENTRA VINDO DA RUA.

RAMIRO – Como está o meu doentinho?

JOEL – Acho que já estou melhor.

RAMIRO – Parece até um milagre.

JOEL – O quê?

RAMIRO – Essa sua melhora.

JOEL – (TEMPO) E a Suzi? Ela não vem aqui?

RAMIRO – Desde o dia que ela me procurou, não a vi mais. (TEMPO) Você deu sorte dela ter me procurado a tempo.

JOEL – O senhor é médico?

RAMIRO – Fui enfermeiro quando novo. (TEMPO) E você? Fala um pouco da sua vida.

CORTA PARA:

CENA 8 – EXTERNA/DIA – RUA DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
FÁBIO CAMINHA PELA RUA NA DIREÇÃO DO SEU TRABALHO. DE REPENTE SE VÊ DIANTE DE VERINHA.

FÁBIO – Olá, Verinha. Quanto tempo!

VERINHA – Como vai, Fábio?

FÁBIO – Você voltou para o Rio?

VERINHA – Não consegui me acostumar no norte. Senti falta dessa vida.

FÁBIO – E o Joel? Tem tido notícia dele?

VERINHA – Graças a Deus, nunca mais vi aquela COISA.

FÁBIO – A irmã dele me procurou querendo notícias dele. Parece que ele sumiu de vez. Nem para a mãe ele manda notícias.

VERINHA – Deve estar numa boa em algum lugar aquele canalha.

FÁBIO – Você ainda pensa nele?

VERINHA – Deus me livre.

OS DOIS SE DESPEDEM E CADA UM TOMA O SEU RUMO.

CORTA PARA:

CENA 9 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
O MOVIMENTO NO ACAMPAMENTO ESTÁ GRANDE. GENTE SAINDO E ENTRANDO. SUZI ESTÁ PREPARANDO COMIDA NO SEU FOGÃO IMPROVISADO. ZELÃO SE APROXIMA E TENTA FAZER UM CARINHO E ELA O REPELE.

SUZI – Me deixa, Zelão.

ZELÃO – O que deu em você?

SUZI – Estou ocupada, não está vendo?

ZELÃO – Ainda está encasquetada por causa daquele Joel? O cara está morto, Suzi. (TEMPO) Foi se meter comigo, se deu mal. Se tivesse feito como os outros, estava vivo sob a minha proteção. Quis dar uma de valentão.

SUZI – Será que ele está morto mesmo?

ZELÃO – Por quê? Você está sabendo de alguma coisa?

SUZI – Não estou sabendo de nada.

SUZI VOLTA A MEXER NAS PANELAS. ZELÃO FICA DESCONFIADO.

CORTA PARA:

CENA 10 – INTERNA/DIA – CASA DE RAMIRO – SALA.
DIAS DEPOIS. JOEL ESTÁ COMPLETAMENTE RESTABELECIDO. RAMIRO ENTRA VINDO DA RUA.

JOEL – Estava te esperando. (TEMPO) Eu estou indo embora.

RAMIRO – Para onde?

JOEL – Não sei ainda. Só sei que não posso ficar aqui vivendo às suas custas.

RAMIRO – Por que não fica até se ajeitar melhor? Fica mais um tempo, procura um emprego. (TEMPO) Se bem que eu contava com você para me ajudar a libertar aquela gente das garras do Zelão.

JOEL – Não sei como eu poderia ajudar.

RAMIRO – Voltando para lá para tentar esclarecer aquela gente de que eles não precisam viver escravizados pelo Zelão, que eles são livres.

JOEL – Eu não tenho nada a ver com a vida deles. (TOM) Eu vou cuidar da minha vida.

RAMIRO – Acho que me enganei com você. (TEMPO) Pensei que você tinha mudado, que a vida já tinha te ensinado alguma coisa. (TOM) Eu me enganei.

JOEL – Como mudado? Você me conhece? Quem é você? (TOM) O que você quer de mim?

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO


domingo, 12 de maio de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 12

Neste capítulo, Joel é ferido por Zelão e é abandonado à própria sorte. Enquanto isso, sua mãe, dona Margarida, sofre com a falta de notícias suas.

SÓ A VIDA ENSINA


Capítulo 12

CENA 1 – EXTERNA/NOITE – TERRENO BALDIO
JOEL, ZELÃO, SUZI E O PESSOAL DO ACAMPAMENTO.
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 8 DO CAPÍTULO 11
JOEL ESTÁ CAÍDO NO CHÃO, SANGRANDO. ZELÃO PERMANECE COM O CANIVETE NA MÃO. SUZI CORRE PARA ACUDIR JOEL.

JOEL – Você me feriu, desgraçado.

SUZI – O que você fez, Zelão? Ele está sangrando.

ZELÃO – Isso é para ele aprender que quem manda aqui sou eu.

SUZI – Ele precisa ser levado para um hospital, Zelão. Ele está sangrando muito.

ZELÃO – Nada disso. Ele vai sangrar até morrer. Quem mandou se meter com mulher minha?

SUZI – Eu não sou sua mulher.

ZELÃO – Vai querer um furo também? (TEMPO) Olha ai, pessoal. Pega esse cara e coloca lá no fundo do acampamento.

ALGUNS HOMENS PEGAM JOEL E ELE GEME DE DOR.

SUZI – Não faz isso, Zelão. Ele precisa de ajuda.

ZELÃO – Nem se atreva, Suzi. Ele não sai daqui. (TEMPO) Aí, pessoal. Pega uma corda e amarra bem. E que alguém fique vigiando. (TOM) Eu não quero que ninguém ajude esse cara. Ouviram bem?

SUZI – Por que essa maldade, Zelão?

ZELÃO – Leva logo.

OS HOMENS PEGAM JOEL E LEVAM EMBORA. ELE GEME DE DOR E PELO CAMINHO VAI FICANDO UM RASTRO DE SANGUE.

CORTA PARA:

CENA 2 – EXTERNA/NOITE – FUNDOS DO ACAMAPAMENTO.
OS HOMENS CHEGAM CARREGANDO JOEL. ELES O JOGAM DE QUALQUER JEITO NO CHÃO. ELE GRITA DE DOR. OS HOMENS PEGAM UMA CORDA E AMARRAM OS PÉS E AS MÃOS DE JOEL. FEITO ISSO, ELES VÃO SAINDO.

JOEL – Ei. Não me deixem aqui. Eu preciso ir para um hospital. Eu preciso de ajuda.

HOMENS PARAM E FICAM EXISTANTES.

HOMEM 1 – Se ele ficar aí, vai sangrar até morrer.

HOMEM 2 – O Zelão disse que não é para ninguém ajudar.

HOMEM 1 – É muita covardia. O homem está ferido. Ele está sagrando como um porco. Olha essa barriga aberta.

HOMEM 2 – Isso não é problema nosso. (TEMPO) E você vai querer enfrentar o Zelão, vai?  Vamos embora.

JOEL – Me ajudem, por favor. Não me deixem aqui.

OS HOMENS VIRAM AS COSTAS E SAEM.

CORTA PARA:

CENA 3 – EXTERNA/NOITE – TERRENO BALDIO
SUZI E ZELÃO.

SUZI – Deixa levarem ele para o hospital, Zelão. Se ele continuar sangrando daquele jeito ele vai acabar morrendo.

ZELÃO – Você não acha que está muito preocupada com ele, não? (TEMPO) O que é? Não vai me dizer que levou a sério a brincadeira de seduzir o idiota?

SUZI – (TOM) Não é nada disso.

ZELÃO – Então o que é?

SUZI – (TEMPO) Ele não está acostumado com esse nosso tipo de vida.

ZELÃO – Pode deixar. Se ele sobreviver, vai ficar igualzinho a todo mundo. Quantos já chegaram aqui cheios de coisa e logo se dobraram? Com ele não vai ser diferente.

SUZI – E se ele morrer?

ZELÃO – A gente pega o corpo e joga na rua.

OS HOMENS SE APROXIMAM DE ZELÃO E AVISAM QUE FIZERAM O QUE ELE MANDOU. SUZI DEMONSTRA PREOCUPAÇÃO E ZELÃO FICA DE OLHO NELA.

CORTA PARA:

CENA 4 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
O DIA AMANHECE. TODOS AINDA DORMEM NO ACAMAPAMENTO. SUZI ESTÁ DEITADA AO LADO DE ZELÃO. ELA SE LEVANTA, PEGA ALGUMAS COISAS E SAI. ZELÃO ABRE OS OLHOS E A VÊ SAINDO.

ZELÃO – O que você está arrumando, Suzi?

ZELÃO LEVANTA-SE E PEGA UMA PANELA E COMEÇA A BATER NO FUNDO DELA COM UM PEDAÇO DE PAU.

ZELÃO – Vamos lá, macacada. Hora de acordar.

ZELÃO CONTINUA BATENDO NA PANELA E O POVO VAI DISPERTANDO, PREGUIÇOSAMENTE.

CORTA PARA:

CENA 5 – EXTERNA/DIA – FUNDOS DO ACAMPAMENTO
JOEL ESTÁ JOGADO NO CHÃO COM OS PÉS E AS MÃOS AMARRADOS. ELE ESTÁ MEIO FORA DE SI. PARECE DORMIR, MAS GEME. O SANGRAMENTO PAROU. SUZI SE APROXIMA  E SE ALARMA COM O QUE VÊ.

SUZI – O que é isso? (TEMPO) Joel, Joel... Acorda.

JOEL – (DESPERTANDO) O quê? O quê?

SUZI – Você está bem?

JOEL – Me ajude a ir para um hospital. Eu preciso...

JOEL PERDE AS FORÇAS E SUZI PERCEBE QUE ELE ESTÁ SUANDO MUITO. ELA COLOCA A MÃO EM SUA TESTA.

SUZI – Você está queimando de febre. Preciso dar um jeito de tirar você daqui.

SUZI DESAMARRA JOEL.

SUZI – Vamos lá, Joel. Tenta se levantar. Eu te ajudo.

JOEL SE ESFORÇA PARA LEVANTAR, MAS NÃO CONSEGUE.

SUZI – Pelo menos se tivesse alguém para ajudar.

ZELÃO APARECE POR TRÁS.

ZELÃO – Eu não sirvo?

SUZI – Zelão?

ZELÃO – Está querendo desobedecer as minhas ordens, Suzi?

SUZI – Ele precisa de ajuda, Zelão. (TOM) Deixa levar ele para um hospital.

ZELÃO – (TOM) Não. Ele precisa aprender a respeitar a minha autoridade. (TEMPO) Larga isso aí e vai fazer o meu café.

SUZI SAI E ZELÃO SE APROXIMA DE JOEL.
JOEL – Me leva para um hospital, Zelão. Eu não vou aguentar.

ZELÃO – Devia ter pensado nisso antes de se meter com a minha mulher e querer achar que era diferente dos outros. Depois desse furo, você se iguala a todo mundo aqui. (TEMPO) Se bem que eu posso facilitar a sua vida.

JOEL – Como?

ZELÃO – Tenho aqui uma pedra de crack. Quer?

JOEL – Eu não mexo com isso?

ZELÃO – Eu sei que você prefere cachaça. Também trouxe aqui uma garrafinha para você. Mas eu faço questão que você queime essa pedra.

ZELÃO ENTREGA A GARRAFA DE CACHAÇA E JOEL A LEVA DIRETO À BOCA.

ZELÃO – Agora você queima essa pedra e vai ver como se sente melhor.

ZELÃO AJUDA JOEL A USAR O CRACK.

CORTA PARA:

CENA 6 – INTERNA/DIA – CASA DE BERNADETE – SALA
DONA MARGARIDA ESTÁ SENTADA NO SOFÁ. BERNADETE ENTRA VINDO DA RUA. ELE VÊ DONA MARGARIDA E VAI ATÉ ELA.

BERNADETE – Que tristeza é essa, mãe?

DONA MARGARIDA – É o seu irmão, Bernadete. Desde que ele me deixou aqui que não deu mais notícias. O que é feito dele, filha? Onde será que ele está vivendo?

BERNADETE – O Joel, sempre o Joel. Ele não se cansa de causar preocupação. Quando é que ele vai tomar jeito na vida?

DONA MARCARIDA – Seu irmão é uma boa pessoa, filha. Só é um pouco atrapalhado.

BERNADETE – Ele é muito atrapalhado, mãe. Pode deixar. Eu vou dar um jeito de procurar aquele amigo dele, o Fábio. Quem sabe ele tem notícias dele

DONA MARGARIDA – Faz isso, filha. Eu não me aguento de preocupação.

BERNADETE – Eu faço sim, mãe. Mas agora, vamos melhorar essa carinha triste.

DONA MARGARIDA – Enquanto não tiver notícias do seu irmão eu não me sossego. Às vezes tenho tido uns pressentimentos ruins.

BERNADETE – Deixa de bobagem, dona Margarida. O Joel sempre foi esperto. Ele deve estar muito bem.

CORTA PARA:

CENA 7 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
ZELÃO ESTÁ PARADO. SUZI CHEGA.

ZELÃO – E então?

SUZI – Ele piorou muito, Zelão. Acho que ele não vai aguentar não. O ferimento está muito infeccionado. (TEMPO) Estava pensando em chamar o seu Ramiro.

ZELÃO – (TOM) Eu não quero aquele velho aqui.

SUZI – Nesse caso, o Joel vai morrer.

ZELÃO – E  você está com pena?

SUZI – É gente como a gente, Zelão.

SUZI – É só isso mesmo? (TOM) Cuidado, Suzi. Você sabe que aqueles que não se dobram à minha autoridade acabam morrendo.

CORTA PARA:

CENA 8 – EXTERNA/DIA – PORTA DO PRÉDIO ONDE FUNCIONA A FIRMA EM QUE JOEL TRABALHAVA.
BERNADETE ESTÁ PARADA. FÁBIO CHEGA.

FÁBIO – Desculpa o atraso, Bernadete. É que agora eu sou chefe. Nem sempre dá para sair. O seu Olavo...

BERNADETE – Eu é que peço desculpa, Fábio. (TEMPO) Estou atrás de notícias do Joel. Você sabe dele?

FÁBIO – Não, Bernadete. Faz tempo que não vejo o Joel.

BERNADETE – Ele não tem dado notícias, Fábio. Minha mãe anda muito preocupada.

FÁBIO – Pode deixar, Bernadete. Eu vou tentar localizar o Joel e entro em contato com vocês. (TEMPO) A dona Margarida está bem?

BERNADETE – Dentro do possível. O problema dela é o Joel. Ele não cansa de dar preocupação.

CORTA PARA:

CENA 9 – EXTERNA/DIA – PORTA DA RODOVIÁRIA NOVO RIO
VERINHA SURGE NO ALTO DA ESCADA ROLANTE. ELA DESCE CARREGANDO ALGUMAS MALAS E CAMINHA PARA O PONTO DE TÁXI. CONVERSA COM O MOTORISTA E ENTRA NO TÁXI. O TÁXI SAI.

CORTA PARA:

CENA 10 – EXTERNA/NOITE – FUNDOS DO TERRENO BALDIO
JOEL ESTÁ DEITADO NO CHÃO PRATICAMENTE INCONSCIENTE. ZELÃO, SUZI E ALGUNS HOMENS ESTÃO DO LADO DELE.  

SUZI – Não faz isso, Zelão.

ZELÃO – E qual saída que eu tenho? Esse homem não pode morrer aqui. Se isso acontecer, a polícia vai bater aqui. (PARA OS HOMENS) Pega e joga bem longe daqui.

OS HOMENS PEGAM JOEL E VÃO SAINDO. SUZI SE COLOCA NA FRENTE DELES.

SUZI – Não!

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO

domingo, 5 de maio de 2013

Só a vida ensina - Capítulo 11

Neste capítulo, Joel se envolve com Suzi, descobre que Zelão é um explorador e põe a sua vida em risco.

CENA 1 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO
ZELÃO E JOEL.
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 10 CAPÍTULO 10.

JOEL – Pode falar, Zelão.

ZELÃO – Vamos sair daqui.

JOEL – Por que não podemos conversar aqui mesmo?

ZELÃO – Que é, Joel? A gente pode tomar alguma coisa lá fora. (TEMPO) É por minha conta.

JOEL CONCORDA E SAI COM ZELÃO. SUZI OS OBSERVA SAIR.

CORTA PARA:

CENA 2 – INTERNA/DIA – BAR
É UM BOTECO MUITO SIMPLES. JOEL E ZELÃO ESTÃO SENTADOS NUMA MESA. ELES BEBEM CERVEJA.

ZELÃO – Estou sabendo que você não está acostumado com essa vida de GARIMPEIRO, que está tendo dificuldade...

JOEL – Eu sou um trabalhador, sabe?

ZELÃO – E você acha que aquela gente toda aqui não é?

JOEL – Não é isso que estou querendo dizer.

ZELÃO – Mais é isso que parece. (TEMPO) Todo mundo ali é trabalhador.

JOEL – Não se pode chamar aquilo de trabalho, Zelão. Sair pelas ruas metendo a mão em lixo correndo risco de contrair doenças.

ZELÃO – Você conhece alguma maneira melhor da gente ganhar a vida?

JOEL – Não. Mas...

ZELÃO –  Nunca prometi vida rei pra ninguém. (TEMPO) Agora, você pode se dar bem, se quiser.

JOEL – Me dar bem? Como?

ZELÃO – Já  percebi que você não é como os outros, Joel. Parece ser um cara estudado. Não precisa ficar GARIMPANDO se não quiser.

JOEL – E o que eu faria?

ZELÃO – Pode me ajudar a CUIDAR daquela gente. Estou precisando de um ajudante. Aquela gente me dá muito trabalho

JOEL FICA ANIMADO COM O CONVITE. ZELÃO SORRI DE SATISFAÇÃO.

ZELÃO – Vamos beber mais uma. Que tal uma cachacinha?

CORTA PARA:

CENA 3 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
JOEL E ZELÃO ENTRAM NO TERRENO. JOEL ESTÁ UM POUCO BÊBADO. ZELÃO SE AFASTA. NO CAMINHO ELE ECONTRA COM SUZI E FAZ SINAL PARA QUE ELA SE APROXIME DE JOEL.

SUZI – Que prestigio, hein, Joel? Saiu com o Zelão pra beber. (TEMPO) O Zelão é muito bom para todos nós. Ele ajuda todo mundo.

JOEL – Estou vendo que ele é um cara legal.

SUZI – Eu bem que queria levar outro tipo de vida. (TOM) Mas eu não tenho outra saída. Lá fora a vida é muito difícil. Só encontrei homem que queria me USAR. Você entende, não é? (TOM) Meu sonho é encontrar um homem que me trate com respeito e que me tire daqui.

JOEL – Você é uma mulher bonita, Suzi.

SUZI – Você acha?

SUZI SE INSINUA PARA JOEL E OS DOIS SAEM. ZELÃO PERCEBE.

CORTA PARA:

.CENA 4 – EXTERNA /DIA – TERRENO BALDIO.
SUZI ESTÁ PREPARANDO A COMIDA NUM FOGÃO IMPROVISADO. HÁ MUITOS MORADORES DO TERRENO POR ALÍ, JOEL ESTÁ ENTRE ELES.  ZELÃO CHEGA E VAI DIRETO ATÉ SUZI.

ZELÃO – Que é, mulher? Essa comida ainda não está pronta?

SUZI – Espera um pouco, Zelão. Já estou quase acabando.

ZELÃO – (TOM) Você disse para eu esperar? Foi isso o que ouvi?

SUZI – Sim. Está todo mundo esperando, por que você não esperar também? Vai beber com os outros enquanto eu termino.

ZELÃO – (PEGANDO SUZI PELOS CABELOS) Olha aqui, sua VADIA. Aqui quem diz o que fazer sou eu.

SUZI – Me solta, Zelão. Você está me machucando.

ZELÃO BATE EM SUZI E A PANELA DE COMIDA VIRA NO CHÃO. ZELÃO FICA MAIS ENFURECIDO AINDA.

ZELÃO – Olha o que você fez, sua PUTA.

ZELÃO LEVA O ROSTO DE SUZI ATÉ O CHÃO. TODOS FICAM ALARMADOS COM O ACONTECIMENTO. JOEL SE APROXIMA.

JOEL – O que é isso, cara? Não se trata uma mulher assim.

ZELÃO – A mulher é minha e eu trato do jeito que quiser.

ZELÃO SOLTA SUZI E SAI. JOEL TENTA AJUDAR SUZI A SE LEVANTAR.

JOEL – Por que você se submete a isso, Suzi?

SUZI – (TOM) Me ajuda, Joel. Esse homem vai acabar me matando. Ele acha que é o meu dono.

CORTA PARA:

CENA 5 – EXTERNA/DIA – TERRENO BALDIO.
OUTRO DIA. A VIDA CONTINUA NO ACAMPAMENTO. MORADORES PEGAM SACOS COM SUZI E SAEM. JOEL SE APROXIMA DE SUZI.

JOEL – Você está melhor?

SUZI – Um pouco.

JOEL – E aquele nosso passeio? É amanhã... Você vai?

SUZI – Tenho medo do Zelão. Ele pode pegar a gente.

JOEL – Pode deixar. Eu vou dar um jeito dele não perceber nada.

SUZI – Se é assim...

JOEL – Então, amanhã?

SUZI – Amanhã.

JOEL SAI. ZELÃO, QUE OS OBSERVAVA DE LONGE, SE APROXIMA.

ZELÃO – O que você estava de conversa com aquele cara?

SUZI – Nada, Zelão.

ZELÃO – Estou de olho em vocês dois.

CORTA PARA:

CENA 6 – EXTERNA/DIA – ATERRO DO FLAMENGO
JOEL E SUZI ESTÃO SENTADOS NUM BANCO DO PARQUE DISTANTE DA PRAIA.

SUZI – Nem acredito que estou aqui. Faz tanto tempo que não saio para passear.

JOEL – O Zelão não costuma levar você para passear?

SUZI – Não. Por ele eu fico o tempo todo naquele lugar.

JOEL – Ele te trata muito mal, não é? (TEMPO) Por que você não larga ele?

SUZI – Ele me protege. A vida na rua não é fácil. Para uma mulher então...

JOEL – Como você veio parar na rua?

SUZI – É uma história longa.

JOEL – Me conta. Eu quero ouvir.

SUZI  COMEÇA A CONTAR SUA HISTÓRIA E JOEL A OUVE COM TOTAL ATENÇÃO.

CORTA PARA:

CENA 7 – EXTERNA/DIA – ATERRO DO FLAMENGO
OUTRO PONTO DO ATERRO. SUZI E JOEL ESTÃO SENTADOS NA GRAMA.

SUZI – (TEMPO) Você é tão diferente.

JOEL – Diferente como?

SUZI – Deferente do Zelão. Carinhoso, atencioso...

SURGE UM CLIMA ENTRE ELES.

SUZI – (TOM) Meu Deus! O que é isso? Eu não posso. Nem sei o que estou fazendo aqui. Eu tenho que ir embora.

SUZI LEVANTA-SE PARA IR EMBORA.

JOEL – Volta aqui, Suzi.

SUZI – Eu não posso, Joel. Se o Zelão descobre, eu não sei o que ele é capaz de fazer.

JOEL – Por que você tem tanto medo dele? Você é uma mulher livre.

SUZI – (TOM) Ninguém é livre naquele lugar, Joel.

JOEL – Como assim?

SUZI – Deixa isso para lá.

JOEL – Agora que você começou, termina. (TEMPO) Todos ali são escravos do Zelão, não são? Todos são obrigados a trabalhar para ele, não são? Fala a verdade, Suzi. Esse papo de ajudar os outros é mentira, não é?

SUZI – Eu não quero falar sobre isso, Joel. (TOM) Eu vou me embora.

SUZI SAI E JOEL VAI ATRÁS DELA.

CORTA PARA:


CENA 8 – EXTERNA/NOITE – TERRENO BALDIO.
O ACAMPAMENTO ESTÁ ÀS ESCURAS. ALGUNS MORADORES JÁ ESTÃO DEITADOS E OUTROS PERAMBULAM POR ALI. OUTROS CHEGAM COM SACOS DE GARIMPAGEM E ENTREGAM PARA ZELÃO. SUZI ENTRA APRESSADA SEGUIDA DE JOEL. ZELÃO LARGA O QUE ESTAVA FAZENDO E VAI ATRÁS DELA.

ZELÃO – Posso saber por onde você estava andando?

SUZI – Me deixa, Zelão.

ZELÃO PEGA SUZI PELO BRAÇO.

ZELÃO – Vai bancar a engraçadinha, vai?

JOEL CORRE EM SOCORRO DE SUZI

JOEL – Larga ela, Zelão.

ZELÃO – Olha, olha... Você arrumou um PROTETOR. (LARGA SUZI E PARA CIMA DE JOEL) Eu vou mostrar para ele que não se deve meter com o que É meu.

JOEL – Ela não te pertence, Zelão. A Suzi é uma mulher livre. (TEMPO) Eu descobri tudo. Você vive de explorar essa gente. Eu não fico nem mais um minuto nesse lugar. Chega! (PARA SUZI) Vamos embora daqui, Suzi.

OS MORADORES DO ACAMPAMENTO SÃO ATRAÍDOS E SE APROXIMAM.

SUZI – Deixa isso para lá, Joel. O Zelão só está um pouco nervoso.

ZELÃO – É melhor ouvir o que ela está dizendo.

JOEL – Por que? O que você vai fazer comigo?

ZELÃO – Eu vou te mostrar.

ZELÃO TIRA UM CANIVETE DO BOLSO E PARTE PARA CIMA DE JOEL. OS DOIS LUTAM E ZELÃO FERE JOEL COM O SEU CANIVETE. JOEL CAI NO CHÃO, SANGRANDO.

CORTA PARA:

FIM DO CAPÍTULO