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No Olho da Rua - Julio Fernando Moreira


COMUNICADO AOS LEITORES DESTA PÁGINA.

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 ESTE AUTOR FICARIA MUITO FELIZ SE VOCÊS O PRESTIGIASSEM.
OBRIGADO E BOA LEITURA.


NO OLHO DA RUA
(Uma história real)



JULIO FERNANDO MOREIRA


UMA DECISÃO DIFÍCIL
      
Fazia algum tempo que eu estava parado tentando encontrar forças para entrar naquele lugar para procurar ajuda. O choque entre o que eu imaginava ser a Fundação Leão XIII e a realidade que se descortinava à minha frente era consideravelmente grande.
Com as bolsas suspensas nas mãos e o olhar perdido, alheio ao burburinho à minha volta, fui  subitamente abordado por um homem. Mais tarde eu viria saber tratar-se de um dos porteiros da instituição.
Ele falou asperamente:
- Ei! Qual é, meu irmão? Vai ficar aí parado atrapalhando a entrada? Ou entra ou sai do caminho
Ele me empurrou abrindo caminho para os homens que aguardavam numa fila desorganizada e confusa.
O porteiro era um homem magro e branco, calvo, quase careca e um  pouco avermelhado, pequeno, franzino mesmo. Falava sem parar, sempre se dirigindo a todos na fila bradando palavras de ordem e fazendo ameaças. Essas ameaças  se tornavam mais sérias quando ele exibia, sem nenhum constrangimento, um pedaço de madeira. Esse gesto fazia com que os homens da fila se sentissem intimidados e tentassem, sem sucesso, manter a ordem.
Com o empurrão quase caí e foi ainda cambaleando, sem esboçar nenhum tipo de reação, que tomei consciência de onde estava. Seria aquele lugar, realmente, apropriado para uma pessoa desempregada e desabrigada procurar ajuda para tentar se reerguer? Que tipo de ajuda eu poderia receber ali dentro?  Eu não tinha outra saída? Tinha mesmo que ser ali?
Essas e muitas outras eram as perguntas que eu, insistentemente, me fazia em pensamento, sem obter nenhuma resposta. Realmente, eu estava diante de uma realidade muito dura e cruel. Justo eu que pensava ser o mais desgraçado de todos, mais isso, mais aquilo... Não podia acreditar no que via. O quadro mais aterrador que tinha visto na vida. Nunca havia presenciado cenas de tamanha miséria. O ser humano num estágio de abandono lastimável. Homens deitados, ou caídos, com uma expressão no olhar onde facilmente se poderia ler: “fim de linha”. Outros sentados, como que aguardando numa fila à parte, não tinham expressão diferente. A mesma expressão podia se ver naqueles, em maior número, que aguardavam na fila grande, em meio ao cheiro intenso de urina e fezes que impregnava o ar.
Meus olhos passearam pela fila fixando-se em cada rosto. Todos com a mesma fisionomia. Alguns tinham um pouco mais de ódio no olhar, outros talvez um pouco mais de esperança. Todos, sem dúvida, lembravam prisioneiros de guerra num campo de concentração, sem saber o que esperar da vida. Verifiquei que havia extremos. Uns eram muito calados, pareciam emudecidos, outros falavam, discutiam sobre o governo, o custo de vida, a miséria, o FMI, o tempo que teria sido melhor, a esposa, os filhos, a família, o emprego perdido, a cachaça maldita... Busquei ali uma identificação, alguém que estivesse chegando do tipo: “é só por uns dias, logo me recupero”. Não encontrei.
O porteiro pediu silêncio exibindo sua “arma”. Chegara a hora da entrada, mas somente para os que estavam na fila. Grande algazarra. Alguns tentavam passar na frente dos outros e espremiam, se acotovelavam. Uns gritavam por ordem, reclamavam que estavam furando a fila. Agora quase que não dava para ver o porteiro, escondido atrás daquela barreira que se criara. De uma hora para outra, todos foram tomados por vigor estranho. Até os que estavam deitados se levantaram.
Eles portavam um pequeno papel branco que mostravam para o porteiro. Quem não tinha o papel era barrado. Não adiantava argumentar. Bêbados também não entravam.
Indaguei e descobri que aquela era a hora do jantar, única refeição servida aos homens durante todo o dia. Daí toda aquela agitação.
Novamente o porteiro me abordou. Dessa vez, um pouco mais brandamente. Queria saber se eu já tinha conversado com o serviço social. Respondi que não e ele me aconselhou que entrasse.  As assistentes sociais só atendiam até às nove horas da noite. Já era quase isso. Se não entrasse logo, certamente não seria atendido naquela noite. Teria que dormir na rua. E essa possibilidade me apavorava. Afinal de contas, eu estava ali justamente para evitar que isso acontecesse. Num impulso, peguei as bolsas, nessa hora no chão ao meu lado e entrei.
Lá dentro, procurei o serviço social e fui informado de que deveria esperar. Só então vi que muitos esperavam. Homens, mulheres com crianças no colo, jovens e velhos aguardavam sentados em dois grandes bancos de cimento, um de frente para o outro, separados por um espaço onde transitava quem entrava e saía. Sentei-me do lado dos homens, pois havia essa separação. Acendi um cigarro e logo começaram a me abordar. Um queria um cigarro, outro a “vinte”, expressão como também  era conhecida a guimba de cigarro. Intimidado, atendi a ambos os pedidos.
Fiquei sentado observando aquele lugar  que durante algum  tempo seria a minha casa. A realidade física me assustava. O prédio tinha ares de presídio ou hospício. Impressão que se confirmava quando se ouvia gritos e discussões. Apesar disso, eu tentava me animar desviando o pensamento e afirmando para mim mesmo que tudo aquilo seria passageiro.
O rapaz, um mulato fechado, com cheiro de cachaça, que me pedira o cigarro, sentou ao meu lado e começou a contar a sua vida. Era um homem trabalhador. Estava ali porque tivera que se mudar de sua casa às pressas com a mulher e os filhos. Nisso apontou uma mulher escura com três crianças; uma de colo, visivelmente desnutrida e duas pouco maiores agarradas a ela, igualmente mal alimentadas. Ele foi expulso de seu barraco no morro porque negou a dar esconderijo para um bandido.
Essa foi, basicamente, a história que eu continuei ouvindo até cantarem a senha que me entregaram na entrada. Sem me despedir do homem, peguei as bolsas e caminhei para a sala do serviço social.
A assistente social era uma mulher morena e baixa que sentada atrás da mesa parecia menor ainda. Ela mandou que eu sentasse e sem meias delongas começou a me interrogar. Queria saber todos os meus dados para fazer um prontuário. Gelei.
- O meu nome vai ficar escrito aí? – perguntei.
- Claro! – ela respondeu secamente.
E prosseguiu:
- Precisamos ter um mínimo possível de dados a seu respeito, sem o que não podemos cuidar do seu caso.
Ela continuou a falar por alguns minutos, mas não me recordo exatamente o quê. Não estava ali. A simples ideia de ficar  “fichado” na instituição era assustadora.
- É só por um ou dois dias. O tempo que eu preciso para arrumar um lugar para ficar. Tem necessidade da ficha? - tentei argumentar.
- Todos dizem a mesma coisa, meu senhor. Disse ela sem levantar os olhos e com a caneta na linha em que deveria escrever o meu nome.
Foi com a voz trêmula que eu falei:
- Julio Fernando Moreira.
A partir daí se seguiu uma avalanche de perguntas. Queria saber de tudo, mas principalmente o motivo pelo qual eu estava sem moradia:
- Está desempregado? É ex presidiário? Quando foi a última vez que o senhor passou pela Fundação Leão XIII?
Quando finalmente ela terminou de preencher a ficha eu já não tinha certeza de nada. Senti-me  invadido, tratado como uma coisa, um número numa estatística, ou apenas mais um problema para a cidade. Um intruso.
Diante do meu silêncio ela completou:
- Está ruim em todos os lugares. Em Minas, no Rio Grande do Sul, na Paraíba... Está tudo do mesmo jeito em todos os lugares. O país está parado. Até São Paulo...
Logo a seguir, ela me informava que eu deveria procurá-la daí a três dias e que podia ir, mas que tomasse cuidado com a bagagem. No dia seguinte, eu deveria procurar o bagageiro para guardá-la.
- Acontece muito roubo aqui.  É preciso ter  cuidado. – ela aconselhou.
E, meio maternal, ela acrescentou:
 - Vai, aproveita e janta. Você deve estar com fome.
A possibilidade de colocar alguma coisa no estômago me deixou animado. Por isso, apressei em deixar a sala do serviço social.
Já estava saindo quando ouvi a voz da assistente social:
- Eu acredito que será por pouco tempo, disse com um sorriso amável nos lábios. Depende exclusivamente de você.
Deixei a sala com uma sensação boa. Não seria tão ruim como eu estava imaginando. E se realmente dependesse de mim...
Dali, eu fui direto para o refeitório. Lá chegando, encontrei uma senhora e pedi o jantar. Ela respondeu, com visível irritação, que já tinha encerrado.
- O jantar é servido até às nove horas. Não posso ficar aqui a noite toda à disposição.
Fiz cara de decepcionado. Estava com muita fome.
Ela me olhou com alguma piedade e disse:
- Fala com o chefe do plantão. Quem sabe ele... Se ele autorizar eu...
Ela mostrou-me o chefe do plantão. Era um homem meio gordo, sentado atrás de uma  mesa pequena.  Caminhei até ele. Não parecia irritado, mas disse tudo o que  a mulher da cozinha já tinha dito.
No final, rubricou um pedaço de papel e me entregou:
- Vai lá. Seja rápido! Está quase na hora de fechar o dormitório.
Minutos depois, eu estava diante de um prato abarrotado de comida. Não tive boa impressão. Apesar da fome, senti que não daria para comer. Olhei em volta e pude fazer o reconhecimento do local. As mesas eram de cimento armado, grandes e em número de dez talvez, com bancos de igual feitio. Havia muita comida espalhada pelo chão e em cima das mesas e bancos. Muita sujeira. Três ou quatro gatos gordos e viçosos disputavam os restos, sobretudo o peixe, que naquele momento percebi no prato. Fiquei parado um tempo sem notar que a cozinheira me observava de longe. Resolvi começar a comer e notei que faltava alguma coisa. Fui até ela e reclamei que ela tinha se esquecido de me entregar os talheres.
Ela deu uma gargalhada.
- Talher?! Aqui se come é com a mão, meu filho. – disse com certo sarcasmo.
Virei para voltar para a mesa e ela me chamou. Ofereceu uma colher dizendo que era sua, mas que eu não me acostumasse. Respirei, aliviado. Estava livre de comer com as mãos. Voltei e sentei. Passei a remexer a comida que transbordava no prato. Peixe cozido e arroz. Não consegui comer.
Depois de insistir durante alguns minutos, levantei e devolvi a colher e o prato à cozinheira. Agradeci e caminhei até o chefe do plantão. Perguntei onde era o dormitório e ele apontou uma escada grande.
- Pode subir. Cuidado com as bolsas. Tem muito “rato” lá em cima.
Deu-me um papel rubricado, que retirou da gaveta da mesa e me instruiu que o entregasse ao rapaz que estaria na porta do dormitório. Alertou-me para o fato de que àquela hora eu não encontraria mais colchão ou cobertor e me ofereceu alguns jornais para que eu pudesse forrar o chão para dormir.
Senti o peso das bolsas escada acima. Naquele momento, bateu um arrependimento por não ter forçado a barra e comido. Pelo menos, algumas colheradas. Porém, era preciso admitir que, naquela situação, a comida não descia.
Já diante da porta do dormitório, falei com um homem de mais ou menos uns quarenta anos, com cara de mau. Ele não tinha um dos braços, provavelmente perdido em algum acidente. Ele me informou o que eu já sabia, ou seja, que teria que dormir no chão. Abriu a pesada porta e eu entrei. Estava escuro e não deu para ter uma  ideia de como era o local. Apenas algumas silhuetas, corpos deitados no pelo chão e um cheiro tão desagradável que eu pensei não poder suportar.
Com um estrondoso barulho a porta se fechou atrás de mim. Tateando no escuro, escolhi um lugar vago para ficar.  Coloquei minhas bolsas do lado, espalhei o jornal e me deitei.
Pela  primeira vez naqueles dias podia refletir sobre o que estava acontecendo comigo. Senti-me arrasado e chorei. Um choro de quem tinha medo do que podia lhe acontecer. Pensei na minha casa em Ibiá, no interior de Minas Gerais. Os irmãos, pai e mãe já falecidos e a dor aumentou. Estava sozinho. Por horas a fio recusei-me a dormir, como vinha acontecendo nas últimas noites passadas vagando pelas ruas da cidade. Fiquei ali deitado pensando, tentando achar uma explicação lógica para ter chegado àquele ponto. Toda minha vida passou pela minha cabeça: da infância, adolescência, até aquele momento. Um gosto amargo de derrota tomou conta de mim. As lágrimas não cessavam de cair. Perguntei a mim mesmo por que estava merecendo aquilo, aquela provação. Então veio à minha mente a oração “Pegadas na areia”.
- Ele deve estar me carregando nos braços. - pensei na tentativa de me consolar.
No final de alguns minutos, adormeci vencido pelo frio da madrugada e pelo cansaço.


O PRIMEIRO DIA


Na manhã do que seria o meu primeiro dia no albergue João XXIII, nome daquela unidade, fui despertado por uma barulheira infernal. Abri os olhos, ainda sonolento, e pude ver o porteiro do dormitório com um pedaço de madeira na mão. Ele batia o porrete contra as camas, que não eram do mesmo material, talvez ferro, o que provocava o tal barulho. Fiquei de pé quase sem perceber e só então senti que todo o meu corpo doía, resultado de todas as noites mal dormidas dos últimos dias.
Os homens, em número de duzentos, ou mais, estavam agitados. Os que insistiam em permanecer deitados eram “visitados” pelo homem do porrete.
Pela janela, acima de mim, pude ver que ainda não era dia claro do lado de fora. Estava escuro. Descobri, então, que ali se acordava às cinco e meia da manhã todos os dias. Horário em que todos eram obrigados a deixar o albergue e ir para a rua.
Meio perdido, tentei acompanhar o ritmo da casa. Vi que uma fila se formava na saída do dormitório e que todos traziam nas mãos colchonetes e cobertores. Era para devolver, pois os mesmos eram cedidos apenas durante a noite. Após a devolução, recebia-se o “papelzinho” que devia ser entregue à cozinheira para ganhar o café da manhã. Por isso, peguei minhas bolsas, depois de dar uma ajeitada no visual, e fui para a fila, que andava lentamente. Demorou até que chegasse a minha vez.
O porteiro discutia muito com os albergados e aí pude perceber o porquê da demora. É que ele ficava com um documento de cada como exigência para o empréstimo do colchonete e do cobertor.  O  problema é que ele se enrolava todo na hora de devolvê-los aos donos. Um pouco pela algazarra que todos faziam e também, pelo menos me pareceu, porque ele tinha dificuldade de leitura.  Alguns perceberam e começaram  a chamá-lo de analfabeto. Isso o deixou mais irritado ainda e fez com que ele ameaçasse deixar todos trancados ali o dia inteiro. Como todos pareciam ter pressa de sair dali, concordaram em fazer silêncio. Essa atitude me deixou um pouco intrigado. Quando  cheguei ao refeitório tudo se esclareceu.
- Encerrou o café! - gritou a cozinheira, já  minha conhecida.
Aproximei e tentei argumentar dizendo que era o meu primeiro dia e tal e coisa. Não adiantou de nada. A mulher foi taxativa:
- O café dos homens só é servido até às seis horas. - disse sem se dobrar, anunciando que era a vez do café das mulheres e consequentemente enxotando do refeitório todos os retardatários.
Conformado com minha sorte, eu fui procurar o Bagageiro, nome como era conhecido o  funcionário responsável por guardar os pertences dos albergados. Precisava me livrar das bolsas. Nova fila. Ao chegar a minha vez, o Bagageiro recusou a me atender alegando que eu teria que apresentar um papel que só o serviço  social poderia me fornecer.  Por isso, mesmo depois de muita argumentação, fui obrigado a permanecer na instituição esperando a assistente social.
Foi uma longa espera. Nesse tempo, pude ver como funcionava  o albergue. Mulheres com crianças e  um senhor idoso, visivelmente doente, cercado por pessoas que pareciam seus familiares, tomavam sol. Alguns homens, talvez maridos, estavam ao lado de algumas mulheres que traziam filhos pequenos no colo. Duas mulheres, que pela conversa dava para perceber que não eram funcionárias e sim albergadas, cuidavam da limpeza do pátio.
Um funcionário apareceu e depois de elogiar o trabalho das duas voluntárias se dirigiu aos homens. Queria lembrá-los de que não podiam mais estar ali. Durante o dia, somente mulheres, crianças, idosos e doentes tinham autorização para permanecer na instituição.
Os homens resistiram e ele os pôs para fora com a ajuda de outros funcionários. Imaginei que faria o mesmo comigo e me preparei para dar uma explicação.
O funcionário passou por mim, muito irritado, sem me notar, bradando:
- É por isso que estão nessa vida! Só querem ficar na barra da saia das mulheres. No meu plantão, eu não permito. Homens têm que sair fora. Se vão trabalhar ou não, não é problema meu. Mas aqui não ficam!
Ele sumiu depois de cruzar a porta que dava acesso ao refeitório. Foi  quando uma mulher com uma criança no colo pôs-se a falar. Dizia que o marido era doente e que não podia trabalhar.
- Fazem isso com ele porque não ajudo na limpeza. Não sou puxa saco! – falou calando de súbito e passando a andar, de um lado para o outro, balançando-se nervosamente, como se ninasse a criança que, contudo, permanecia com os olhos bem abertos e com o dedo na boca.
Minutos depois, começaram a chegar alguns funcionários. Entre eles, estava a assistente social do dia, uma senhora de meia-idade, que só me atendeu depois de um bom tempo de bate papo com os colegas.
Ela falou com a moça do serviço médico, com o rapaz da identificação, com o pessoal do SINE, havia um posto lá, e com o pessoal da cozinha. Enfim, falou com todos. Sempre com um senhor gordo, de fala fanhosa a segui-la, como se estivesse tentando dizer a ela alguma coisa importante.
Entre os funcionários o assunto em pauta era o governo, suas recentes medidas e obviamente, os baixos salários do servidor público. Pareceu-me ter ouvido alguém dizer que com a entrada do “homem” muita  cabeça iria rolar. Não foi difícil deduzir que o tal “homem” era o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola.
Quando a assistente social finalmente me atendeu, já eram quase onze horas da manhã. Deu-me autorização para que eu usasse o bagageiro, depois de me fazer passar pela identificação  e pelo serviço médico, aonde o médico nem chegou a me examinar, contentando-se como uma rápida olhada geral em mim enquanto fazia algumas anotações numa ficha.
Voltei à assistente social e, apesar de sua cara carrancuda, acabou demonstrando certa simpatia oferecendo-me um “papelzinho” que valia como tíquete para almoçar.
Ela me entregou o papel com o seguinte aviso:
- Aqui só é fornecido jantar e café da manhã. Não oferecemos almoço para os homens, somente para as mulheres e crianças, além de alguns  senhores de idade e doentes. Estou lhe oferecendo dessa vez porque ficou esperando desde cedo. É um caso excepcional.
Enquanto ela falava, rememorei o jantar da noite anterior e quase agradeci a gentileza, dispensando o “papelzinho”, mas naquele adiantado da hora, já zonzo de fome, não tive como recusar. Era a chance de colocar alguma coisa no estômago, mesmo que fosse a pior comida do mundo. Principalmente, levando em conta o fato de que não tinha um tostão no bolso. Aquela era a minha única saída.
Guardei as bolsas no bagageiro e saí. Não tinha para onde ir e no estado em que estava, com as pernas bambas de fome, não conseguiria ir muito longe. Resolvi que caminharia até a Praça Coronel Assumpção, na verdade conhecida como Praça da Harmonia. Era uma questão de metros. Na praça, procurei um banco para sentar, uma vez que teria de esperar por quase duas horas. O almoço era servido depois das treze horas.
Eu já havia passado por aquela praça algumas vezes. Porém, nunca tinha reparado a beleza de sua arquitetura. O prédio do Moinho Fluminense e o quinto Batalhão da Polícia Militar, além de outras construções, quase todas antigas, formavam um conjunto apreciável.
Apesar de a arquitetura dos prédios que circundam a praça me chamarem a atenção, foi em outro detalhe a  que me ative. A praça em si, era um tanto simples: bancos de madeira, jardins semidestruídos, um coreto no centro, que servia de moradia para alguns mendigos, ou antes, albergados da Fundação Leão XIII. Ao lado do coreto, um busto do coronel Assumpção, que dá nome ao local, e uma placa onde se podia tomar conhecimento que o mesmo lutara na guerra do Paraguai. Fazia ainda parte da praça um parque infantil com alguns brinquedos, quase todos destruídos. Em frente ao albergue ficava o stand de tiro da polícia e uma espécie de clube de recreação.
A praça era toda tomada pelos mendigos, o que inibia a presença ou passagem dos moradores do bairro da Saúde e adjacências. E com isso, eles não podiam desfrutar de sua área de lazer, como pude verificar já no primeiro momento. Identifiquei alguns rostos como os que eu vira no albergue e não foi difícil deduzir que eles passavam o dia inteiro bebendo e achacando as poucas pessoas que se aventuravam a passar por ali. Vez por outra, e com alguma regularidade, surgia alguém com uma garrafa de cachaça, que era logo consumida.
As horas passaram. E tendo chegado ali por volta de onze e meia, só deixei a praça às sete da noite, quando já se fazia escuro. Permaneci sentado o dia inteiro no mesmo banco. Exceto na hora em que fui almoçar. Dessa vez, pela fome que eu estava, consegui comer. Achei que a comida não estava ruim. O único problema foi a falta de talher. Tive que esperar um senhor terminar para que ele pudesse me emprestar o seu.
O almoço me devolveu o ânimo, mas, como estava tarde, fui ficando. O dia passou rápido. Evitei pensar nos meus problemas, o que foi fácil. Tudo o que me  cercava era novo. A cada momento era surpreendido por alguma coisa  ou alguém, como o velho que se sentou do meu lado.
Era um homem de uns setenta anos, cabelos brancos, mas ainda forte, com uma perna mais grossa do que a outra, além de azulada e ferida, o que atraía moscas. Ele me contou que era aposentado e que morava com uma sobrinha que o maltratava, além de  lhe tirar todo dinheiro. Disse ainda que tinha um terreno em Santa Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro, e no terreno um barraco que precisava de uns consertos. Porém, ele, velho e doente, não tinha como fazer. Se encontrasse um rapaz bom para  lhe ajudar, ele dava moradia e comida sem cobrar nada. Só queria a companhia.
- Estou velho e doente! - repetia.
Percebendo que eu não iria me oferecer como voluntário para salvá-lo das garras de sua cruel sobrinha, o velho levantou mancando muito, se equilibrando com uma espécie de bengala, e foi sentar-se noutro lugar. Assim que ele saiu um rapaz se aproximou de mim e quis saber o que o velho conversara comigo. Relatei a conversa e este terminou por me dizer que ele era maluco. Na verdade, era um mendigo que vivia pela área e sempre que via alguém,  disposto a ouvi-lo, contava a mesma história.
Ao deixar a praça fui direto para a porta do albergue e lá entrei na tal fila que na noite anterior fiquei reparando. Agora estava no meio deles. Era um deles. Fui tomado por uma estranha sensação. Um misto de vontade de sair dali misturado com a sensação de que não tinha outra saída senão enfrentar a situação e tratar de me adaptar à realidade. Foi difícil controlar o ímpeto de voltar para a praça. A possibilidade de que algum conhecido me visse naquela fila me deixou  mais apavorado ainda. Aos poucos, fui me acalmando. Evitei conversar com as pessoas e mantive certo distanciamento de tudo. Achava que agindo assim estava um pouco protegido de tudo aquilo. Para mim, estar ali significava o fim.
O porteiro - hoje um negro forte e de voz grossa de métodos similares ao seu colega da  primeira noite - começou a permitir a entrada do pessoal da fila. Passei por ele e mostrei a autorização que me dava direito a dormir por três dias, como faziam todos os outros. Ele fez um sinal  qualquer. Nova fila me esperava, dessa vez para pegar o “papelzinho” para  a janta e a dormida.
O jantar foi arroz, feijão e legumes cozidos, desceu bem. O problema mais uma vez foi o talher. Fiquei muito tempo tomando coragem para me aproximar de alguém e pedir emprestado. Percebi que muitos tinham suas próprias técnicas para substituir o garfo ou a colher. Uns comiam, literalmente, com as mãos. O gesto provocava um espetáculo um tanto grosseiro e nojento, devido a pouca higiene da cena. Outros usavam  carteiras de identidade e outros documentos plastificados e até cascas das frutas servidas na refeição, como laranjas, por exemplo.
Novamente, eu estava de pé numa fila. Essa era para entrar para o dormitório. Um homem de meia idade, baixinho e gordo, ficou ao pé da escada recolhendo o “papelzinho”.  O “papelzinho” era  o mesmo usado para o jantar que eu entreguei para a cozinheira e ela me devolveu com um pequeno corte. A fila seguia passando por um rapaz que  estava na porta do dormitório distribuindo colchonetes e cobertores. Era um rapaz magro, de uns trinta e cinco anos. Pensei que ele, a exemplo do que eu vira pela manhã, iria exigir algum documento, mas ele me entregou um colchonete e um cobertor, ambos muito sujos, dizendo que confiava na devolução na manhã seguinte. Ele achava que a devolução dependia da consciência de cada um. Se os colchonetes e cobertores desaparecessem, os prejudicados seríamos nós.
Uma vez dentro do dormitório, procurei um local para dormir. As camas, que eram poucas, já estavam todas ocupadas pelos que chegaram primeiro. O jeito foi me contentar  em dormir no chão, como na noite anterior. Só que dessa vez fui alertado para a existência de umas tábuas que eram usadas para colocar o colchonete em cima e com isso livrar-se da umidade do piso de cimento. Ajeitei tudo como deu e sentei. Ainda era cedo e eu não tinha sono.
Para matar o tempo, passei a reparar o movimento de pessoas à minha frente. Gente de todos os tipos, sotaques, cores, brasileiros e estrangeiros, sobretudo latino-americanos. Dava para perceber que muitos já se conheciam. Alguns passavam para o chuveiro que ficava do lado de fora e voltavam com os corpos molhados, fazendo crer que ali havia a prática do banho, pelo menos para uma minoria.
Escolhi dormir  perto da porta, julgando que, em caso de tumulto ou qualquer coisa, estar próximo à saída seria melhor. Depois de umas duas horas, a luz se apagou pegando muitos de surpresa.  A maioria ainda conversava em grupos. Houve corre-corre, alguns falavam alto, procurando suas camas, gerando uma grande agitação.  Vencido  pelo cansaço, dormi logo, sem perceber que a partir daquele dia dava-se início a uma rotina que se repetiria por muito tempo ainda.


A PRIMEIRA LIÇÃO
        
     
Nos dois dias que se seguiram, travei uma verdadeira luta contra o tempo na esperança de arrumar um emprego e sair do albergue. Não conseguia conceber a ideia de permanecer naquele lugar por mais tempo. Por isso, desde que acordava de manhã até o final da tarde não tinha descanso. Saía de uma agência de emprego para outra, preenchendo fichas, fazendo entrevistas ou correndo os anúncios de jornal. Muitas vezes na companhia de Geraldo, um pernambucano de Olinda, de uns vinte e poucos anos, de sotaque bastante carregado e que fazia questão de apregoar a todos sua opção sexual. Seu mantra era:
- Eu sou “baitola”, sabe?
Dono de uma fala grossa e de gestos abrutalhados, ele chegava a ser uma figura engraçada. Único companheiro naqueles primeiros dias, o conheci na fila de entrada do albergue. Estava com algum dinheiro e às vezes me pagava um lanche. Ele não conhecia a cidade, estava fazendo sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, vindo de São Paulo, onde dizia ter morado por dois anos. Pediu que eu o levasse a alguns endereços e então pude conhecer seu lado extrovertido e alegre. Dava calote nos ônibus, pedia comida pelas casas e nos bares e aceitou Jesus num culto realizado por evangélicos na Central do Brasil. Isso em troca de algum dinheiro que o Pastor recolheu entre os fiéis depois que ele fez um discurso dizendo-se um crente no desvio e que estava disposto a se regenerar, dependendo apenas da colaboração de cada um. Sua atitude me deixou bastante envergonhado, mas de certa forma eu até que me diverti. Além do quê, ganhei um lanche logo depois numa lanchonete na própria Central do Brasil.
Num final de tarde, andando pelo Aterro do Flamengo, após atender a alguns anúncios de emprego, resolvemos sentar debaixo de uma árvore para descansar. Próximo da árvore havia um grande despacho feito com balas, doces, bombons e brinquedos. Olhei para aquilo, temeroso, e disse a Geraldo que não devíamos mexer. Ele não me deu ouvidos e sem a menor cerimônia pôs-se a devorar vorazmente tudo o que via pela frente, numa disputa sem trégua com as formigas e outros insetos. Vez ou outra me oferecia algum doce, apesar da fome não me atrevi a tocar em nada.
Naquele dia, voltamos para o albergue sem conseguir nada. No segundo dia, Geraldo comprou o jornal e encontrei alguns anúncios de emprego que batiam com a minha experiência. Separei-os e tratei de traçar  um roteiro. Verifiquei que Geraldo pretendia fazer um caminho completamente diferente. Decidimos que cada um sairia para o seu lado.
Minha caminhada começou pelo bairro do Santo Cristo, se estendeu pela Rua República do Líbano, na Saara, no centro da cidade, e lá pelas onze horas cheguei, caminhando, em Botafogo. Era o anúncio de uma revendedora de carros pedindo auxiliar de escritório.
Um senhor de meia  idade me atendeu e foi logo perguntando se eu tinha vindo pelo anúncio. Respondi que sim e ele continuou:
- Do Dia ou do Globo?
- Do  Dia, respondi. Faz diferença?
- Só para saber. – respondeu.
Ele pegou a minha carteira profissional  e deu uma olhada, ora a carteira, ora em mim propriamente. Momentos em que olhava por cima dos óculos e voltava a abaixar os olhos.
- Vamos fazer um teste? – falou, finalmente.
Apesar de nervoso, sentei e mostrei serviço, executando tudo o que ele pedia.
O homem se entusiasmou com o meu desembaraço:
- Nada mal. - comentou entre dentes.
Depois, ele me encarou:
- Tem todos os documentos?
- Sim. – respondi, me apressando em mostrá-los.
- O senhor teria algum problema em começar na segunda-feira? - ele perguntou depois me de olhar demoradamente.
- Não! - respondi quase sem voz.  
E completei:
- Até hoje mesmo, se o senhor quiser.
Passados alguns minutos, ficou acertado que eu deveria começar na segunda-feira. Era o tempo que, segundo o entrevistador, eu necessitaria para arrumar os documentos requisitados. Fui invadido por um sentimento confuso, misto de felicidade, alegria, vitória, vontade de chorar, gritar... Eu tinha conseguido. Poderia sair daquele lugar sujo e deprimente. O salário não era ruim. Dois mínimos para começar. Era tudo o que eu precisava para sair da situação desesperadora em que me encontrava.
Já estava agradecendo a Deus, em pensamento, quando ele perguntou:
- Onde mora?
Fiquei calado por algum tempo. Não esperava aquela pergunta. Ele repetiu a pergunta de forma mais insistente. Essa informação era importante por causa do vale transporte.
- Se você morar muito longe...
Abaixei a cabeça, pensei um pouco. Eu poderia inventar uma história ou fornecer um endereço qualquer.
Por fim, eu e o encarei dizendo com a voz embargada:
- Eu... bem... eu estou no albergue da Fundação Leão XIII, na Praça da Harmonia, na Saúde. É que, como o senhor sabe, estou desempregado há algum tempo e com esta situação toda acabei ficando sem ter onde morar e aí...
Fui obrigado a contar toda a minha história. E cheguei a acreditar que aquela era a melhor saída. Durante o relato, o homem se mostrava compreensivo em seus comentários e apartes. Quando cheguei ao final, tive a sensação de que iria chorar. Então, ele disse calmamente:
- Infelizmente não poderei admiti-lo. Nós aqui exigimos comprovante de residência, como parte dos documentos e pelo jeito o senhor não terá como conseguir um, não é mesmo? Essas casas, albergues, são abrigos provisórios. Sinto muito, senhor Julio.
Não sei como consegui sair dali. Em poucos minutos eu estava na rua, andando desatinadamente procurando uma explicação para o que acabara de acontecer. Além de tudo, ainda teria que enfrentar o preconceito por estar naquela situação. Andando a esmo acabei chegando às proximidades da Avenida Oswaldo Cruz, no Flamengo, onde acontecia uma feira. Estava no final. Legumes, frutas, verduras, restos de peixes, tinha de tudo caído pelo chão. Movido pela fome, que o sol  quente só fazia aumentar, passei a andar entre os detritos para ver se encontrava algo em condições para comer. Peguei algumas bananas, laranjas, um mamão, tudo muito amassado. Abaixava e calmamente apanhava tudo no chão, sem o menor constrangimento. Em nenhum momento pensava no meu ato.
Perto de mim, um feirante, com seu sotaque português, tentava espantar alguns pivetes que circulavam em torno de sua banca:
- Saiam daqui! Ainda não tá na hora de xepeiro. - gritava ele.
Já abastecido, atravessei a rua e ganhei o Aterro. Escolhi a sombra de uma árvore e me pus a comer tudo aquilo com uma fúria animalesca, sem me preocupar com o estado daquelas frutas ou com a higiene. Precisava matar minha fome e era isso que importava.
Mais tarde quando chequei à Praça da Harmonia, contei, numa roda de albergados, o que havia acontecido. Todos foram unânimes em dizer que eu tinha cometido uma grande burrice. Se eu quisesse arrumar emprego, ou mesmo ter um convívio normal com as outras pessoas, nunca deveria mencionar que era um albergado da Fundação Leão XIII.
- Fundação Leão XIII é lugar de mendigo. - afirmou um.
- Ninguém vai dar emprego a alguém que “mora” aqui. - avisou o outro.
A conversa ainda rendeu por alguns minutos. Permaneci calado. Apenas ouvia. Todos, do alto de suas experiências de vida na rua, tinham muita coisa para dizer. Naquele momento cheguei à conclusão de que ainda teria muito que aprender sobre o mundo hostil que me rodeava.
Com o grito do porteiro, tratamos de nos ajeitar na fila. Logo a seguir, ele começou a permitir a nossa entrada. O plantonista, ao me dar o “papelzinho” para jantar, ficou com a minha autorização dizendo que eu deveria procurar o serviço social no outro dia. Entendi que ele havia agido daquela maneira devido ao fato de que a autorização era apenas para três dias. Como aquele era o terceiro, a mesma perdia o valor.
Quando cheguei ao refeitório havia uma confusão formada. Um albergado falou  mal da comida, uma sopa rala e insossa. Com isso ofendeu os brios das cozinheiras. Os plantonistas, além do soldado da polícia militar, ostensivamente armado, sem a presença do qual o jantar não era servido, foram chamados. As cozinheiras pararam de servir, provocando uma inquietação geral. O responsável pela confusão se escondeu no meio dos outros quando viu a situação ficar ruim para ele. Isso fez com que os plantonistas e o policial andassem indagando à sua procura. Ninguém disse nada. O policial tomou a palavra e fez ameaças dizendo que se o culpado não aparecesse, a sopa não seria servida. Fez um elogio ao governo que, segundo suas palavras, não  tinha obrigação de alimentar vagabundo. Aquela sopa estava além do que merecíamos. Portanto, todos deveriam agradecer e não falar mal. 
Terminado o discurso, como ninguém se manifestava, ele resolveu chamar as cozinheiras ofendidas para que elas reconhecessem o agressor. Isso provocou uma grande apreensão.
As cozinheiras andaram pelo refeitório, repetindo a ação de seus colegas. De repente, uma delas falou apontando em minha direção:
- É ele!
Tive a impressão que era para mim que ela estava apontando. Senti o chão faltar debaixo dos meus pés. Os plantonistas e o policial caminharam em minha direção. O que aquela cozinheira maluca estava fazendo? Não sabia o que pensar. Já estava pronto para esboçar alguma reação, quando vi um rapaz encolhido do meu lado. Era magro, branco, e aparentava uns trinta anos.
- Foi aquele engraçadinho ali. - completou a outra cozinheira.
O rapaz tentou explicar, mas não teve jeito. Foi arrastado dali até o portão, de onde foi empurrado para o meio da rua. Os plantonistas e o policial vociferavam palavras que não deram para escutar direito, mas que não eram difíceis de imaginar. Logo a seguir, retornaram ao refeitório, onde reinava o mais absoluto silêncio. Um plantonista passou a falar, nervosamente, nos alertando de que não estavam ali para aturar insubordinação e desaforo de mendigos vagabundos. E, bastante alterado, parecia esperar que alguém tivesse algum tipo de reação para que pudesse colocar para fora todo o seu ódio. Ninguém se manifestou. Silêncio total.
Diante disso, a sopa voltou a ser servida. Timidamente, o burburinho e a algazarra comuns da hora do jantar foram retornando. Em pouco, nada fazia lembrar o que tinha acabado de acontecer. Como todos os outros, eu estava faminto e preocupado apenas em conseguir tomar aquela sopa quente e rala, porém, muito bem-vinda.
No dormitório, quando a luz finalmente apagou, tentei dormir e não consegui. Lá pelas tantas percebi uma grande movimentação. Vultos passavam de um lado para o outro. Uns solitários, outros em grupos, que cochichavam entre si. Com algum esforço notei que eram os travestis que vira na entrada. Eram em número considerável e agora falavam alto.
Uma voz com sotaque nordestino gritou:
- Oxente! Será que não tem macho nesse Rio de Janeiro?
Abri os olhos e vi que o Geraldo estava entre eles. Aquela movimentação durou algum tempo. Houve gritos, gracejos e troca de insultos.
Alguém se dirigiu à porta de entrada  e gritou pelo plantonista. As  luzes se acenderam e ele apareceu com um porrete na mão. Fez algumas ameaças e prometeu expulsar os baderneiros. Essa hora impossível de serem distinguidos, dado ao silêncio que se fez, repentinamente, tão logo as luzes acenderam.  O plantonista foi embora. Novamente as luzes se apagaram. Da minha parte, não consegui dormir, dominado por ideias um tanto derrotistas.

 
MINHA HISTÓRIA

         
O quarto dia que passei no albergue foi, sem dúvida, decisivo. Marcou profundamente minha passagem pela instituição revelando um mundo do qual eu viria a fazer parte integrante levado por uma força inexplicável. Apesar de tudo que vinha me acontecendo nos últimos tempos, nada se compararia àquilo. Eu conheceria toda a miséria humana. Uma miséria que não sabia ser capaz de suportar.
Depois de dormir entregue a pensamentos nada otimistas, acordei sem nenhuma esperança de dias melhores. Embora tentasse me convencer do contrário, tinha perdido a convicção inicial. Já não acreditava que sairia daquela situação tão facilmente. Para piorar as coisas, eu estava novamente sem um lugar para ficar. Os três dias de estadia, que me foram concedidos quando cheguei, expiraram. Não sabia se valeria à pena continuar “hospedado” ali no meio daqueles farrapos humanos enfrentando as afrontas e humilhações que  eram impostas a todos pelos funcionários. No entanto, eu não tinha escolha. Era ficar no albergue ou voltar para a rua.
Apesar de todo o meu dilema, aquele era um assunto para depois. Antes de tomar qualquer coisa, eu precisava entrar na fila do café que, sem dinheiro, eu não podia dispensar.
O refeitório estava lotado. Por um momento, fiquei assistindo tudo meio de lado. As duas cozinheiras estavam atrás de dois grandes caldeirões de alumínio. Num estava o café e no outro o pão. Achei esquisito ver aquela mulher tirando o café com uma concha dessas usadas para sopa. Com a concha suspensa, ela gritava para  que o albergado  posicionasse melhor o copo. A cena  não era nada diferente da hora sopa à noite. Em seguida, a outra cozinheira pegava o pão com as mãos e entregava ao albergado. Era tudo muito grosseiro. Pensei em desistir. Tive a impressão de que as mãos da mulher eram sujas.
O bom senso lembrou-me de que eu não estava em condições de fazer qualquer tipo de consideração. Afinal, eu estava faminto e precisava comer.  E era isso que contava. O resto era pura frescura de um rapaz que ainda não estava completamente consciente de sua real situação.
Levado por esse pensamento, eu entrei na fila. Até porque não restava muito tempo. Dali a pouco uma das cozinheiras gritaria que o café estava encerrado, como vi acontecer nos dias anteriores. Permaneci na fila até que chegou a minha vez. Trabalhado perdido. A cozinheira, estupidamente, avisou-me de que não forneciam copos. E sem um copo era impossível tomar o café. Segundo ela, todos os copos que existiam ali sumiram. A situação me deixou um tanto sem jeito. Ela falava aos berros e eu não sabia o que fazer.
Naquele momento percebi o quanto os funcionários da Fundação Leão XIII eram estúpidos e impacientes com os albergados. Todos em geral, pareciam agir de combinação ou que aquele tipo de procedimento era norma da casa.
Saí da fila e parti para ver se conseguia um copo emprestado. Tinha a ideia fixa de que precisava  comer alguma coisa. À minha frente tinha um longo dia e talvez aquela fosse a única chance que eu teria para colocar alguma coisa no estômago. Foi difícil. Só  depois de pedir para e um e outro é que acabei conseguindo. Na verdade não era um copo e sim uma lata de conserva vazia, talvez extrato de tomate ou salsicha.
Quase todos usavam latas ou copos plásticos, vasilhames de água mineral. Copos improvisados que os donos se negavam a emprestar como se fossem de cristal. Além da negativa, muitos sugeriam que eu devia fazer como todos eles. Ou seja, pegar uma lata  e fazer um copo para mim. A rua estava cheia delas. Era só pegar e lavar direitinho como eles faziam. E eu não era melhor do que eles, ou era?
E com isso me davam mais uma grande lição. Um albergado precisava ser um tanto precavido. Por ser obrigado a enfrentar muitas situações inesperadas durante todo o tempo, tinha que lançar mão de alguns expedientes vitais para a sobrevivência na “selva”. Por isso, todos carregavam consigo uma mochila, bolsa de mão ou mesmo sacolas de supermercado contendo pequenos objetos de uso diário. Os copos para o café e as colheres para a sopa estavam entre os itens indispensáveis. Muitos traziam até pratos, para o caso de conseguir comida. Na mochila deveria conter também uma muda de roupa. Nunca se sabia o que podia acontecer e o bagageiro tinha hora certa para funcionar: abria às seis horas da manhã e às cinco horas da tarde. O restante do dia era fechado. Outros objetos como pente, escova de dente, espelho, barbeador fechavam a lista de prioridades. Não devia se esquecer de guardá-los bem. Os roubos eram comuns. Principalmente os copos e os talhares. Objetos bastante visados por sua importância na hora das refeições. Fato que viria a se confirmar com as muitas brigas que presenciei causadas por furtos dessa natureza. Geralmente, aconteciam no refeitório. Nem as presenças dos plantonistas e do policial intimidavam.
Quanto ao café, minha salvação, mais uma vez, foi o Geraldo. Ele conseguiu um copo emprestado com um colega dele. Ele já estava completamente enturmado.
Aproximei da cozinheira e ela me serviu o café. Enquanto servia, avisou que não poderia repetir. A outra, que servia o pão, disse a mesma coisa. Um pão para cada um. Ainda faltava muita gente. Afastei sem dizer nada e fui para um canto. Não se tratava realmente de café a água marrom que estava no copo. Só sei que estava muito quente. O gosto não dava para definir. O pão, duro e velho,  cheirava a mofo e o gosto não era nada bom. Comi assim mesmo. Não sabia o que viria depois.
Geraldo despediu-se de mim com sua habitual alegria e foi à luta. Continuava otimista quanto ao seu futuro. Conseguir um emprego era uma questão de dias, afirmava ele. Quando ele saiu lembrei que tinha que decidir o meu destino. Na mente, a certeza apenas de que na rua não dava para ficar. No albergue, eu estaria de certa forma protegido.
Decidi que ficaria para falar com a assistente social e tentar conseguir mais uns dias. O plantonista já tinha me avisado que sem a autorização eu não entraria de jeito nenhum. Fato que eu já havia presenciado nas noites passadas. Sempre tinha alguém tentando explicar para o porteiro que não tinha tido tempo de falar com assistente social por esse ou aquele motivo. O que de nada adiantava, pois todos eram irredutíveis. Sem a autorização a saída era dormir na rua.
Tudo transcorreu como no primeiro dia. As mesmas cenas, as mesmas pessoas. Tudo igual. Dessa vez o funcionário que veio expulsar os homens que insistiam em permanecer no albergue, tentou me colocar para fora também. Expliquei o motivo da minha presença ali e ele concordou que eu ficasse.
Pela primeira vez, comecei a demonstrar certa impaciência. Foi difícil esperar tanto tempo. O cigarro tinha acabado e já fumava na base do “se me dão”. Sem nenhuma timidez, eu abordava um e  outro e pedia. Repetia a mesma atitude que eu achara estranha no primeiro dia.
Tive a falta de sorte de pedir cigarros a um funcionário e ele reagiu muito mal. Descobri com isso que, pelo fato de não usarem uniforme, era fácil confundir um funcionário com um albergado. A única coisa que os destacava era a arrogância e a tendência aos maus-tratos. Quando via alguém maltratando outro e este não oferecia nenhum tipo de reação concluía que era um funcionário ou funcionária. No mais, não tinha grande diferença. Eles eram, salvo algumas exceções, negros ou mulatos e com idades acima dos quarenta anos. Todos de aparência muito simples e um tanto desajeitados no trato com os albergados. Muitos eram conhecidos por sua truculência e eram temidos. A confusão na distinção entre funcionários e albergados aumentava com a existência de funcionários que na verdade também eram albergados.
Fui atendido por volta das dez horas. Quando entrei na sala da assistente social, ela foi logo perguntando se eu tinha encontrado trabalho e não esperou a resposta. Avisou que se eu não conseguisse alguma coisa não teria meu prazo de permanência no albergue renovado. Fez um longo discurso que eu não fiz questão de ouvir.
Enquanto ela falava fiquei reparando a sala do serviço social que era grande, bastante espaçosa. Umas quatro ou cinco mesas e alguns armários compunham o mobiliário. Tudo antigo, empoeirado e maltratado. As mesas vazias faziam crer que pela manhã  a assistente social de nome Renê, como eu viria saber, trabalhava sozinha.
Voltei a prestar atenção no que ela dizia no momento em que me apresentava um papel xerocado. Era quadrado e tinha os dias do mês datilografados nas bordas. No centro, espaço para o nome e o número do portador. Era a autorização. Eu poderia ficar no albergue. Teria mais alguns dias. Tempo, segundo ela, suficiente para resolver o meu problema. Aconselhou-me a  cuidar bem daquele papel que ela chamava de cartão de identificação. Tudo o que eu fizesse ali teria que apresentá-lo. Era minha identidade dentro do albergue.
O atendimento chegou ao fim com a assistente social avisando-me que havia uma agência do SINE dentro albergue. Afirmou que tinha muitas vagas em aberto. Comentei que minha função era na área de contabilidade e ela disse que as vagas eram para serviço braçal e, quando muito, para serviços gerais. Se quisesse trabalhar, não poderia escolher. Deveria ir até a agência e aceitar o que me oferecessem. Fiz o que ela sugeriu.
Na sala do SINE, o funcionário a desmentiu dizendo que não tinha nenhuma vaga naquele dia. Vagas apenas para empregadas domésticas. Saí  do SINE e fui para a praça. Nessa hora, o sol queimava sem piedade. A fome já dava sinais e eu estava bastante desanimado. A decepção com o emprego no dia anterior ainda era forte. Fez com que apagasse todo o meu otimismo. Sentei num banco para decidir o que fazer. Precisava traçar um roteiro. Aonde ir, que caminho tomar.
Com o cartão do albergue ainda nas mãos, eu tentava decifrar algumas coisas que estavam escritas nele. Além do meu nome e do prazo de validade, tinha um número. Não me recordo que número era esse. Lembro-me que tentei descobrir o seu significado. Poderia ser um número aleatório, mas também poderia significar a quantidade de albergados, uma classificação ou coisa do gênero. Desisti da empreitada concluindo que isso não tinha a menor importância. Aliás, naquele momento quase nada importava.
Quatorze dias era tempo demais, pensava comigo. Esse foi o prazo que a assistente social me deu. Cheguei a dizer para ela que não precisava de tanto tempo. Eu arrumaria um emprego em poucos dias.
“Nunca fui vagabundo”, pensava.
Só estava ali porque não tinha recebido os dois últimos salários no emprego de assistente de produção num programa da  Rádio Continental. Era o programa de variedades, “Mulheres em Ação”, apresentado por Deise Borges e ia ao ar das sete às nove horas da manhã. O programa que já havia passado pela Tv. Corcovado, onde era apresentado das três às cinco da tarde de segunda a sexta-feira. O programa até que tinha audiência na televisão, mas Deise Borges, por ocasião das eleições, recebeu alguns candidatos como Cidinha Campos, José Louzeiro e Regina Gordilho. O assunto em pauta foi o trabalho que o governador Moreira Franco vinha desenvolvendo no estado do Rio de Janeiro. Como opositores do governo, eles não pouparam críticas. O programa teve alguma repercussão e como a TV Corcovado tinha sua programação patrocinada pela LOTERJ, tirou o programa do ar. Provavelmente temendo perder o patrocínio.  Quando voltou, na Rádio Continental, a repercussão não foi muito boa e o programa não conseguiu patrocinadores. Somando tudo isso ao caráter pouco confiável de Deise Borges, era por esse motivo que eu estava ali.
O programa, dentre outras coisas, em sua temporada no rádio, tinha uma parte dedicada ao acolhimento de pessoas necessitadas e desabrigadas. Deise, que tinha a intenção de se candidatar a algum cargo público, usava isso como forma de se promover. Muitas vezes, liguei para a Fundação Leão XIII, como parte do meu trabalho, para tentar conseguir um lugar para algum desabrigado ou para uma família inteira. Jamais imaginei que um dia estaria na mesma condição.
Logo que programa saiu do ar usei todos os artifícios possíveis  para tentar receber os dois meses de salário que a jornalista me devia, sem nada conseguir. Ela alegou que estava falida. Por isso, fui obrigado a deixar a casa onde morava em Mesquita, Nova Iguaçu.
Nesse caso,  dizer que fui obrigado é força de expressão.  Pela dona da casa, a Léla, talvez eu ainda estivesse morando lá até hoje. Só que não era justo continuar sem poder pagar nada. Além do mais, Léla era viúva, mãe de dois filhos pequenos e precisava do dinheiro do aluguel do quarto para ajudar no orçamento da casa. Não tinha cabimento. A decisão de deixar a casa foi totalmente minha.
Conheci a Léla através do Paulo. Como ele, ela era adepta do candomblé.  Paulo era mineiro de Belo Horizonte e dividi um apartamento em Botafogo com ele e seu companheiro Jaílson, logo que cheguei ao Rio, em julho de 1989.
E foi com eles que eu mudei de Botafogo para um apartamento em Juscelino, em Nova Iguaçu. Quando eles resolveram voltar para Minas, depois que o Paulo perdeu o emprego de cozinheiro num famoso restaurante da cidade, e eu não tive condições de ficar com o apartamento, ele convenceu sua irmã de santo a me alugar um quarto em sua casa.
Porém, o fato de estar vivendo praticamente de favor não me agradava. Mesmo sabendo que  a minha atitude  seria classificada como arrogante e orgulhosa, decidi deixar a casa da Léla e enfrentar o mundo. Só que eu não podia imaginar no que daria aquilo. Quando, já na rua, lembrei-me da existência da Fundação Leão XIII, foi muito triste e irônico.
Portanto, só dava para me imaginar passando ali mais quatro ou cinco dias, no máximo. Quatorze dias era impensável, inconcebível mesmo. Logo eu arrumaria um emprego. E teria que ser numa boa firma, com carteira assinada e com todos os direitos assegurados. Era por falta de uma carteira assinada que eu estava com tanta dificuldade para receber da Deise. Nosso trato era de boca, trabalho informal, sem nenhuma garantia.
Para que isso acontecesse, era preciso levantar o traseiro daquele banco e sair em campo. Contudo, se o meu pensamento exigia uma reação, o meu corpo não. Por mais que eu tentasse não conseguia arredar o pé daquele lugar.
Passei o dia inteiro nesse embate. A mente queria uma coisa e o corpo outra. Quando dei por mim, já eram sete horas da noite. Tinha ficado o dia inteiro na praça envolvido com seu movimento. Vim a dar por mim ao entrar na fila na porta do albergue. Como qualquer outro faminto, eu esperava pela sopa.  A fome tem um desespero, uma urgência que jamais pensei que tivesse. Agora entendia aqueles olhares desesperados fixos no portão fechado.
Apesar de estar zonzo e com as pernas bambas, não deixava de reparar tudo à minha volta. Buscava desenhar um passado para cada um daqueles personagens à minha frente. Vítor Hugo não os imaginou. Eram miseráveis reais. Ironicamente, cheguei à minha própria história.
Nasci numa família de classe média pobre na cidade de Ibiá, no interior de Minas Gerais. Meu pai, Adão Moreira, era telegrafista da Rede Ferroviária. Minha mãe, Maria Aparecida Moreira, além de dona de casa, era costureira. Tiveram dez filhos; Adãozinho, Luís Antônio, Carlos Roberto, Nely Eva, Márcia, Telma, Eloisa, Dimas Eduardo e Paulo Rogério. Eu sou o quinto filho. Morávamos numa casa grande, com um quintal imenso e posso afirmar que tive uma infância feliz. Apesar de os dois serem muito severos, principalmente minha mãe. Havia fartura na mesa e preocupação com a educação e saúde dos filhos. Eles não deixavam nos faltar nada ao mesmo tempo em que nos alertavam para a necessidade de ganhar o nosso próprio dinheiro. Comecei a trabalhar cedo. Trabalho braçal nas lavouras e fazendas.  Com a chegada dos “japoneses” à cidade, esse era a única forma para um pré-adolescente como eu ganhar algum dinheiro.
Pouco depois, fui trabalhar como balconista numa livraria, a Joia Papelaria, de propriedade da Maria Conceição de Ávila, a Sãozinha. Era a única da cidade. O que dava certo status e representou uma espécie de “subida” na vida. Não teria mais que levantar de madrugada, subir naqueles caminhões, comer comida fria ou azeda, enfrentar sol, chuva, animais ferozes e passaria a trabalhar limpo e bem arrumado.
Foi por essa época que aprofundei meus conhecimentos. Aluno do segundo grau nessa época, eu tinha sempre os livros e informações em primeira mão. Sem contar que a livraria era também papelaria, loja de presentes e vendia todo tipo de revistas e era um ponto de grande movimentação na cidade.
Minha inclinação inicial foi para o sacerdócio. Cheguei a tomar a decisão de me tornar padre, mas a vocação para a arte de representar falou mais alto. Atuava como ator amador no Grupo Teatral Renascentista Ibiaense, mais conhecido pelas iniciais G.T.R.I.
O grupo era formado, em sua maioria, por alunos do Colégio São José como o Wilmar Silva, o Roberto Natalino, a Leila Xavier, o José Wilson Andrade e outros. O colégio São José era um colégio de freiras e foi onde eu fiz o curso de Técnico em Contabilidade.
Mais tarde, já decidido que queria ser ator profissional, resolvi abandonar  o terceiro período do curso de Letras, na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Patrocínio e me mudei para Belo Horizonte para fazer um curso de teatro no NET(Núcleo de Estudos Teatrais), onde conheci muita gente boa, e dei seguimento à carreira.
Depois de quatro anos na cidade e de me profissionalizar, resolvi sair do emprego e me mudar para o Rio de Janeiro, grande sonho da minha vida. Uma vez no Rio, tentei conseguir alguma chance na Tv Globo e na Tv Manchete, na época com um núcleo de dramaturgia atuante, mas nada consegui.
Guardo dessa época uma lição que recebi. Ela foi dada pelo ator José Wilker. Eu costumava ir para a porta da Tv Globo, no Jardim Botânico, na esperança de conseguir alguma coisa. Normalmente, ficava ali perto do bar Século XX. Um dia vi o Wilker tomando café no bar e tive a ideia de me aproximar e conversar com ele. Pelo que me constava, ele era o diretor de dramaturgia da Tv. Manchete e eu vi ali uma chance de conseguir pelo menos um teste. Timidamente, toquei no assunto e ele incisivo. Disse que não estava mais na Manchete e que, como eu, também estava ali pedindo emprego. Ou seja, estava todo mundo no mesmo barco. Diante disso, o jeito foi voltar para o mercado de trabalho convencional, o que não estava nada fácil. O então Presidente Fernando Collor de Mello,  com suas medidas só fez piorar tudo. Um anúncio na televisão me levou até Deise Borges e através dela eu estava ali.
Tentei desviar o pensamento. Esquecer que um dia tive casa, família, comida farta na mesa, amigos, sonhos. Era o melhor que eu tinha a fazer. Precisava evitar me fragilizar. Nada de autopiedade. Não tinha nada que ficar querendo me transformar numa vítima do sistema, embora tivesse alguma consciência disso. A indiferença, naquele momento, era o remédio.
Alguém tentou furar a fila e uma confusão teve início. De repente, me vi no meio dela. Brigava pelo meu lugar na fila. Como qualquer outro, defendia o meu direito de ser um dos primeiros a entrar. Aquela fila começava cedo, por volta das cinco horas. Todos sabiam que deixar para entrar nela tarde significava ter que esperar mais tempo pela sopa. Por volta de sete horas, ela se tornava muito grande e confusa.
O portão abriu e o porteiro apareceu dando a entender que estava na hora de entrar. O mesmo embate de sempre entre o ele e os albergados. Autorizações que não valiam mais, bêbados barrados e etc. Lá dentro, o plantonista fez o primeiro risco no meu cartão e rubricou do lado.
No refeitório, a sopa não foi suficiente para aplacar toda fome que eu sentia. O pão servido junto ajudou um pouco. Subi para o dormitório e fui dormir tentando me convencer, sem muito sucesso, de que o amanhã viria mostrando a aurora de um novo dia e que tudo aquilo poderia mudar.


 MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA
OU PERDIDO NA PRAÇA
          
Dia após dia eu seguia a mesma rotina. Já não sabia quanto tempo fazia que eu estava no albergue. Para ser exato, apenas o cartão de identificação me dava certa noção de tempo. Pelos riscos que o plantonista fazia nele, pude verificar que os quatorze dias que a assistente social tinha me concedido estavam quase no fim. Durante dias, a praça tinha sido minha casa, meu refúgio, o lugar onde nada me era negado, nem exigido. Onde ninguém me tinha pena ou preconceito. Era tratado como igual e isso me fazia bem. E tão logo amanhecia o dia, eu ia para lá. Ficava sentado por ali conversando com um e outro, mas, sobretudo, remoendo meus problemas.
Logo no primeiro dia, pude sentir que aquela praça, aparentemente inofensiva, exercia sobre as pessoas uma força poderosa. Era preciso ser muito forte, ter muita força de vontade para não se deixar seduzir. Durante o dia, ela funcionava como uma extensão do albergue, principalmente para os homens. O movimento começava às seis da manhã, quando era intenso, e só terminava na hora da entrada à noite.
Pela manhã, aqueles que tinham dinheiro iam tomar café na padaria que ficava em frente. Os que não tinham dinheiro, esse era o meu caso, sentavam pelos bancos e ficavam esperando que aparecesse alguma coisa. Nessa hora a maior procura era por cigarro. Biscoito, frutas, pão também eram bem-vindos. Se alguém queria comer ou fumar tranquilamente que não ficasse na praça.
Aos poucos, a praça ia se esvaziando. Aqueles que tinham alguma coisa para fazer iam saindo. Normalmente, eles iam para o trabalho, procurar emprego ou mesmo vagabundear pela cidade. Alguns iam tirar segundas vias de documentos, que eram perdidos com frequência. A falta de documentos dificultava ainda mais arranjar trabalho com carteira assinada.
Lá pelas nove horas a praça começava a ficar com seus frequentadores habituais que eram os mendigos  e as mulheres albergadas que vinham tomar sol com os seus filhos pequenos.
Em pouco tempo me fiz conhecido de todos. Após fazer o gênero caladão por algum tempo, acabei cedendo. Sempre aparecia alguém para puxar papo. Começava com uma conversa tímida e daí a pouco o cara já estava se sentindo íntimo, falando de si e querendo saber coisas a meu respeito. Nessas conversas, ficava claro que a maioria não tinha grandes objetivos na vida. Viviam de cidade em cidade, como ciganos. Uma hora aqui, outra acolá. Sem uma definição ou meta a cumprir. Ficavam uns tempos em São Paulo, no Rio e já estavam se mudando outra vez. Os motivos para a mudança poderiam ser o frio de São Paulo, a saudade da família ou mesmo a simples vontade de variar, mudar de ares. Esse tipo de comportamento se dava em maior parte com os nordestinos. Eles vinham para o sul, é assim que chamavam a região sudeste, para trabalharem. Geralmente, fugindo da seca, da falta de emprego em suas terras ou simplesmente atrás do sonho de conseguir bons empregos para ganhar dinheiro e poder voltar para sua terra natal. Principalmente pelo fato de que, quase sempre, eram casados e as esposas e os filhos tinham ficado para trás. Era só conseguir um emprego, juntar um pouco de dinheiro e já estavam de volta para seus estados de origem.
As  conversas rendiam. Havia também muita troca de informação.
“Belo Horizonte é bom para trabalho. Tem muita construção”, informava um.
Outro aconselhava Brasília. Isso, após pegar o cigarro que, pelas minhas contas, já passava pela décima mão. Tinha que me conformar em esperar pelo próximo cigarro, aquele já estava no filtro. Difícil era saber quando iria aparecer. No meio da conversa uma cena curiosa: um rapaz desfolhava e rasgava uma carteira de trabalho. Aproximei dele e perguntei se ele a tinha achado. Respondeu que não. Era sua própria carteira de trabalho. Fazia isso porque, segundo dizia, um patrão, tinha sujado o documento.
Carteira suja significava que o portador tinha entrado e saído de algum emprego em prazo muito curto, fazendo com que o trabalhador ficasse um tanto desacreditado para arrumar um novo trabalho. O jeito, em sua visão, era destruí-la e tirar uma nova, alegando que havia perdido. Assim, ele acreditava, ficava mais fácil. Sabedoria da praça. Porém, a realidade era outra. Sem uma carteira de trabalho ele ganhava tempo e podia usar como desculpa na hora em que a assistente social cobrasse o fato dele estar desempregado. Pelo visto,  essa era uma prática.
Outra prática ou costume era de ficar à espera de passagens para viajar de volta para sua terra natal. Muitos pediam às assistentes sociais que lhes arrumassem essas passagens e elas tinham até uma lista de espera. Fato que confirmei quando a assistente social que me atendia perguntou se eu queria entrar na tal lista. Na verdade, havia até certo incentivo por parte do governo municipal nesse sentido.
A fome se fazia avisar pelo ronco, o barulho que vinha do estômago. Um gordo baixinho, que se mantinha calado, fez uma pergunta de grande interesse:
- Brasília tem albergue?
A resposta foi esperada com certa ansiedade. Era questão primordial para que uma viagem fosse decidida. A maioria já tinha passagem por albergues de várias cidades do Brasil. Em muitos casos desembarcavam na rodoviária e iam direto buscar abrigo nos albergues.
Um senhor tomou a palavra e passou a tecer ferrenho comentário sobre Brasília, que ele fazia questão de chamar de Distrito Federal. Tudo ouvido com muita atenção. Falou da limpeza, da organização e fez comparações elogiosas.
- Lá albergado é bem tratado. Não é igual aqui. Tem até carro para levar o albergado onde ele quiser. Motorista e tudo.
Ele fez uma pausa e retomou:
- E a comida? Nem falo! Especial! Tem que ir lá para ver. Uma beleza! Até vale transporte eles dão pra gente ir procurar emprego. Sem falar na roupa, sapato...
Nesse instante o discurso foi interrompido pela pergunta de um nordestino:
- Brasília não é onde mora o Presidente?
Fez-se silêncio. Quis tomar a palavra e dizer alguma coisa. Usar aquele momento para despejar um pouco da minha indignação, mas preferi não falar nada.
Quando beirava a hora do almoço, o sol castigava. Era o momento de escolher um banco onde houvesse sombra. Isto é, se encontrasse. Nessa hora a praça voltava a ficar cheia e o cenário ficava um tanto aterrador. Na minha frente só desfilavam famintos, maltrapilhos, miseráveis, indigentes, em meio aos insetos que chegavam com o aumento da temperatura, atraídos pelos restos de alimentos e outros detritos espalhados pelo chão da  praça. Era preciso espantá-los o tempo todo. Havia muitas pessoas portadoras de feridas pelo corpo e isso aumentava o medo de contrair alguma doença.
No meio disso dava para perceber a agitação da turma da cachaça para conseguir dinheiro para mais uma garrafa. Talvez a terceira ou a quarta. Eles eram em grande número e agiam com certa organização. Cada vez era a hora de uma turma sair para achacar nas redondezas ou mesmo os desavisados que aventuravam atravessar a praça. Sempre havia um chefe no grupo. Aquele que reunia o dinheiro e destacava quem iria comprar a bebida. Essa tarefa não era recebida com satisfação. O escolhido relutava em aceitar. Parecia ter vergonha do ato, como se estivesse preocupado com o que iriam pensar dele comprando cachaça àquela hora do dia ou coisa assim. Tinha também o fato de que os comerciantes do local já conheciam quem era e quem não era albergado da Fundação. E, muitas vezes, se negavam a vender. Por isso, quando a bebida chegava, era servida de acordo com o esforço de cada um. Aquele que enfrentou a terrível missão de comprar o líquido precioso tinha direito a beber mais. Bem como o chefe e aquele que arrecadou mais dinheiro. No final, tudo acabava em confusão. Os que se julgavam prejudicados pela divisão brigavam com o responsável por esta tarefa. Apesar de a praça estar sempre policiada, devido à existência do Batalhão, não cheguei a ver a intervenção deles nessas brigas. Parecia que eles não se preocupavam com o que acontecia na praça. Nem os mendigos se importavam com eles. Era o que se podia dizer uma convivência pacifica.
As horas passavam e a fome aumentava. De vez em quando alguém chegava com alguma coisa. Quase sempre, xepa de feira. Frutas esmagadas ou podres. Nunca era algo aproveitável. Porém, tudo era disputado com voracidade. Às vezes aparecia uma alma caridosa oferecendo quentinhas. Os espertos corriam e pegavam tudo. Não deixavam para ninguém. Nesse caso, aquele que conseguia, nunca ficava por ali. Pegava a quentinha e corria para longe. Qualquer movimento anormal era percebido rapidamente como se ficassem o tempo todo esperando feito cobra a hora do bote.
Uma vez estando na rua, o indivíduo cria suas próprias técnicas de sobrevivência. Elas consistiam principalmente em descobrir uma maneira de matar a fome. Para isso havia locais muito conhecidos de todos. Existia até um roteiro. Pela manhã passava-se pelo Banco da Providência, que funcionava nos porões da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, onde tomavam café com pão. Dali rumava-se para Botafogo, na Rua Real Grandeza. Meninos de Jesus era o nome da instituição. Novo café. Dessa vez, regado a um pequeno culto evangélico. A sopa ficava por conta da Tia Margarida, em Marechal Hermes. Além da sopa, ela distribuía roupas e sapatos usados.
Os batalhões de polícia e quartéis também eram muito procurados. Dependendo do humor dos soldados de plantão, era possível conseguir uma comida de boa qualidade, segundo diziam.  Bares e restaurantes também faziam parte da lista. Se de todo não conseguisse ainda restava o próprio albergue que, em caso de sobras, abria exceção  e servia comida a alguns escolhidos. Nesse horário, como eu pude verificar, a comida era melhor. Bem diferente da sopa noturna. A fila era grande e cabia ao porteiro anunciar o número de pratos que tinha sobrado e escolher quem seriam os contemplados. A escolha era feita no olho. Dependia do aspecto físico e se o indivíduo não estivesse bêbado nem todos os dias por  ali. Era um pouco difícil encontrar alguém que se enquadrasse nessas exigências e o que acabava  prevalecendo mesmo era a astúcia do pedinte em criar uma história convincente.
Descobri que a lei  da sobrevivência na rua tinha códigos muito duros. Nunca um mendigo ou desabrigado dava algo a outro por mais de uma vez seguida. Num primeiro momento eram amigos e solícitos, mas isso não durava muito. Logo ao perceberem que o “ajudado” estava fazendo corpo mole, que não estava “se virando”, passavam a tratar diferente. Passavam a evitá-lo e tratavam de espalhar para todos que aquele indivíduo era um parasita.
Apesar de muitos viverem em grupos, a luta pela sobrevivência diária era individual. Tudo isso ficou claro para mim quando aceitei um convite para almoçar com um desses grupos. O almoço aconteceu atrás dos armazéns do cais do porto, próximo do albergue, organizado  por uma turma de travestis e seus “maridos”. Os travestis eram: um paraense que apesar da careca reluzente fazia questão de ser chamado de “ela”, outro negro  magro de nome “Luísa”  e um terceiro que era chamado de “Baiana”. “Os maridos” eram três figuras mal-encaradas.   Um negro alto e magro, que se dizia artesão; um mineiro, mulato fechado,  de uns vinte e cinco anos, tipo perigoso,  que dizia ter várias passagens pela polícia e um branco magro e alto, tipo gaúcho, mas muito calado.
Quando cheguei o almoço, feito em latas que mais tarde eu descobriria terem sido encontradas por ali mesmo, já estava quase pronto. O fogão era improvisado  e também fora encontrado no local. Logo o paraense anunciou que a comida estava sendo feita sem sal. Falava e olhava diretamente para mim, como que ordenando que eu fosse comprar. Tentei disfarçar. Ele resolveu ir direto ao assunto. Falei que não tinha dinheiro e ele começou a rir, perguntando:
- E alguém aqui falou em dinheiro? Te vira! Todo mundo entrou com alguma coisa. Vai à luta!
Fiquei sem ação. O paraense me deu a ficha dos mercados da região. Seria moleza, dizia ele, com uma naturalidade espantosa. Não adiantou dar explicação, dizer que nunca tinha feito aquele tipo de coisa. Para eles, agora todos participavam da conversa, era uma questão de entrar no mercado, pegar a mercadoria desejada e sair fora. Era só ser rápido e objetivo. E avisaram que o “rango” tinha sido conseguido todo assim.
 - Está  pensando que alguém aqui tem grana? - perguntou “Luísa”, me encarando. Não respondi e “ela” continuou:
- É a primeira vez que tu cai na rua, não é?
Respondi que sim e “Luísa” falou do alto da sua experiência:
- Logo vi. Está muito verde ainda, colega. Precisa aprender muita coisa da vida na rua, se não tu vai morrer de fome.
Assim que terminou de falar, “ela” saiu batendo o pé. Fiquei ali parado à mercê de todo tipo de comentário. Cada um desfilando suas muitas experiências da vida. Uma vida quase sempre marcada pela miséria, mas da qual tinham muito orgulho. Até o artesão abandonou sua “obra prima”. Estava fazendo uma capa para uma caneta usando durepox e alguns enfeites. Ele passou a falar de sua vida. Não me recordo seu estado de origem. Era um misto de baiano e carioca, não dava para definir pelo seu sotaque alterado pelas constantes andanças. Contou que vivia bem com sua esposa até que ficou desempregado e os dois foram despejados do barraco onde viviam e foram morar na rua. Moraram em vários pontos da cidade. Só pararam quando encontraram uns barracões abandonados onde firmaram moradia. O espaço era dividido com outras famílias e do convívio diário se deu a tragédia.
Um belo dia um “paraíba” se meteu com sua esposa e ele não pestanejou. Sangrou o “cabra da peste”, que morreu na hora. Desde então, ele vivia uns tempos aqui e ali. Não tinha lugar certo. Agora tinha encontrado a “Luísa” e queria viver com “ela” para sempre. Estava apaixonado. Lamentava nunca ter dado sorte com mulher. Era por causa de uma desgraçada que ele estava naquela vida.
- Se a “Luísa” é homem? É sim. Nessa vida a gente tem que tentar de tudo. - disse antecipando a uma pergunta que eu fatalmente acabaria fazendo.
Nisto abaixou a cabeça e voltou para o seu trabalho. O que produzia, ele vendia para os gringos na praia.
Pouco depois, ele  murmurou:
- Tô nessa vida há uns quinze anos.
- E a polícia? – perguntei.
- O que tem?
- Nunca foi preso pelo crime?
- E matar mendigo é crime?
Sem ter o que responder me calei e fiquei observando o seu trabalho. Sobre o durepox, que ele modelava com os dedos, dando alguns contornos estranhos, colocava umas pedras coloridas que dizia serem semipreciosas. Era a ornamentação final. Num minuto, a caneta ganhava uma capa. Algo grosseiro, feio mesmo, que ele fazia acreditando que era uma verdadeira obra de arte.
Uma hora depois “Luisa” chegou com o sal. Trouxe também tomates e ovos. Todos ficaram admirados com suas “compras”. Ela explicou, calmamente, que entrou no mercado como que tivesse dinheiro. Pediu o queria e saiu sem pagar, indiferente aos apelos do dono do estabelecimento. 
E assim eu estava diante de mais uma prática comum entre os albergados, ou seja, os pequenos furtos ao comércio da região. Depois do almoço todos dormiram espalhados pelo chão o sono dos justos.
Ao cair da tarde o movimento na praça começava a aumentar. Era quando aqueles que saíram pela manhã começavam a retornar. Alguns regressavam do trabalho. Existiam muitos que mesmo empregados continuavam morando no albergue. A maioria, no entanto, passava o dia fazendo “turismo” pela cidade.
O Aterro do Flamengo, as praias da zona sul e a Quinta da Boa Vista eram os lugares mais procurados. Aos domingos, a pedida era a Feira dos Paraíbas, em São Cristóvão. Local, segundo os mais espertinhos, ideal para praticar pequenos furtos. Informações que eu obtive com alguns dias na praça, onde já conseguia até identificar algumas pessoas e seus costumes. Sabia quem era albergado e quem não era. Havia os mendigos que vinham para a praça apenas durante o dia. Ali, eles se juntavam com os outros  e só iam embora à noite procurar algum canto da cidade para dormir. Muitos dormiam na própria praça. O coreto era muito disputado. A maioria dormia espalhada pelas ruas do bairro.
Vez por outra apareciam homens em caminhões ou caminhonetes, procurando pessoas para trabalhar. Na maior parte das vezes eram biscates. Trabalho braçal no cais do porto, em sítios ou para carregar entulho de alguma obra. Cheguei a pensar em aceitar uma proposta dessas, mas fui alertado de que não era uma boa ideia.
Um rapaz me contou que era furada. Em muitos casos o trabalho, bem como o preço e as condições, em nada batiam com o combinado. Ele mesmo fora vítima. Uma vez, ele disse, aceitou um trabalho pelos lados da região dos Lagos, no estado do Rio. Ele e outros companheiros foram contratados por um homem para escavar  um terreno onde seria construída uma casa. O homem os levou para um lugar distante. Lá chegando, deu-lhes pá e picareta e os mandou trabalhar. Daí a pouco, foi embora prometendo voltar com o almoço. Não apareceu mais. Ele e seus colegas ficaram três dias no local sem comida ou água potável dormindo ao relento. No final dos três dias, eles deixaram o local, voltando a pé para o Rio, sem nunca mais ter encontrado o tal homem.
Ao encerrar, fumando uma guimba de cigarro que eu tinha a impressão que lhe queimava os dedos de tão pequena, ele ainda fez outras considerações. Eu devia tomar muito cuidado com o trabalho escravo. Disse que muitos não tinham a sorte que ele teve de poder voltar e ficavam presos em lugares onde eram obrigados a trabalhar por um prato de comida.
Mulheres também não tinham melhor sorte. Elas eram muito procuradas para trabalharem como domésticas em casas de família. Dificilmente dava certo. Quando não eram as patroas que exigiam coisas absurdas ou as maltratavam, como relatavam, era a própria mulher que, uma vez dentro da casa, aproveitava para praticar furtos. Nesses casos, era comum ver essas senhoras na praça na esperança de reaver seus pertences.
A praça tinha coisas peculiares como a mendiga negra, aparentemente maluca, que vivia ali. Falava sozinha e ficava caminhando de um lado para o outro sem parar apanhando coisas que encontrava pelo chão. Ela era figura conhecida na praça e apesar de maluca fazia amizade com um ou outro que se aproximava dela.  No entanto. o que ela gostava mesmo era de travar longas conversas com pessoas invisíveis com as quais brigava e, no meio dessas brigas, ia da gargalhada ao choro, sem  muita ordem.
Um homem, provavelmente bêbado, que dormia num banco da praça, teve sua carteira roubada. O ladrão foi seguido por aqueles que se julgavam no direito de dividir o produto do roubo. Foram para longe da praça. Quando o homem acordou era tarde demais. Ninguém viu nada.
Do outro lado da praça uma mãe espancava um bebê, irritada com seu choro. Vendo a cena, as outras crianças que estavam junto a ela choraram também e tiveram igual tratamento. O bebê chorava de fome, talvez. Entre xingamentos ela deixou  claro que o marido a havia abandonado no albergue com os filhos e desapareceu. Flagrantes da praça que eu não tinha como não registrar.
Os travestis, e eles eram muitos, garantiam o lado engraçado da praça quebrando assim a morbidez do ar. Entre eles estava um que atendia pelo nome de Leon Schneider. Baiano, mulato, corpo esbelto, era alto e esguio, bastante feminino, sua especialidade era fazer shows. Passava o dia bolando coreografias. Às vezes, cantava num inglês incompreensível misturado a uma dança maluca. Dizia ser uma estrela. Porém, sua plateia, desatenta, não o aplaudia ao final de seus “shows”.  Ele não se importava. Um dia seria aplaudido numa boate do Rio. Seria uma estrela de verdade.
A vida seguia na praça. À tardinha chegavam “as mariconas”. Eram  homens de idade que vinham até á praça em busca de algum garotão. Vinham com promessas de vida fácil. Dinheiro,  casa, comida, enfim. Até bons empregos prometiam arrumar. Eles eram em grande número e se davam entre si. Generosos, ofereciam cigarros e pagavam lanche na padaria. A cantada vinha logo a seguir. E não eram poucos os rapazes que se deixavam levar pelas promessas de mordomias.  Alguns sumiam da praça e depois reapareciam, sempre com uma história para contar. Normalmente histórias de decepção. As promessas eram falsas ou o preço a pagar por elas era considerado alto demais. Muitos usavam a ocasião para praticar roubos. Não raro surgiam com os objetos roubados. Rádios, roupas, dinheiro, bicicletas, máquinas fotográficas ou congêneres. Muitas vezes o produto do roubo era vendido ali mesmo na praça. Isso não impedia a vítima de voltar para a praça e tentar conquistar outro rapaz. 
Inexplicavelmente, eu ficava ali, quase como um simples espectador.  Não tinha grande consciência do que estava me acontecendo. Há muito deixara de ficar pensando na vida  e tinha perdido a noção de certo e errado. A fome já não era problema. Acostumara a não ter o que comer durante o dia. O café da manhã e a sopa viraram as minhas únicas refeições diárias. Um dia ou outro a sopa era substituída por um arroz com legumes. Isso não deixava de ser bom. Porém,  era raro. Meu convívio dentro do albergue não era diferente de todos os outros albergados. Era maltratado e humilhado como qualquer um. Também, como qualquer um, reagia ou não, dependendo da minha conveniência. E foi durante uma conversa no dormitório que eu descobri que o dia seguinte seria um domingo. A maioria tinha grandes planos para esse dia. Quanto a mim, sabia que seria um dia como outro qualquer. Levantaria cedo, na verdade seria acordado daquela maneira amável, e iria para a praça. Para mudar isso, só se acontecesse um milagre.
          

 O MILAGRE

 
Como eu previra, o domingo amanheceu sem nenhuma novidade. A praça estava praticamente vazia. Quase todos saíram para andar pela cidade. Alguns me convidaram para ir com eles, mas não aceitei. Faltava ânimo. Andar pela cidade feito um louco só  iria fazer aumentar a minha debilidade física. Mal alimentado, eu estava a cada dia mais fraco. Era mais sensato ficar na praça.
A manhã passou e logo a tarde chegou. Com ela os crentes. Eles vinham com a nobre missão de nos converter. Para eles, o fato de estarmos naquela situação era porque não tínhamos aceitado Jesus como nosso salvador. Era preciso deixar o grande mestre tocar os nossos corações.
Falavam, pregavam, insistiam. Usavam suas histórias pessoais como exemplos. Eles também já haviam estado como nós. Aceitaram Jesus e Ele os salvou. E o mesmo podia acontecer com cada um de nós. Bastava querer. E por isso eles estavam ali. Para nos tirar daquela vida. Jesus não estava satisfeito com aquele nosso estado de deploração e miséria.
Eles eram insistentes. Usavam de todo tipo de argumento para conquistar a confiança de alguém. Chegavam a pagar café ou dar pequenas quantias em dinheiro pela garantia de serem ouvidos. Eles eram de igrejas com denominações diferentes e alternavam os horários. Parecia que agiam de forma proposital. Certamente, para evitar choques de ideologias. Primeiro, vinha um grupo de jovens. Eles se apresentavam como sendo da igreja Universal do Reino de Deus. Eles se espalhavam pela praça. Iam de banco em banco, de grupo em grupo. Nessas ocasiões, travavam-se os diálogos mais estranhos possíveis. De um lado o crente falando das maravilhas da vida com Jesus, do outro o albergado tentando convencer o crente que também era religioso e tinha fé, o que não impediu que chegasse àquela situação. Essas conversas sempre acabavam chegando ao problema da falta de emprego, habitação e, não podia deixar de ser, da fome. Alguns diziam estar há dias sem comer direito e chegavam a confessar sentirem falta de Deus, mas que a falta de comida era maior.
Pela falta de argumentos, os jovens acabavam se afastando. A palavra perdia força diante da realidade. Não era fácil convencer um homem faminto e maltrapilho de que Jesus era a salvação. Para um faminto, um prato de comida é a salvação. Mesmo assim eles não deixavam de convidar a todos para que fôssemos aos cultos da igreja. Com certeza, lá encontraríamos uma saída. Muitos acabavam aceitando o convite, não interessados na tão “aclamada” salvação, mas no que essa visita à igreja pudesse lhes render.
Um pouco mais tarde, já anoitecendo, era a vez  de uma turma mais velha. Provavelmente, eles eram de uma igreja próxima à praça, pois vinham munidos de  um grande aparato técnico. Aparelhos de som, órgão eletrônico, guitarras e etc. Tudo era instalado perto do coreto, na frente do busto do Coronel Assumpção e diante do olhar curioso de todos, principalmente das crianças. Elas acompanhavam tudo de perto.
Novamente, tinha início uma garimpagem de almas para Jesus. Eram distribuídos panfletos com salmos e, em seguida, pelo microfone, todos eram conclamados a se aproximarem. O culto ia começar. O convite era feito de forma eloquente. Porém, poucos se interessavam. Eles persistiam e aos poucos um e outro começava a se aproximar. Logo se fazia uma pequena roda. A voz do pastor falando pelo microfone e as músicas tinham um apelo forte. Era quase impossível não se deixar envolver.
Pelo meu lado, eu me limitava a ouvir de longe sem tomar parte. Embora sentisse que precisava me apegar a alguma coisa para poder encontrar forças e sair daquele estágio de letargia em que me encontrava.
Eu estava ouvindo o culto quando Leon se aproximou e me convidou para tomar café na padaria. Tinha conseguido algum dinheiro com os crentes. Pensei em recusar o convite, porém a fome falou mais alto. Fui com ele. Quando chegamos à padaria, ele pediu duas médias e dois pães com manteiga e fomos para o balcão. Havia um grande espelho na parede. Do balcão podia se ver refletido nele. Leon comia distraidamente enquanto eu me olhava pelo espelho. Não podia acreditar no que via. Eu não era aquele cara do espelho. Era outra pessoa, um estranho qualquer. Como podia ter me permitido chegar àquele estágio? Era a pergunta que eu me fazia intimamente, sem conseguir tirar os olhos do espelho. Fui tomado de uma grande perturbação. A fome passou e eu não conseguia comer. Leon percebeu que eu não estava bem e perguntou o que estava acontecendo. Não dei reposta e me aproximei do espelho como se quisesse tocar aquela figura castigada pelo sol e pela fome. Mais de dez dias tinham passado desde que eu chegara ali. Lembrava, vagamente, da minha resistência inicial, da conversa com a assistente social no dia da chegada.
- “É por um ou dois dias...”
Nasceu em mim uma revolta muito grande. Revolta comigo mesmo. Eu que tinha chegado à Fundação procurando ajuda, agora estava no fundo do poço e nem sequer podia me reconhecer numa imagem deformada refletida num espelho de padaria.
Olhando aquela figura, cheguei à conclusão que estava num beco sem saídas. Minha memória fez um giro, chegando à Ibiá. Novamente a família, a casa, o conforto há muito deixado para trás. Como seria se meus irmãos me vissem naquele momento? Certamente me internariam como louco. Diriam que eu tinha perdido o juízo, o bom senso, a vergonha na cara, tudo. Nem queria pensar. Foi um consolo lembrar que meus pais já estavam mortos. Portanto, livres de ver o filho no qual apostaram tanto, sujo, maltrapilho, faminto, um verdadeiro mendigo. Perdido numa praça aonde a vida caminhava de mãos dadas com todas as misérias humanas. Eles não suportariam. Não tinham criado um filho com tanto sacrifício para ter aquele fim.
De repente, fui invadido por uma vergonha que nunca tinha sentido na vida. Mecanicamente, me aproximei mais do espelho, cheguei bem perto, na tentativa de ver algo além do que era mostrado. Tentava encontrar minha própria alma. Fui chamado à realidade pelo balconista da padaria que reclamou que eu estava sujando o espelho.
Ele caminhou na minha direção vociferando:
- Sai daqui, mendigo sujo!
Tentei esboçar uma reação. Queria enfrentar o balconista. Como ele ousava falar daquele jeito comigo? Leon pressentiu que aquilo ia acabar em confusão e me puxou pelo braço. Resisti um pouco, mas ele conseguiu me arrastar até a praça.
- Tá  ficando louco, cara? - perguntou ele.
Não dei resposta alguma e saí sem rumo pela praça. Os crentes ainda faziam o culto. Agora o número de ouvintes era muito maior. Um homem, bem vestido, dava um depoimento. Estivera no fundo do poço e Jesus lhe estendeu a mão. Agora, ele era um homem feliz. Tinha emprego, casa, família e uma fé que o salvara. Terminando de falar, ele passou o microfone para o pastor e novamente sua voz poderosa tomou a praça. Convidava todos a aceitarem Jesus. Ele libertaria a todos de uma vida errônea e fracassada, como fez com aquele irmão, para uma vida de acertos e sucessos.
- Só Jesus pode salvar! - bradava ele.
Alguns ouvintes tomaram a frente atendendo ao convite. Já um pouco mais calmo, passei a refletir se deveria ou não fazer a mesma coisa. Cheguei à conclusão que não. Eu não precisava de um gesto exterior para tomar uma decisão que deveria ser interior. Permaneci parado, sem me mover. E, comigo mesmo, em estado de oração, fiz uma promessa: a partir daquele momento eu daria um novo alento para minha vida. Aquela situação não podia continuar. Precisava reconquistar  tudo o que havia perdido nos últimos tempos. Acima de qualquer coisa, recuperar minha identidade pessoal. Do contrário, me perderia para sempre.
Da decisão tomada na praça, parti para a ação. Tão logo o dia amanheceu, comecei um verdadeiro ritual. Fiz a barba com um barbeador emprestado e a ajuda de um pedaço de espelho. Tomei um banho e peguei roupas limpas no bagageiro. Quando atravessei a praça e ganhei a rua, parecia uma nova pessoa. Era grande a minha vontade de mudar aquela situação.
Durante a travessia procurei não falar com ninguém. Sabia que tentariam me reter na praça. Foi preciso ser forte. Como um ser impotente, eu me deixara arrastar pelos subterrâneos daquela praça.
Senti-me aliviado, quando me vi andando no meio do povo, na Avenida Presidente Vargas, como um cidadão comum. Foi gratificante.
Aquele foi um dia longo e cansativo. Numa via sacra que parecia não ter fim, fui a todas as agências de emprego que conhecia. Preenchi fichas e mais fichas. A cada uma que entregava ouvia sempre a mesma coisa. Era preciso aguardar, pois não tinham vaga no momento. Apesar da minha determinação, nada consegui.
Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro dia. Era sair de manhã com alguma esperança e a tarde estar de volta cheio de cansaço e desânimo. E já não tinha a companhia do Geraldo que saíra do albergue depois de arrumar um serviço de faxineiro, em Copacabana. Teve sorte. O emprego oferecia moradia. Ele estava livre daquele lugar sujo e infecto.
Os dias de ócio passados na praça fizeram com que eu perdesse um pouco a noção das coisas. Mesmo com todo o meu otimismo era preciso não esquecer que vivíamos a era Collor. O país estava mergulhado, como quase sempre, numa crise violenta. A recessão era muito grande. Só se falava de demissões em massa. Era quase impossível conseguir algo decente naquele estado de coisas agravado pela retenção do dinheiro das cadernetas de poupança feita pelo governo federal.
Minha experiência anterior na área de contabilidade e vendas de nada adiantou. O jeito foi atacar em outras frentes. Afinal, eu tinha urgência em arrumar um emprego e o processo de admissão em empresas é sempre muito demorado e às vezes até complicado mesmo. Eu tinha experiência recente de que não adiantava apenas preencher alguns requisitos. Um pequeno detalhe e pronto, a chance do emprego ia por água abaixo.  Precisava de uma saída rápida. Uma solução mágica. Lembrei que podia fazer figuração em novelas. Era só ir para a porta das emissoras de televisão e falar com algum agente. Só que aí é que morava o perigo. Fiz muita figuração e nunca consegui receber um único tostão. Os tais agentes sempre desapareciam ou alegavam que o meu nome não estava em suas listas. Além de ser maltratado nos sets de gravação pelo pessoal das produções e os diretores, que sempre tratavam os figurantes como se um bando de idiotas. No que eles não estavam de todo errados, pois alguém que se submete a passar horas debaixo do sol, sem comida e aturando gritos, não é outra coisa.
Dessa época, guardo uma lembrança nada boa. Foi nas gravações da novela Kananga do Japão, na Rede Manchete. Eu fazia figuração na gafieira que dava nome à novela. Junto com outros figurantes, ficava sentado nas mesas do cenário. Nelas havia muita batata cozida com casca e tudo, creio que para fazer passar como salgadinhos. Levados pela fome, nós devorávamos aquilo em questão de segundos. Nunca comi tanta batata cozida  na minha vida. Na hora de gravar a produção, depois de muito xingamento, tinha que colocar tudo de novo.
Cheguei a pensar em me tornar camelô vendendo balas nos trens da Central. Para isso, teria que dispor de algum capital e eu não tinha dinheiro nenhum. O jeito foi tomar informações dentro no próprio albergue. Ali se sabia de tudo. E as informações vieram.
No Moinho Fluminense as vagas eram para ajudante de caminhão. No Cais do Porto, após uma inscrição, muito concorrida, podia-se trabalhar como carregador e outras funções. O requisito importante era a força física. O resto era aquilo que eu já sabia mesmo, ou seja, as figuras que apareciam na praça oferecendo trabalho em condições que só pessoas desesperadas aceitavam.
Já era quarta-feira e nada. O prazo de quatorze dias que a assistente social me deu chegou ao fim. Eu tinha que arrumar alguma coisa de qualquer jeito. Sem isso, ela não me deixaria ficar. A menos que eu, como fazia a grande maioria, inventasse uma bela mentira. Só que eu não estava a fim de mentir. Não estaria mentindo para ela e sim para mim mesmo. Contudo, tive que procurá-la sem nada ter conseguido. Fui sincero com ela e tive que ouvir um longo sermão. No final do sermão,  ela me deu mais quatorze dias lembrando que era a última chance. Na próxima vez não bastaria dizer que estava trabalhando, seria necessário comprovar.
No dormitório sempre tinha aqueles mais espertinhos. Uns tipos que se apresentavam como agenciadores de serviços. Fui  alertado de que era furada, mas resolvi arriscar. Não tinha outra escolha. Procurei um desses caras e acertei um serviço. Ele se dizia mestre de obras e que estava recrutando serventes para trabalharem numa construção em Laranjeiras, bairro da zonal sul carioca. Apesar de ele ter dito que o trabalho era duro, mantive a palavra. Avisei que não tinha dinheiro para passagem e ele se ofereceu para pagar. Bastava procurá-lo pela manhã.
Dormi naquela noite cheio de esperança. Pelo menos, aquele seria um começo. O dia amanheceu, procurei o tal homem e ele pareceu-me um tanto escorregadio. Fingiu não se lembrar de mim e eu refresquei sua memória falando do nosso trato. Ele mandou que eu o acompanhasse e foi o que eu fiz.
No ponto de ônibus, percebi que outros iriam com ele, porém nenhum conhecido meu. Pegamos o ônibus Estrada de Ferro / Cosme Velho. Na hora de passar na roleta, ele avisou que não pagaria a minha passagem. Falei alguma coisa na tentativa de fazê-lo lembrar da promessa feita. De nada adiantou.  Ele foi taxativo. Eu que me virasse. O ônibus seguiu viagem e eu permaneci na parte de trás tentando pensar numa oportunidade de descer sem pagar. A certa altura da Rua das Laranjeiras, eles desceram. Fiquei no ônibus sem saber o que fazer. Daquele ponto para frente, a porta traseira nunca se abria. Da janela deu para ver que eles, na rua, faziam comentários e riam de mim. Percebi que se não descesse os perderia de vista e a chance do trabalho estava perdida. Eu não tinha o endereço da obra. Foi quando me aproximei da trocadora e expliquei o que estava acontecendo comigo. Ela não foi muito simpática ao meu pedido, insisti e ela fez sinal para o motorista abrir a porta traseira.  Desci e comecei a andar procurando a turma. Não os encontrei. Decepcionado, resolvi fazer o caminho de volta.
Passei por várias obras e ao indagar sobre vagas ouvia sempre a mesma resposta.
- Não tem vaga. Tá tudo completo. - dizia alguém sempre atrás de uma janelinha feita na madeira que  circundava a obra.
Continuei andando sem muita direção e acabei chegando à Glória, nas imediações da Rua Augusto Severo, próximo à Praça Paris. A praça estava em obras. Aproximei para pedir informação e fiquei sabendo que tinha vagas. O responsável pela obra me contratou e eu comecei a trabalhar naquele dia mesmo. Sem carteira assinada ou qualquer garantia.
O trabalho consistia na reforma do conjunto da Praça Paris para a ECO/92. Um encontro de vários líderes mundiais que aconteceu no Rio de Janeiro com o objetivo de discutir a preservação ecológica do planeta. A reforma fazia parte da maquiagem que a cidade sofreu para receber os chefes de estado e suas delegações.
Por um lado eu estava feliz de, finalmente, estar trabalhando. Por outro, estava triste. Aquilo não era, propriamente falando, um trabalho. A diária era  muito pequena e as condições de trabalho desumanas. A prefeitura, ou as empreiteiras contratadas por ela, passou o serviço pesado para um tipo de agente que normalmente eram chamados de “gatos”, e esses é que eram os meus patrões.
Na tentativa de conseguir uma mão de obra barata, eles contratavam, em sua maioria, desabrigados e albergados da Fundação Leão XIII. Depois de alguns dias trabalhando pude constatar isso, pois lembrei que já tinha visto o encarregado  da obra na porta do albergue. Outro dado era o número grande de rostos conhecidos. Pessoas com as quais eu convivia na Praça da Harmonia e no albergue.
Tive certeza de que não se tratavam de pessoas sérias no dia do pagamento. Primeiro, os responsáveis, um homem que era chamado apenas de Paulista e seu sócio Geovani desapareceram. Quando reapareceram anunciaram que a comida, oferecida inicialmente como gratuita, seria cobrada. Cobrariam também as ferramentas perdidas ou quebradas. Isso gerou uma enorme agitação em todos, uma vez que o preço cobrado era bem acima do praticado no mercado e aquilo não era norma em nenhum outro lugar. Além de tudo, ainda tinha as constantes falhas do apontador. Sempre se esquecia de apontar os dias de muita gente alegando que o indivíduo havia faltado ao trabalho. O que, em muitos casos, não era verdade. Isso se dava, com mais frequência, com os mais simples e analfabetos. E eles eram a maioria.
Houve sexta-feira, dia do pagamento, em que foi necessária a presença da polícia para resolver os impasses causados por essas divergências. Momento em que o responsável pela obra, sempre muito bêbado, ameaçava não pagar a ninguém. Nessas ocasiões, ele fazia questão de lembrar a condição social de cada um, dizendo que sabia como e onde nós vivíamos. Portanto, não adiantava ficar com exigências. Segundo ele dizia, um homem naquela situação não tinha condições de exigir nada. Ao dar emprego para pessoas como nós ele estava fazendo um favor à sociedade.
Havia aqueles que trabalhavam somente em troca do almoço. Vinham pela manhã e ficavam enrolando até a hora do almoço. Depois que comiam, desapareciam. Não era um bom ambiente de trabalho. As brigas eram comuns e por vezes surgiam implicâncias infundadas. Com facilidade, era possível se meter em confusões que, não raro, terminavam com alguém ferido gravemente. Nas brigas, as ferramentas eram usadas como armas e os golpes eram certeiros.
Contudo, eu não tinha outra saída. O jeito era me manter atento para levar adiante o meu objetivo de conseguir uma coisa melhor tão logo tivesse chance.

 
FUNDAÇÃO LEÃO XIII
UM POÇO DE PROBLEMAS

 
O tempo passava e eu continuava albergado. De certa forma, já tinha me acostumado com a situação. Mesmo trabalhando  na obra, o dinheiro que eu ganhava mal dava para minhas despesas pessoais. O que sobrava, eu ia juntando. Tinha planos de sair do albergue e alugar um quarto, mas queria que isso acontecesse de forma definitiva. Não como alguns conhecidos faziam. Bastavam conseguir algum dinheiro e eles iam correndo dormir fora. Quando o dinheiro acabava retornavam para o albergue. Isso acontecia quase sempre.
Normalmente, eles passavam os finais de semana em hotéis baratos ou hospedarias e retornavam na segunda-feira. Achava isso perda de tempo. Quando saísse, teria que ser para não voltar mais.
Não era difícil perceber que as coisas não estavam bem na Fundação Leão XIII. A meu ver isso era provocado pela entrada do novo governo. Além das deficiências normais como a diminuição de funcionários começou a faltar comida. Agravado por causa do aumento no número de albergados que, com as chuvas, procuravam mais a instituição. Isso gerava uma superlotação e estava claro que o albergue não tinha infraestrutura para receber tanta gente.
O resultado era o caos total. Principalmente nos dias mais frios, quando roubavam cobertores e colchonetes. Não bastasse passar frio durante a noite ainda era problema na certa pela manhã na hora da devolução. No refeitório, roubavam pratos de comida um dos outros. Qualquer descuido e passavam a mão. Era comum alguém sair correndo atrás de um prato de sopa que lhe fora roubado. Cena engraçada, mas também muito triste.
O trabalho do serviço social não surtia muito efeito. Mesmo com todo o esforço, tudo o que elas podiam fazer era dar mais ou menos prazo de permanência para esse ou aquele. Não havia um acompanhamento caso a caso, como elas faziam crer. Tudo se resumia àquele discurso e nas pequenas ameaças que todas faziam na hora de revalidar a autorização de permanência.
Davam conselhos e  em troca ouviam falsas promessas. Não tinha muito mesmo o que fazer. Por vezes, o trabalho delas entrava em choque com o trabalho dos outros funcionários. Sobretudo, com os plantonistas e porteiros. Era comum um indivíduo  ser expulso durante a noite, por insubordinação ou qualquer outra razão, e no outro dia estar de volta ostentando nova autorização.
Em muitos casos, as expulsões aconteciam por pura perseguição dos plantonistas, mas tinha casos em que o elemento era realmente uma figura perigosa e sua expulsão acontecera por motivo de roubo, uso de drogas ou brigas com agressão física. Isso confirmava que no meio dos albergados tinha muitos marginais. Alguns faziam questão de contar seus crimes e passagens pela polícia. Eram indivíduos que na hora de uma briga não hesitavam em ferir o adversário. Presenciei alguns casos de esfaqueamento que terminaram com o agredido sendo levado para o hospital. Geralmente, levavam para o Hospital Sousa Aguiar. Como, creio eu, o serviço social não apurava essas ocorrências, era possível  ver aquele indivíduo de volta e pronto para cometer novas infrações. Quando isso acontecia, era comum ouvir os plantonistas acusarem as assistentes sociais de protegerem marginais. Tudo isso gerava um clima de tensão muito grande. E quem pagava o pato eram os albergados que, além de serm obrigados a conviver com tais elementos, tinham que enfrentar a ira dos plantonistas.
Mudanças estavam acontecendo a olhos vistos. Em pouco mais de um mês “hospedado” ali dava para sentir que muita coisa estava mudando. Os funcionários que eram também albergados passaram a deixar os seus cargos e voltarem à simples condição anterior.
Nunca fiquei sabendo ao certo como se dava esse tipo de trabalho. Alguns diziam que a função deles era cobrir o lugar daqueles funcionários que tinham vários empregos ou eram funcionários fantasmas. Outros diziam tratar-se de pura exploração e completavam afirmando que havia alguns que estavam naquela situação há anos.
Com o novo governo parece que esse tipo de procedimento estava sendo revisto e algumas coisas, pelo menos temporariamente, teriam que voltar para os seus lugares. Se isso era verdade ou não, não posso confirmar. O certo é que esses funcionários albergados existiam e não gozavam nem um pouco da simpatia dos outros albergados. Eram vistos com reserva. Principalmente por aqueles que, acreditando que fossem funcionários, teriam obedecido alguma ordem imposta por eles. Quando eles entravam no dormitório eram vaiados, tratados com hostilidade ou simplesmente ignorados.
As mudanças atingiram vários setores. O que dificultou muito a vida lá dentro. E isso se fez sentir com relação ao bagageiro. No início eram dois. Agora era apenas um e ele trabalhava só meio expediente. A saída era controlar as trocas de roupa ou carregar na mochila as de uso diário. O serviço médico simplesmente deixou de existir. A relação entre funcionários e albergados piorou muito e os abusos, agressões e maus-tratos passaram a ser constantes.
Isso fazia com que vivêssemos em constante tensão. Qualquer problema ou mal-entendido terminava em expulsão, muitas vezes debaixo de espancamento. Nessas ocasiões, todos ficavam assistindo sem nada fazer, mesmo quando era com algum conhecido. A confusão poderia virar para cima de quem se metesse. Ao defender um colega corria-se o risco de ir para a rua junto com ele.
Numa noite, um rapaz tentou defender um velho bêbado, na entrada do albergue, e arrumou atrito com o porteiro. O velho insistia em entrar e diante de sua insistência o porteiro perdeu a paciência e passou a lhe desferir socos e pontapés. Condoído, o rapaz tentou impedir. Nada conseguindo, ele saiu e logo voltou com uma viatura da polícia. O plantonista, na verdade, uma senhora negra forte e alta, apareceu. Os policiais entraram  no albergue juntamente com ela, o porteiro, o velho e o rapaz que denunciou o caso. Ficaram por lá um tempo e na  saída, uma surpresa: o porteiro voltou para o seu posto e o velho, juntamente com o rapaz, foi levado preso. E não foram mais vistos a partir daquele dia.
Por essas e outras, o melhor era fingir que não estava vendo nada. Eu mesmo já tinha enfrentado uma situação daquelas numa determinada noite. Quando cheguei, o jantar estava quase no fim. Não havia quase ninguém nas mesas e não tinha fila. Resolvi ir direto ao cozinheiro e fui recebido aos gritos. Segundo ele, eu tinha que ficar na fila, que não havia, e esperar a minha vez. E para terminar a história anunciou que o jantar já tinha acabado negando-se a me servir. Como não estava disposto a arrumar confusão, aceitei resignado e subi para o dormitório.
Os plantões trabalhavam de forma diferente. Uns se preocupavam muito com uma coisa e outros deixavam a mesma passar despercebida. Era o que acontecia  com relação ao uso de drogas dentro do dormitório durante a noite. A maioria dos plantões ignorava o fato. Porém, num desses plantões, um rapaz mulato de estatura média, de uns trinta anos, fazia uma marcação cerrada. Ele não perdoava. Marcava em cima. Era comum vê-lo andar pelo dormitório procurando surpreender os albergados. Ele ficava de olho nos grupos. Por vezes, fazia uma revista superficial nas bolsas e outros pertences ou até mesmo no próprio indivíduo.
Numa dessas rondas, ele encontrou um senhor grisalho e um rapaz fumando um cigarro de maconha. Foi um deus nos acuda. Partiu para cima deles dando pauladas e no final os expulsou usando os mesmos métodos de sempre. Após fazer isso, ele voltou ao dormitório e fez um discurso curto e muito nervoso. Ele  avisou a todos que tantos quantos encontrasse fazendo uso de drogas colocaria para fora. Não iria admitir aquele tipo de coisa em seu plantão.
Procurei o serviço social pela quarta vez para pedir novo prazo. Passados, praticamente, quarenta e cinco dias que eu estava naquele lugar, tinha a sensação de que o meu destino estava selado ali. A ideia de ter uma assistente social com quem eu tinha que falar fazia com que me sentisse mal e me sentisse um incapaz. Era duro entrar naquela sala e pedir que me deixasse ficar. Jamais pensei chegar numa situação tão humilhante na minha vida. Principalmente quando ela vinha com aquela conversa de que eu não estava me esforçando, e isso e aquilo. Não adiantava mostrar minhas mãos calejadas de tanto empurrar carrinho cheio de terra de saibro para cima e para baixo naquela obra. O discurso continuava o mesmo do primeiro dia. Parecia não ter uma versão diferente. Era como se ela não fizesse distinção entre um trabalhador e um vagabundo. Tinha vontade de mandá-la à merda. Não podia, tinha que aguentar calado. Afinal, o meu destino estava nas mãos dela. Cabia a ela decidir se eu iria para a rua ou se continuava no albergue E, apesar de tudo, eu ainda preferia aquele lugar à rua.
Por estar ganhando pouco na obra, crescia em mim a vontade de arrumar outra maneira de ganhar dinheiro e com isso apressar minha saída do albergue. No canteiro da obra, fiquei sabendo que o jornal O Dia, um dos jornais mais populares do Rio de Janeiro, contratava homens para trabalho temporário, aos sábados. Bastava ir até à sede do jornal na Rua do Riachuelo, me candidatar a uma vaga e torcer para ser um dos escolhidos. A escolha era feita aleatoriamente. E o requisito exigido era a força física. Apesar de estar muito longe de aparentar qualquer força e de toda a concorrência, acabei  ganhando uma das vagas. 
O trabalho era encher os caminhões-baú ou atravessar o jornal que saía da esteira para o depósito que ficava do outro lado da rua. Um trabalho um tanto puxado. Sobretudo, atravessar em carrinhos do tipo burro sem rabo, quarenta fardos com cem jornais em cada. Era preciso desviar dos carros ou enfrentar a descida freando o carrinho no braço. No fim do dia, vinha a compensação. O que eles pagavam  por doze horas de trabalho era quase o mesmo tanto que eu ganhava trabalhando de segunda a sexta na obra. Além do que a comida era de graça.
A partir do primeiro sábado, não deixei mais de ir. Trabalhava durante a semana na obra e no sábado no jornal. Com o tempo, passei a ter  lugar cativo. Era quase um emprego certo. Bastava chegar de manhã e o meu lugar estava garantido. Com isso tinha descoberto uma forma de juntar dinheiro mais rápido e assim atingir os meus objetivos.
Apesar de toda a maratona, não me sentia cansado. Estava cheio de esperança e me dedicava à leitura de livros do tipo autoajuda na tentativa de não me deixar  influenciar pelo ambiente onde vivia.
Tive de volta meu sentido de religiosidade. Porém, numa igreja se deu um pequeno incidente sem grandes implicações, mas me fez conhecer um pouco mais da hipocrisia da religião.
Num domingo, fui assistir à missa numa igreja da Av. Passos e ao me dirigir à mesa da comunhão tive a mesma negada pelo padre. Segundo ele, a comunhão era privilégio daqueles que haviam confessado e eram frequentadores assíduos de sua paróquia. Voltei para o meu lugar e terminei de assistir à missa.
Ao refletir sobre a atitude do padre, cheguei à conclusão de que ele me negara a comunhão por causa da minha aparência. Trabalhando na obra, de sol a sol, a minha aparência não era mesmo lá essas coisas. Provavelmente, o padre julgou que eu fosse um mendigo e talvez ele não estivesse de todo errado. Só que isso partindo de um “representante de Deus na terra” me chocou muito.
No entanto, não abalou a minha fé. Ela estava acima da pequinesa daquela pobre alma, que se julgava representante agir em nome Deus.
Nesse período minha rotina mudou completamente. Passei a tomar café na padaria e dali ia para a Praça Paris, de onde só retornava à noite. Como precisava aguardar a hora da entrada e já não tinha mais tanta necessidade de ficar na fila para garantir o jantar acabava ficando mais tempo na praça ou procurava demorar na rua na esperança de só chegar quando os portões já estivessem abertos. E isso eu conseguia indo ao cinema ou a exposições em lugares como o Centro Cultural Banco do Brasil, na época com quase toda a sua programação gratuita.
Ainda assim, acabava voltando cedo e ficava novamente em contato com todo aquele movimento. Tudo continuava como sempre. Mendigos, bêbados, loucos, todos naquele convívio promíscuo.
Um sujeito que eu vira chegando uns dias antes meio com cara de peixe fora d’água já estava totalmente integrado. O que me fazia crer que esse era o caminho natural pelo qual quase todos passavam. Aconteceu comigo. Muitos chegavam ali limpos, até bem-vestidos, mas em poucos dias já estavam sujos e maltrapilhos como qualquer outro. Tive sorte de não me deixar levar pelos constantes convites para beber cachaça ou me drogar.
O mesmo não acontecera com o tal sujeito. Completamente bêbado, ele tentava vender alguns objetos pessoais, oferecendo a um e outro, sem sucesso. De certa forma, a praça era a grande perdição de todo albergado da Fundação. Sentado ali, vendo todo aquele burburinho e já não me sentido parte integrante dele, me sentia aliviado. Apesar de tudo, eu estava livre e com lucidez tentava retomar o meu caminho.
Dali, eu seguia para o dormitório. Não sem antes tomar um prato de sopa, que ainda fazia questão de não dispensar. No dormitório, ia direto para o meu  cantinho. Com o tempo, todo albergado acabava elegendo um lugar para dormir todas as noites. Isso era muito comum e evitava ter que ficar procurando um lugar toda noite.
Poucos se interessavam pelas camas, quase todas quebradas, preferindo dormir nos cantos usando tábuas e colchonetes. Só que isso também gerava confusão. Os melhores lugares eram muito disputados. Por isso, quando alguém invadia o espaço do outro sempre acabava em briga. Momentos em que prevalecia a lei do mais forte. Aquele que fosse mais persuasivo acabava levando a melhor.
Esse tipo de ocorrência se dava, salvo exceções, com os “novatos”. Eles chegavam e, sem nada saberem, apossavam-se de lugares marcados. Na quase maioria das vezes eram eles que acabavam tendo que procurar outro canto para ficar. Quando a briga era entre dois “veteranos” a coisa era um pouco mais complicada e não raro acabava com a intervenção de um plantonista. A ele cabia decidir quem tinha razão ou mesmo botá-los para fora como baderneiros e outras acusações.
Durante as duas horas em que as luzes ficavam acesas acontecia de tudo. Com o tempo, deu para perceber que o dormitório era dividido em zonas ou grupos.  Aqueles que tinham alguma identificação se juntavam e viviam como se fossem velhos conhecidos. E isso se confirmava pelas conversas. Alguns já se conheciam de outros albergues ou de outras cidades, quase sempre na mesma situação.
Destacavam-se aqueles que se juntavam para praticar pequenos furtos e os travestis. Os travestis eram a verdadeira diversão do dormitório. Com seus ataques de frescura, eles faziam a alegria de todos. Principalmente quando entabulavam, uns com os outros, conversas fantasiosas onde sempre eram mulheres ricas e famosas hospedadas em hotéis de luxo que, nesse caso, era o próprio albergue.
Era deles também que vinha o fato mais alarmante. Como homens e mulheres dificilmente se encontravam dentro do albergue, uma vez que todas as acomodações eram separadas, os travestis eram a única opção de sexo dentro do dormitório. Quando apagavam as luzes, eles faziam a festa. E dava para perceber que havia uma rede de prostituição. Os travestis “atendiam” a muitos clientes por noite. Tudo, eu acredito, sem nenhuma preocupação com contágio de doenças venéreas ou mesmo com a AIDS. 
Alguns deles já aparentavam estar doentes. Muitos se prostituíam abertamente explorados por uma espécie de gigolô que agenciava os encontros. Pelas conversas, também ficava claro que muitos deles faziam ponto nas chamadas  “pistas”, ou seja,  as ruas e beiras de praia da cidade. Para onde diziam ir aos finais de semana.
Porém, a maior ameaça ainda estava por chegar. E ela atendia pelo apelido de Ruço, um sujeito muito mal-encarado que apareceu de uma hora para outra e passou a chefiar uma espécie de gangue dentro do dormitório.
No meio da madrugada, eles saiam de suas camas enrolados em cobertores e afanavam o que encontravam pela frente. Era comum ouvir gritos de “pega-ladrão”, tumultos e uma vítima de cara marcada no outro dia. Além de roubar, a gangue fazia pequenos acertos de contas com os seus desafetos ou os desafetos de seus protegidos.
No meio disso, eu tentava fingir normalidade. E mesmo com o barulho de vários rádios ligados em estações diversas, tentava dormir. O dia seguinte não tardaria em chegar. 

 
TENSÃO E MEDO

 
Entrar toda noite no albergue passou a ser, acima de tudo, um ato de coragem. A partir do momento em que se cruzava o portão de entrada dava-se se início a uma verdadeira prova de fogo. Sobreviver ali a cada noite não era tarefa das mais fáceis. Começava com o contato, impossível de ser evitado, com os  funcionários e se estendia ao convívio com os colegas albergados.
O fortalecimento das gangues dentro do dormitório era flagrante. O grande líder ainda era o Ruço, agora mais forte do que nunca. Ele transformara-se no verdadeiro rei do pedaço e todos lhe tinham respeito. Ele dava ordens e ditava regras. Isso garantia a ele algumas mordomias como cama especial, por exemplo. As rondas noturnas se intensificaram e eu comecei a temer que algo me acontecesse.
As gangues eram muito bem informadas de tudo que acontecia dentro e fora do albergue. Sabiam quem trabalhava e quem tinha coisas de valor, sabiam tudo. E era de posse dessas informações que escolhiam suas vítimas e partiam para o ataque. Primeiramente, eles tentavam uma aproximação na base da malandragem. Outra tática usada era a da marcação cerrada. Passavam o tempo todo tentando e num descuido davam o bote. Por isso, não era difícil imaginar que eles sabiam que eu trabalhava e que, portanto, tinha algum dinheiro. Isso era tudo o que eles queriam.
Outro dado contra mim era o fato de eu ficar isolado de todos, não ter amizade com nenhum grupo em especial. Sempre sozinho e calado no meu canto, eu era uma vítima em potencial. Isso me deixava muito tenso. E por guardar comigo todo o dinheiro que vinham juntando para resolver a minha vida, passava as noites praticamente em claro, fumando um cigarro atrás do outro, na tentativa de evitar que isso acontecesse. Mais ainda depois da noite em que acordei com um cara mexendo nas minhas coisas. Lembro que fiz um movimento e ele desapareceu no escuro. Apesar de, pela manhã, não ter dado pela falta de nada, aquela foi uma lição.
Naquele dia mesmo resolvi procurar uma agência bancária para abrir uma conta. Esbarrei em tanta burocracia que acabei tendo que desistir. O jeito foi apelar para pequenos truques. No dormitório, para minha segurança, colocava as minhas coisas entre o colchonete e a tábua e dormia por cima. Não conseguia  conceber a possibilidade de passar o dia inteiro trabalhando para entregar tudo para algum vagabundo.
Na obra também acontecia de roubar dinheiro um do outro. E como eu andava com minhas economias na mochila, tinha que ficar bastante atento o tempo todo.
A única coisa que me deixava animado por essa época era a peça de teatro, um monólogo, que eu estava escrevendo.
Era a história de José da Silva Severino, um nordestino que deixou sua terra natal e veio para Rio de Janeiro em busca de trabalho e de melhores condições de vida. Cheio de sonhos, o personagem acaba se decepcionando e se torna um soldado do tráfico. Uma história nem tão original assim e que para escrever eu tinha colhido subsídios no convívio com pessoas que viviam experiências parecidas.
Diferente, provavelmente, nem o final. Zé, como o personagem é chamado, trai seus companheiros e resolve virar um traficante cheio de poderes que dá ordens a todos, faz e acontece. No fundo um homem simples tentando dar o seu grito de liberdade, tentando de alguma forma, libertar-se do opressor.
Descoberta a traição, Zé é preso num cativeiro e condenado à morte e é durante o período que vai da prisão até sua execução que a peça se passa. Em pouco mais de uma hora, Zé fala de si, jura inocência, pede clemência e passa sua vida a limpo. Como já mencionei, eu sou ator profissional e, além de atuar, sempre gostei de escrever. Já tinha várias peças escritas e algumas até acabaram se perdendo por causa das minhas constantes e mal planejadas mudanças.
A ideia inicial era escrever um livro. Cheguei a começar esboçar alguma coisa. Fiz muitas anotações lá mesmo no dormitório do albergue enquanto a luz era mantida acesa. Esse ato despertava a curiosidade de todos e me fazia sentir um verdadeiro Graciliano Ramos quando escreveu sua maravilhosa obra, Memórias do Cárcere. Graciliano Ramos, na verdade, com a cara do Carlos Vereza que o interpretou magistralmente na adaptação feita para o cinema sob a direção do Nelson Pereira dos Santos.
Acabei desistindo do livro por achar uma realidade muito distante. Escrever a peça me pareceu algo mais próximo da realidade que eu vivia no momento. E eu  sentia uma grande necessidade de botar para fora tudo aquilo que estava me acontecendo. A peça era esse veículo. Livro precisava de uma editora, muito dinheiro e coisa e tal.  Teatro se faz em qualquer lugar e sem depender de tantos detalhes. Pelo menos, eu acreditava que fosse assim.
Depois de pronta a peça, eu fiz uma leitura para o pessoal da obra e eles gostaram. Eles já estavam curiosos. Eu aproveitava o horário de almoço para escrever. E eles sempre perguntavam o que era aquilo que eu tanto escrevia. Foi uma promessa feita para aplacar tantas perguntas.
Eu não tinha lugar certo para escrever. Podia ser na obra, num banco de praça ou no próprio dormitório.  Era só ter uma oportunidade, pegava papel, caneta e começava.
Então, passei a pensar numa oportunidade de montar a peça num teatro de verdade. Fazia muito tempo que eu não pisava num palco. A última vez tinha sido em Belo Horizonte, vivendo o repórter da peça “A menina e o vento”, de Maria Clara Machado, com direção do Alexandre Colla, levada no Espaço Crepúsculo dos Deuses. Foi uma montagem do grupo Experimental Cênico e Companhia de Estrelas, formado logo após a minha formatura no NET, onde convivi com pessoas maravilhosas como o Toninho Leite, a Débora Lacerda, a Cordélia Corrêa, os irmãos Eduardo e Olegário Amorim e tantos outros.
Dessa vez, era diferente. Eu não era mais aquele jovem ator que acreditava que um dia iria ser tão famoso quanto um Antônio Fagundes ou um Paulo Autran. Tinha passado poucas e boas e embora não tivesse perdido de todo a esperança no futuro, sabia que não podia me dar ao luxo de ter grandes ilusões. Era preciso botar os pés no chão. Mas como, se eu precisava sonhar? 
O resultado do texto era uma peça cheia de vigor, um verdadeiro grito em favor dos excluídos, como eu era naquele momento. Para mim, a peça passou a funcionar com uma forma de protesto e denúncia. O Zé da Silva era eu, os albergados da Fundação Leão XIII, era todo mundo que estava à margem e precisava falar e se fazer ouvir.
Comecei a ensaiar o texto usando o mesmo esquema que usei para escrevê-la. Ensaiava ao ar livre, nas praças, na obra, no dormitório do albergue, enfim onde dava. Sempre contando com a ajuda de um albergado de nome Manoel, um sergipano que se aproximou de mim quando soube que eu gostava de teatro como ele. Ele se dizia aficionado por Shakespeare  e vivia declamando o famoso monólogo da peça “Hamlet”.
Ele falava horas sobre esse ou aquele personagem ou peça do bardo. Por vezes, parecia um tanto perturbado. mas sua companhia era de grande utilidade. Ele acompanhava tudo e quando estava na fase de decorar o texto era quem me ajudava quando me perdia. Enfim, guardadas as devidas proporções, uma espécie de diretor.
Se por um lado eu estava animado com a peça, por outro continuava vivendo a mesma rotina. A vida dentro do albergue piorava a cada dia e eu cheguei à conclusão de que era impossível continuar lá. 
Eu ouvira dizer que a Fundação Leão XIII tinha outro albergue e que era melhor do que aquele da Praça da Harmonia. Diziam que cada um tinha quarto separado e era destinado somente àqueles que trabalhavam. Com base nessas informações, procurei a assistente social. As informações davam conta de que caberia a ela fazer a transferência. Fiz o pedido, mas ela se recusou a me atender. Apenas confirmou a existência da casa. Disse que para ser transferido eu tinha que estar trabalhando de carteira assinada, o que não era o meu caso. Portanto, nada feito.
Diante dessa negativa, resolvi que iria alugar um quatro. Todos os quartos que encontrei exigiam três meses de depósito. E o meu dinheiro ainda não dava para isso. O jeito foi continuar albergado.
Na obra, os desmandos do Paulista aumentavam a cada dia. A cada sexta-feira, era uma tarefa árdua conseguir receber a semana  trabalhada. Sempre havia algum senão. Um dia que não tinha sido apontado, uma quentinha a mais sendo cobrada e coisas desse nível. Por outro lado, os peões já estavam perdendo a paciência e nesses momentos ameaçavam partir para ignorância, chegando a colocar a vida do tal Paulista e seu sócio em risco.  A maioria ia receber disposta a qualquer coisa. Alguns se muniam das próprias ferramentas para intimidar os responsáveis pela obra.
Diante disso, resolvi que precisava arrumar outro lugar para trabalhar e foi então que caí nas garras de dona Jandira, uma mulher de meia-idade, que era chamada de a “gata” da obra da Rua Uruguaiana. Do espeto para a brasa, literalmente. Era igual ou pior do que o Paulista.  Apesar disso, fiquei trabalhando com ela um bom tempo.
Quando a obra da Rua Uruguaiana acabou fui, com ela, para a obra da  Praça Noronha, perto da Praça Onze, na Avenida Presidente Vargas. Se os trabalhadores da Praça Paris ficavam o tempo inteiro achacando os transeuntes pedindo dinheiro para comprar cachaça, os da Praça Noronha faziam o mesmo, mas para subirem até o morro para comprar cocaína.  Depois de “cheirados” ficavam destemidos e perigosos.
Eram visíveis as sequelas profundas a vida na rua ou mesmo no albergue deixava nas pessoas. Uns pareciam mais fortes que outros e aos poucos e meio tontamente tentavam se reequilibrar. No entanto, alguns adotavam a mendicância como meio de  vida. Nesses casos, a loucura vinha logo.
Pessoas que chegavam normais e com as quais cheguei a travar algum tipo de relacionamento, tempos depois, eram incapazes de me reconhecer quando eu tentava falar com elas. Em certos casos, demonstravam-se desequilibradas emocionalmente.
Caso do rapaz negro e franzino que reapareceu na praça com o corpo, principalmente as costas, em carne viva. Eu já o  conhecia dali. Seu estado me impressionou muito. Fui falar com ele e, embora não tenha me reconhecido, contou que estava dormindo na praça e no meio da noite acordou com o corpo em chamas. Tudo o que disse ter visto foi um carro se arrancando em alta velocidade.
Por sorte, ele recebeu socorro de pessoas da rua que o levaram até o hospital Souza Aguiar. Segundo ele, havia uma gangue rondando a área jogando álcool e ateando fogo em quem encontravam dormindo na rua.
Achei difícil acreditar que alguém teria coragem de fazer uma barbaridade daquelas, mas ele estava ali na minha frente para provar que sim. Dias depois, sua história se confirmaria com outro caso. Dessa vez, aconteceu próximo ao albergue e os gritos de um homem foram ouvidos por todos. Gritos pavorosos. Albergados que subiram nas janelas disseram ter visto o homem queimar vivo.
Não havia dúvidas de que o rapaz tinha falado a verdade. Existia uma turma de incendiários rondando o albergue. Não havia como negar, o terror estava instalado dentro e fora do albergue.
Vivia dias de muita tensão e medo. As noites passadas sem dormir me deixavam com os nervos à flor da pele. Até a ideia da peça já não me deixava animado. Começava a questionar sobre o que estava fazendo ali e pensava em abandonar tudo e voltar para casa em Minas. Fazia tanto tempo que eu não entrava em contato com a família que nem tinha mais certeza se teria mesmo para onde voltar. 
Para completar o quadro, caí doente. Fui abatido por uma forte gripe causada, em parte, por meu estado psicológico e físico, também pelo fato de muitas vezes ser obrigado a trabalhar debaixo de chuva na obra. Quando começava a chover, quem parava de trabalhar tinha o dia cortado. Para evitar que isso acontecesse, eu permanecia trabalhando.
E o resultado estava ali. Uma gripe forte e uma inflamação num  dente. Era domingo e tive o dia inteiro para me medicar com remédios receitados por balconistas de farmácias na esperança de estar inteiro na segunda-feira. Pelo contrário, acordei pior no outro dia. Não tive condições de ir trabalhar. Como não podia permanecer no albergue, eu fui para rua, cheio de dores e com muita febre. Quando me senti um pouco melhor decidi ir até o tal outro albergue da Fundação Leão XIII.
Há dias tinha decidido que o procuraria por minha própria conta, sem depender da assistente social. Ela não estava nem um pouco interessada em me ajudar.  Indaguei sobre o endereço e acabei descobrindo que ficava numa rua próxima à Praça Tiradentes, no centro do Rio.
E lá fui eu me arrastando, mas cheio de esperanças. Ao chegar, fui informado que a assistente social só atendia na parte da tarde. Como não tinha nada para fazer, resolvi esperar. Por volta das duas da tarde, ela chegou. Fui atendido logo.
Depois de uma pequena entrevista, onde descobri que seu nome era Isabel, ela  me disse que tinha vagas. Fato que afirmou ter comunicado ao albergue da Praça da Harmonia há vários dias. Falei que não trabalhava de carteira assinada e ela, contrariando a assistente social Renê, disse que a casa existia exatamente para acolher os trabalhadores informais como camelôs, lavadores de carro e catadores  de papel que não tinham moradias ou que moravam em áreas distantes do local de trabalho. Foi a primeira vez que ouvi o termo “Projeto Casa de Acolhida”, nome pelo qual a casa era conhecida.
Em seguida, para minha alegria, ficou acertada a minha transferência. O prazo de permanência era de seis meses. Tempo que eu teria, dependendo do meu comportamento na instituição, para resolver meu problema de moradia. Mais uma vez achei que era tempo demais, mas resolvi não fazer nenhum tipo de comentário e viesse a me arrepender. Tinha aprendido a ser mais cauteloso.
A assistente social me falou sobre o funcionamento da casa e fez questão de dizer que não era um albergue.  Falou sobre os horários de entrada e saída, os horários de refeições: era oferecido jantar e café da manhã como na Harmonia. Avisou que eu podia lavar roupas, tomar banhos e tudo o mais. Não podia levar mulheres e nem receber visitas. Bebidas também eram proibidas. No final perguntou sobre meu estado de saúde. Finalizou dizendo que desejava que me recuperasse logo e que esperava que eu me adaptasse bem às normas da casa. Isso me livraria de ter problemas.
Voltei ao albergue para pegar as minhas coisas. Quando avisei à assistente social Renê que estava saindo, ela não se deu ao trabalho de perguntar para onde eu estava indo. Mesmo assim, fiz questão dizer. Além do mais, eu tinha um recado da assistente social Isabel. Ela mandou avisar que tinha outras vagas. Renê fingiu certa surpresa e eu saí da sala depois de agradecer por tudo que ela tinha feito por mim naqueles dias. Dali, eu fui para o bagageiro pegar minhas bolsas.
A chance de sair de lá me deixou muito animado. Não sabia direito o que iria encontrar pela frente, mas estava animado. Com certeza seria muito melhor do aquele lugar.
Quando cruzei o portão cheguei a ficar emocionado. Afinal, estava saindo após dois meses da minha chegada. Para ser exato foram setenta dias. Houve momentos em que pensei que seria impossível sair, que ficaria para sempre naquele inferno. Sem me despedir de ninguém, atravessei a rua e caminhei para os lados da Avenida Rodrigues Alves, peguei o ônibus Madureira / Praça Tiradentes e durante o trajeto evitei olhar para trás. Na minha cabeça um ensinamento do mestre Jesus Cristo: “Aquele que bota a mão no arado e olha para trás não é digno de mim”. 
Ao desembarcar na Praça Tiradentes, atravessei a rua  me desviando dos carros e apesar do meu estado de saúde não demorei a chegar à Rua Dom Pedro I,  28, endereço da casa. Era por volta das cinco horas. Fui direto ao plantonista, um rapaz  gordo e alourado, de uns trinta e poucos anos, que se apresentou como Gaspar. Ele se mostrou bastante camarada e informou que eu iria ficar no quarto quatro, como a assistente social já havia dito. Informou também que os quartos eram abertos às seis horas, mas que ele, por deliberação própria, abria mais cedo. Mesmo de manhã cujo horário de deixar o quarto era às oito horas, ele disse ser mais tolerante.
- Sou camarada com os internos. O nego não pode é vacilar. - disse abrindo o quarto.
O quarto era relativamente pequeno, mas cabiam nele três camas beliche com três andares as duas das laterais e com dois a do meio perfazendo um total de oito camas.  Isso me fez crer que ali moravam oito pessoas. O  que desmentia a expectativa, fantasiosa, de que eu teria um quarto separado. As camas tomavam quase  todo o espaço, dificultando a locomoção. Provavelmente por isso, o plantonista ficou do lado de fora, parado na porta. De onde ele apontou a cama em que eu deveria ficar. A única  com o colchão à vista, dando a entender que estava vazia.
Percebi que não  tinha local para guardar as bolsas e perguntei a ele se havia  algum lugar para isso. Ele avisou que não. Eu teria que dar o meu jeito. Como minha cama  seria a primeira debaixo para cima, resolvi enfiar tudo debaixo dela. O plantonista saiu e voltou com o que seria o meu enxoval na casa: colcha, lençol, fronha, travesseiro e toalha de banho. Tudo novo e branco. Ele me entregou dizendo que a partir daquele momento aqueles objetos ficariam sob a minha responsabilidade. Eu tinha que manter tudo limpo e bem cuidado. Depois disso, ele foi embora dizendo que eu podia descansar até a hora da janta. Nessa hora, deveria procurá-lo para assinar o livro de presença. Regra obrigatória.
Gostei da possibilidade de poder descansar um pouco.  Aquele tinha sido um dia muito puxado. Porém, a curiosidade de conhecer o lugar onde eu ficaria morando a partir daquele dia me fez sair pela casa fazendo uma espécie de reconhecimento do local.
À primeira vista tudo que se via era um estacionamento de carros e um galpão de madeira do lado esquerdo, lembrando um acampamento de trabalhadores, desses que se vê em obras. Era dividido em cinco quartos dormitórios, numerados de um à cinco, com capacidade para abrigar quarenta homens, uma cozinha, uma área aberta usada como refeitório, outra com vários lavatórios pequenos e tanques para lavar roupa. Havia ainda a sala da administração e serviço social, uma despensa, além dos banheiros e chuveiros, que eram separados. O piso era de cimento e a área em volta coberta por uma camada de brita, o que provocava certo barulho quando se caminhava sobre ela. Tudo isso cercado por uma frágil cerca de arame liso, com vigas de cimento.
Feito o reconhecimento do local, tratei de me apresentar ao restante do pessoal. Naquela hora, praticamente só os funcionários estavam presentes. Conheci as duas cozinheiras do dia e pude perceber o fato de que o contato dos internos com os funcionários era muito próximo. Elas  e o plantonista, no primeiro momento, pareceram-me amáveis e cordiais.
Diferentes dos funcionários do albergue da Praça da Harmonia. Só essa diferença já me deixava contente. A limpeza do local chegou a me deixar impressionado. Tudo era limpo. Cada coisa parecia estar em seu devido lugar. Isso me fez pensar em tomar um banho e tentar me ajustar ao ambiente.
O chuveiro frio não foi  problema. Já estava acostumado. No albergue da Harmonia não era diferente. Tomei um banho como há muito não tomava. Na verdade, lavei  o corpo e a alma. Precisava me livrar daquele cheiro que parecia ter me impregnado, o cheiro da sujeira do albergue. Lá eu não percebia tanto, mas agora num lugar limpo se fazia notar.
Um pouco mais tarde, os internos começaram a chegar. Interno era o termo usado para designar os moradores da casa. Eram cerca de trinta e tantos homens de idades variadas. Alguns já eram meus conhecidos do albergue da Harmonia, como o Geraldo.
Perguntei a ele sobre seu emprego e ele confirmou que estava trabalhando, mas que não davam moradia, como tinham me dito. Não quis muito papo comigo. Creio que por causa da minha aparência. A gripe e a inflamação dentária não estavam ajudando muito.
Foi servida uma sopa. Não estava lá grande coisa. Isso gerou reclamação por parte dos internos. Diante disso, as cozinheiras afirmavam que estavam fazendo o que podiam, pois não havia muito suprimento.
Naquele primeiro dia não quis tomar conhecimento dos possíveis problemas que deveriam existir na casa. Queria apenas ver o lado bom. O importante é que eu tinha saído do Albergue João XXIII e estava num lugar que me parecia ser melhor, mais condizente comigo.
Fui para cama cedo e então, pela primeira vez em quase três meses, pude deitar numa cama de verdade. O enxoval novo dava um toque de conforto e limpeza que eu parecia já ter esquecido que existia. Isso reforçava a impressão de que nos últimos tempos eu estivera vivendo num inferno. Dormi como um anjo, ciente de que a partir daquele dia começava um novo capítulo da minha passagem pela Fundação Leão XIII.
        

  
UM GATO ENTRE OS POMBOS

 
Com o problema de moradia, temporariamente resolvido, e já recuperado do problema de saúde, pude retomar alguns projetos que estavam esquecidos. A peça era um deles. A estrutura do Projeto Casa de Acolhida permitiu que eu voltasse a ensaiar na parte da noite. O local usado foi o refeitório: um espaço não muito grande e que tinha uma enorme mesa de madeira, usada para as refeições.
Por essa época  encontrei um título que julgava ideal: “Saudades da China”. Embora achasse um tanto subjetivo, vinha ao encontro do que eu estava procurando. Novamente me enchi  de entusiasmo e fantasias. Aquela  velha história de que a peça seria uma forma de protesto e que com ela eu conseguiria chamar atenção para a causa dos desvalidos. 
Com os ensaios retomados cresceu a necessidade de encontrar um teatro para levar o espetáculo, que agora estava sob minha própria direção. Um verdadeiro três em um: texto, interpretação e direção. Resolvi procurar o Teatro Procópio Ferreira, em Nova Iguaçu. E não foi difícil convencer sua administradora a alugá-lo para mim durante um final de semana. As apresentações foram marcadas para uma sexta-feira e um domingo, dias 28 e 30 de junho de l991.
Eu não calculei a trabalheira que essa empreitada me daria. Foi uma loucura. E só pude contar com a ajuda da Cláudia, uma amiga. Aliás, meu único contato com o mundo dito normal naqueles tempos.
Cláudia era uma jovem de uns vinte poucos anos e eu a conheci na rádio Continental. Ela chegou a trabalhar com a Deise Borges e também levou calote. Diferente de mim, ela tinha a estrutura de sua família. E, por ser estudante de jornalismo, acabou sendo contratada pela rádio como estagiária. Pessoa bastante generosa, Cláudia me ajudava como podia. Inclusive, quando tentei arranjar emprego e precisava deixar algum endereço para contato, ela me autorizou a dar o seu. Foi através dela que eu datilografei o texto da peça, usando uma máquina da rádio Continental.  Ela fez a voz da Dorinha, que surge na peça quando Zé lê a carta da noiva que julga estar esperando por ele em sua terra natal, e conseguiu muita coisa para a peça: como o aparelho de som que não tinha no teatro e convenceu o Ronald, operador de som da rádio Continental, a gravar a fita do espetáculo, incluindo músicas e sonoplastia. Ela também ajudou na divulgação. Ronald acabou colaborando mais. Gravou a voz do personagem Rato, o amigo de Zé da Silva Severino, que o trai.
Chegado o grande dia, faltei ao trabalho na obra para cuidar da estreia. Quando Cláudia chegou, me encontrou sentado no camarim. Tinha feito um ensaio e estava descansando. As horas passavam e ninguém aparecia. Vendo minha decepção, ela foi a até o pátio, onde funcionava uma escola e trouxe dois alunos que se dispuseram a assistir ao espetáculo. Mais tarde chegaria Alberto, fotografo amigo de Cláudia, a única pessoa que se interessou realmente em ver a peça.
No final, depois de Cláudia se dividir nas funções de operadora de luz e sonoplasta, tudo acabou saindo bem. Os dois alunos se empolgaram com o espetáculo. Um deles fez um pequeno discurso ressaltando minha coragem e, segundo suas próprias palavras, o meu talento. Agradeci e tratei de voltar para o Rio de Janeiro. No dia seguinte, um sábado, eu teria  que estar inteiro para enfrentar a maratona de doze horas no Jornal O Dia, onde continuava trabalhando como carregador. Motivo pelo qual não agendei espetáculo para o sábado. Embora estivesse decepcionado tentava me animar. Se aquele dia não tinha sido bom restava ainda o domingo. Quem sabe não teria mais sorte? Ledo engano. Foi ainda pior. Não apareceu ninguém. Nem mesmo a Cláudia. Ela disse depois que tivera algum  problema que a impediu de ir. Ainda assim permaneci no teatro alimentando alguma esperança. Do lado de fora, uma chuva fina fazia com que a noite ficasse fria. Sentado na plateia, eu olhava para a pintura do retrato do ator Procópio Ferreira, que dá nome ao teatro e o invejei. Queria ter a sorte dele. Ser reconhecido pelo seu trabalho e dar nome a um teatro. Ainda que fosse aquele teatrinho malcuidado e perdido naquele lugar ermo. Do lado de seu retrato, nomes de outros atores do passado como Itália Fausta, João Caetano, Alda Garrido e outros, numa homenagem simples, mas tocante. Só então percebi o quanto tinha sido pretensioso. Quando peguei o trem de volta para o Rio, tive a sensação de que tinha sonhado demais.
Não demorou muito para  que eu ficasse inteirado de todo o funcionamento do Projeto Casa de Acolhida. Em pouco tempo, já conhecia todos os funcionários. As duas assistentes sociais, a Isabel, minha conhecida desde o primeiro dia, e a Blandina, mais a Vânia que era assistente ou estagiária. Elas dividiam a sala com dois funcionários burocráticos que eu só vi nos primeiros dias. Os plantonistas e as cozinheiras trabalhavam em grupos. Sempre um plantonista e duas cozinheiras. Os grupos eram fixos e trabalhavam em turnos de vinte e quatro por setenta e duas horas. Eram cerca de quatro grupos e eram eles que tinham mais contato com os internos. Uns permitiam maior aproximação e outros faziam questão de manter uma boa distância. Tinha também um coordenador, um senhor de uns sessenta anos chamado José Luís. Ele chegava sempre na hora em que a sopa estava sendo servida e saía logo em seguida. Na maioria das vezes, sem nada dizer.
Eu dividia o quarto com Roberto, uma espécie de líder; Juracy, um paulista caladão; Fábio, um nortista vendedor de biscoitos; Daniel, um nordestino; China, um guardador de carros;  Sérgio, um mineiro meio suspeito que eu vira roubando uma bicicleta na Praça da Harmonia e outro, não cheguei a guardar o seu nome, que foi embora nos primeiros dias. Dizia ter uma cirurgia marcada num hospital em São Paulo. No dia em que partiu, despediu-se de todos demoradamente. Era baixo, aparentava uns quarenta e cinco anos e tinha um semblante muito triste. Não cheguei a perguntar qual a cirurgia que ia fazer, mas pareceu-me que era coisa séria.
O convívio no quarto não era de todo ruim. Apenas sofria as agruras de ser novato. Todos tinham alguma coisa a dizer sobre como me comportar no quarto. Haviam criado algumas normas: era proibido fumar, por causa do risco de pegar fogo na madeira; depois das dez horas não era permitido acender a luz, ouvir rádio, dentre outras. Normas que eles mesmos não seguiam, mas que faziam questão que eu seguisse.  No que diz respeito ao convívio com  os internos dos outros quartos, houve um estranhamento inicial, mas pouco a pouco ia conhecendo um e outro e me tornando conhecido. Também conhecia a casa e os seus problemas.
Sim, eles existiam. Isso me fazia crer que eu tinha feito um julgamento apressado. Julguei que ali era um paraíso e a cada dia descobria o quanto estava enganado. Embora estivesse longe de se comparar com o albergue da Praça da Harmonia,  podia notar algumas semelhanças. E isso ficou mais evidente num incidente acontecido entre um colega do meu quarto, o Roberto, e um plantonista que, para evitar qualquer problema, vou chamar de X.
Um belo dia eu estava descansando no quarto quando o plantonista X chegou perguntando pelo Roberto. Ele estava transtornado. Pouco depois, o Roberto chegou muito bêbado. Os dois ficaram discutindo um tempo. Pelo que deu para entender, X acusava Roberto de estar falando dele pelas costas, que o teria acusado de ser homossexual e transar com os internos. Roberto confirmou a história acrescentando que o surpreendera fazendo sexo oral em determinado interno na sala da administração. Aí a briga as agressões tiveram início. X, que era mais forte, bateu muito em Roberto, apesar de intervenção de todos. Do quarto a briga evoluiu para o lado de fora, chamando a atenção de todos. Em pouco tempo, Roberto estava sangrando. A briga só terminou quando todos juntaram e afastaram o plantonista. Ele, a essa altura, mais parecia um animal selvagem.
Roberto foi expulso naquela noite mesmo. Esse fato chamou a minha atenção para uma prática que havia ali: as expulsões. E elas eram mais comuns do que eu podia imaginar. A partir daquele dia muitos casos viriam a ser registrados. Geralmente, aconteciam durante a noite.  Tanto podia ser por problemas entre os internos ou  destes com os funcionários. Pela manhã, o caso era registrado e as assistentes sociais quase sempre optavam pela expulsão. Isso me deixava muito apreensivo. Nunca se sabia quando alguém iria cismar com a minha cara. Além do mais, a cada expulsão vinha outro interno para o lugar. Uma nova pessoa nem sempre tão bem-vinda.
Mesmo assim dava para ir levando. Porém, a chegada de um interno chamado Genilson trouxe sensíveis mudanças. Genilson era um rapaz de uns vinte e tantos anos, mulato e alto, articulado e muito falante. Logo fez amizade com todos e tornou-se uma pessoa popular. Principalmente com os funcionários da casa, com os plantonistas em especial. Tornou-se companhia inseparável deles e isso fez com ele passasse a ter privilégios. Entre eles, o de agir como verdadeiro plantonista. Era comum vê-lo repreender internos e dar ordens a um e outro. Comigo não chegava a se meter, mas eu não tinha como não ter contato com ele, pois estava lotado no meu quarto. Viera para a vaga surgida com a expulsão do Roberto. E foi ali que ele cometeu um dos seus desatinos. Numa noite, altas horas, quando todos no quarto dormiam, ele chegou fazendo o maior alarde. Foi direto nas camas do Sérgio e de outro interno de nome Paulo e os retirou do quarto debaixo de sopapos. Genilson os acusava de serem os responsáveis pelos roubos que vinham acontecendo dentro do Projeto. Falava e espancava os dois, que não chegavam a oferecer resistência. O barulho atraiu a atenção de todos. Nessa hora o plantonista, um senhor de nome Odilon, que dormia na sala da administração, foi chamado. Sérgio e Paulo juravam inocência, mas Genilson afirmava que eles eram ladrões e que deviam ser expulsos.
O plantonista ponderou que deviam esperar o dia seguinte para que as assistentes sociais resolvessem a questão. Genilson não concordou e decidiu que eles deveriam ter os seus objetos vasculhados para ver se encontrava o produto dos roubos.
Era verdade, os roubos estavam mesmo acontecendo. As reclamações eram constantes. Revistados os pertences dos dois, nada foi encontrado. No entanto, Genilson, investido de seu poder de xerife, ordenou que eles desaparecessem dali. E mesmo sendo madrugada, os dois não tiveram outra saída senão obedecer.
Apesar das reclamações feitas à coordenadoria da casa e ao serviço social, Genilson continuou aterrorizando por muito tempo ainda. Em pouco, se tornou uma pessoa malquista e temida pelos internos. Sobretudo entre aqueles que frequentavam as reuniões que o serviço social fazia semanalmente na tentativa de buscar solução para os problemas que surgiam.
Naquele momento a grande preocupação era mesmo a falta de suprimentos para a sopa.  Acreditava-se que essa era, em muitos casos, a única refeição que a maioria fazia. Constatação que deixava claro que havia muitos desempregados na casa. Internos que não tinham nenhuma ocupação remunerada. Isso desmentia a história de que só podia ficar na casa quem tivesse algum tipo de trabalho.
Reunimo-nos várias vezes para tentar encontrar uma solução para o problema da alimentação. A sugestão era que se permitisse que as cozinheiras vendessem comida aos internos. Cada interno pagaria mensalmente. A sugestão foi descartada pelas assistentes sociais Isabel e Blandina. Elas, que trabalhavam em dias e horários alternados, mas nas reuniões estavam sempre presentes, acreditavam que essa era uma função da Fundação Leão XIII. 
Eu concordava com elas. Porém, os problemas iam muito além do fato de não haver comida. O maior deles era o próprio interno, como era o caso do Genilson. Muitos eram alcoólatras, toxicômanos e até marginais. Como no albergue João XXIII, no Projeto também tinham aqueles que não estavam a fim de nada além de um lugar para se encostar ou se esconder. Esses eram, em sua maioria, homens de meia-idade cheios de vícios e problemas. Muitos estavam no projeto  exatamente porque esses problemas terminaram por afastá-los de suas famílias: pais, irmãos, esposas, filhos. E, contrariando minha impressão inicial, fazia com a vida ali dentro, por vezes, lembrasse o albergue da Harmonia.
Em tese, o Projeto Casa de Acolhida era muito bonito em seu ideal humanitário. Entretanto, não tinha muita estrutura. Era recente, tinha sido inaugurado em fevereiro de 1991. Fora construído no final do mandato do governador Moreira Franco e o novo governo não sabia exatamente o que fazer com ele.
As reuniões passaram a ser de grande importância para a vida na casa. Vez ou outra se achava uma solução para algum problema que afligia a todos. Com isso, passaram a ter um sentido maior. Deixávamos de ser simples estranhos e íamos tornando-nos mais conhecidos uns dos outros.
E foi numa dessas reuniões que surgiu a sugestão de que devíamos ter uma  televisão para que todos pudessem assistir à noite. Essa ideia nasceu embalada pelo fato de que o plantonista Antônio levava uma televisão pequena nos seus plantões e a colocava no refeitório para todos assistirem. E era notório que grande parte se interessava em assistir telejornais, programas musicais, novelas e, principalmente, futebol.
No dia do plantão do Antônio, o refeitório ficava lotado até tarde. Nos outros, dias todos sentiam a falta do aparelho. Por isso, decidiu-se que o melhor era comprar um aparelho e que isso seria feito através de uma coleta de dinheiro. Ou seja, todos os internos contribuiriam. Essa decisão gerou uma polêmica. Uns achavam que não ficariam na casa tempo bastante para desfrutar do aparelho, outros achavam que ele deveria ser fornecido pela Fundação e as próprias assistentes sociais viam aquilo com reserva. Mesmo assim a coleta terminou por ser feita. Não para comprar um aparelho novo, mas para consertar um aparelho velho que o Coordenador José Luís doou para o Projeto. O conserto consistia na troca do tubo de imagem que estava queimado. E como ali de louco e médico tinha de tudo, logo apareceu um que se dizia entendido em eletrônica e se  ofereceu para trocar o tubo. Coleta feita, tubo comprado, chegou o dia da troca. Tudo foi feito sob a supervisão do Paulo, morador do quarto um, que se despontava nas reuniões. Paulo, quarenta e poucos anos, era muito ligado às assistentes sociais e tinha fama de ser o interno mais respeitado da casa. No dia, porém, ele alegou que precisava se ausentar e passou o encargo de gerenciar a troca para ninguém menos que o Genilson.
O técnico em eletrônica era um cara baixinho de idade indefinida que eu sempre via por ali. Cheguei a pensar que era um tanto perturbado dado ao fato de ficar conversando sozinho e por ouvi-lo contar  que era caminhoneiro e que tinha sofrido um acidente onde teria perdido alguns familiares. As sequelas do acidente eram visíveis. Independente disso, a troca começou a ser feita em cima da mesa do refeitório sob o olhar de muitos curiosos. O técnico parecia seguro naquilo que fazia. Todos estavam ansiosos para que a troca obtivesse sucesso. Afinal, ter uma televisão para assistir todas as noites seria quase um luxo. Ainda que fosse uma velha televisão preta e branca.
Serviço pronto, hora de testar. Todos se prepararam para o grande momento. O técnico ligou o aparelho e... o aparelho explodiu. Por pouco, não causou uma tragédia. Foi gente correndo para todo lado. Felizmente nada de pior aconteceu. Apenas, morria ali o sonho da televisão comunitária.
Além do susto, o pretenso técnico ainda levou uma surra do Genilson. Mais uma vez agindo arbitrariamente e por conta própria. Apesar de toda a indignação que suas atitudes causavam em todos, ninguém fazia nada. Muitas vezes, essas arbitrariedades nem eram comunicadas ao serviço social, pois de nada adiantava. Parecia que Genilson tinha ascendência sobre todos. Principalmente as cozinheiras, que diziam que ele era um bom menino e os plantonistas que deixavam que ele agisse sem nada fazerem para impedir.
Por esse período ele resolveu arranjar um cachorro para a casa. Confesso que achei a atitude um tanto descabida, mas a maioria aprovou. Achavam que um cachorro protegeria a casa de possíveis ladrões ou coisa parecida. Era um cachorro preto, tipo fila, e passou a conviver com a gente. Isso não demorou muito tempo. Logo, o pobre cão desapareceu.
Dias depois um funcionário da casa de nome Roberto apareceu com o rosto todo coberto de marcas que pareciam mordidas. Roberto era um funcionário sem uma função específica. Acho que nem ele mesmo sabia o que fazia na casa. Só sei que passava o tempo inteiro bêbado importunando seus colegas funcionários e os próprios internos. Correu o boato de que ele, muito embriagado, resolveu brincar com o cachorro e esse o atacou, mordendo-lhe o rosto. Essa seria a causa do desaparecimento do cachorro. Porém, o motivo verdadeiro do desaparecimento do cachorro seria bem outro.
Havia um homem que vivia sentado na mesa do refeitório, de onde não saía para nada. Passava o dia inteiro fazendo entalhe em madeira e deixava tudo sujo. Quase sempre gerava briga entre ele e os funcionários ou mesmo com os internos que ficavam incomodados com sua constante presença no refeitório. Mulato, ele tinha uns sessenta anos e atendia pelo apelido de Baiano. Esse devia ser o seu estado de origem. E isso se confirmava quando se via o produto do seu trabalho. Ele sempre retratava o lado velho de Salvador, capital da Bahia. Inicialmente, tive a impressão de que ele era interno também. Logo essa impressão foi desmentida.
Ele tinha ares de importante e estava sempre vestido com um terno amarrotado. Era íntimo dos funcionários e isso me levou a descobrir que ele era um ex-funcionário da Fundação Leão XIII. Tinha sido afastado depois da mudança de governo e estava ali porque não tinha onde morar. No entanto, se negava a ser um interno como nós. Embora as assistentes sociais vivessem no seu pé para que ele acertasse sua situação ou saísse dali de vez. Nem uma coisa nem outra aconteciam. Ele permanecia sentado na mesa do refeitório dia e noite. Quando falava era só para lembrar que já tinha tido muito poder na Fundação.
- Eu trabalhava junto com os “home”. Não era um funcionariozinho qualquer, não. – ele dizia.
Geralmente, se inflamava muito nessas ocasiões, ficava alterado e violento. Alguns internos e funcionários gostavam de vê-lo irritado. Às vezes, dizia que se nós estávamos tomando sopa ou mesmo morando ali é porque ele deixava. Aquela casa era para ser dele, de suas crianças, ele afirmava.
Com o tempo, Baiano foi perdendo a rigidez e passou a fazer amizades com os internos. Na verdade, tornou-se motivo de chacota de todos pelo fato de não ter o hábito de tomar banhos. E um desses internos era o Genilson.
Para concluir, Genilson e Baiano eram sócio no negócio do cachorro. Cachorro esse que nunca foi do Projeto, tendo ficado ali somente enquanto eles fechavam a venda dele. E foi esse o motivo de seu sumiço. Genilson vendeu o cachorro. Até aí nada demais. Um animal no projeto representava uma boca a mais e comida já era escassa.
Porém, Genilson não deu a parte do Baiano e  fez nascer uma  séria desavença entre eles. Sem conseguir sua parte no dinheiro, Baiano jurou vingança. Faria de  tudo para ver Genilson expulso.
Era notório que muitos usavam drogas. Aliás, nas madrugadas, ela corria solta..  Chegavam a fazer vaquinha para comprar. Genilson fazia parte dessa turma. Numa noite, depois de ser acordado por uma barulheira infernal do lado de fora do Projeto, vi quando um interno do meu quarto, o China, entrou, revirou suas coisas e saiu com uma arma dizendo que matar alguém. Não aguentando de curiosidade, fui ver o que estava acontecendo. Ao chegar do lado de fora, notei que o Neguinho, interno do quarto dois, chorava, caído no chão. Ele dizia que tinha sido roubado e que tinham levado todo seu dinheiro.
Numa questão de segundos todos estavam de pé. China apontava a arma para a cabeça do Neguinho dizendo que ia atirar. Tentei entender o que estava acontecendo e descobri que Neguinho tinha subido num determinado morro para buscar cocaína e que fora roubado. Porém, ninguém de sua turma estava acreditando na história que ele contava.
- Você tá de caô. – gritavam.
Isso gerava toda aquela confusão que podia sair em morte e que atraía cada vez mais gente.
Sem mais nem aquela, o Baiano, que estava presente, desferiu um murro na cara do Genilson. Outra confusão. O plantonista foi chamado e Baiano exigiu que fosse registrada uma ocorrência. Ele afirmava que Genilson era o responsável por toda aquela desordem. Neguinho subiu o morro para comprar cocaína para Genilson trazendo perturbação para dentro da casa e tinha que ser punido. Resultado: no outro dia, sem que ninguém esperasse, Genílson foi desligado do Projeto pelo serviço social e teve que ir embora. Ironicamente, dias antes, num domingo, Genilson aceitou Jesus num culto realizado no Projeto, prometendo que a partir daquele dia ia mudar de vida. De uma forma não muito correta, mas bastante oportuna, estávamos livres dele. Quanto aos outros, nada foi dito, nada foi feito.
Apesar do insucesso da instalação do aparelho de televisão, as reuniões continuaram acontecendo com certa regularidade. Até porque os problemas não paravam de aparecer. Além da sopa, começou a faltar o café da manhã também. E não adiantava esperar que a Fundação  mandasse alguma coisa, alimentação estava em falta noutras unidades consideradas mais essenciais.
Desde a posse do novo governo, a entidade estava sem um diretor e isso tornava as coisas mais difíceis, diziam.  Isso fez com que se pensasse numa saída para o impasse. A sugestão veio do Paulo. Apesar de já estarmos no mês de julho, ele sugeriu que fizéssemos uma festa junina com o intuito de arrecadar fundos para comprar suprimento para a sopa e o café. A sugestão foi acatada com entusiasmo. E dali, partimos para a organização da festa. Paulo pensava em fazer uma festa grande com muitas quadrilhas, barracas, bebidas, alto-falante, enfim. Chegou a batizar  a festa de “Arraial do Cachorro Cansado”. E em seus planos estava até conseguir apoio de fábricas de cerveja com a Antártica e a Brahma, que emprestariam as barracas, as cadeiras, as mesas, etc.
Foi  exatamente em busca de apoio que procuramos a Riotur. Segundo Paulo, eles nos ajudariam com os enfeites da rua e transporte dos integrantes das  quadrilhas. Enfim uma grande festa.
Fomos em grupo a RIOTUR. Eu, Isabel, Blandina, Cláudio, interno do quarto cinco, Renato, interno do quarto um e o Paulo. Fomos recebidos por um rapaz gordo e alto que se apresentou como responsável pela área de apoio. A assistente social Isabel achou por bem falar um pouco de nós e do trabalho realizado pela Fundação.
Depois disso ouvimos o seguinte  comentário:
- Fundação Leão XXIII? Sim. Acho que conheço. Não é aquela que cata  mendigos na rua?
Diante disso, ficou difícil argumentar. Isabel bem que tentou fazê-lo ver que  não era bem assim e tal e coisa, mas o homem se apressou em dizer que não podia fazer nada. 
Voltamos para o Projeto e lá ficamos sabendo que nada seria conseguido com as fábricas de cerveja. Aliás, bebida alcoólica estava definitivamente fora de cogitação devido ao fato de muitos ali serem dependentes de álcool.  Diante disso, Paulo pulou fora. Fora da organização da festa e do Projeto, não tendo sido mais visto a partir daquele dia.
Com o misterioso afastamento do Paulo, a comissão da festa ficou bastante reduzida. Basicamente eu, Isabel e o Cláudio. Cláudio era um pernambucano falante que tinha chegado pouco depois de mim. Trabalhava entregando panfleto nas ruas e era muito prestativo. Juntos, percorremos o comércio das redondezas pedindo prendas e conseguimos bastante coisa. A Brahma emprestou alguns balcões e as barracas foram improvisadas. Na reta final muitos internos colaboraram e o destaque foi para o Chagas, que era do quarto um. Mineiro, trabalhador de construção civil, ele foi responsável por quase toda ornamentação da festa. Não poupou esforços para conseguir folhas de palmeira e até uma gambiarra para a iluminação.
O som foi emprestado pelo Coordenador e fizemos muitas e coloridas bandeirinhas de papel de seda. Cada quarto ficou responsável por uma barraca, que foram variadas. As cozinheiras cuidaram da comida, fazendo salgadinhos para vender, e um dos quartos optou pela venda de refrigerantes. Eu sugeri ao Fábio, morador do meu quarto, que colocasse uma barraca com um bingo. O serviço social optou por um bazar de roupas usadas. Apenas uma quadrilha se apresentou convidada pelo cozinheiro Chiquinho, único homem no meio de sete cozinheiras. Tudo muito simples, mas com muita animação.
A festa atraiu pessoas das redondezas e os funcionários levaram seus parentes e amigos. Apenas um incidente marcou a noite. Um dos convidados, um senhor chamado Dr. Júlio, alegou que sua carteira tinha sido roubada.  Por não encontrá-la, ele acabou chamando a polícia que, além de revistar todos os internos, fez com que mostrássemos os nossos pertences. Todas as malas e bolsas foram revistadas, sem  que nada fosse encontrado. Isso gerou um grande constrangimento. A festa acabou. Naquela noite todos dormiram com alguma coisa atravessada na garganta.
                    

 O ENGAJAMENTO

 
Já  fazia mais de um mês que eu estava morando na Casa de Acolhida. A vida na casa oferecia uma infraestrutura que permitia levar uma vida quase normal. Falando, grosso modo, era como se eu estivesse morando numa vaga.
Diferente de muitos que pagavam as cozinheiras para lavarem suas roupas, eu preferia cuidar disso pessoalmente. Aliás, era para isso que existiam os tanques e a água em abundância. Tinha  recuperado totalmente a minha saúde e já comemorava o fato de estar um mês sem fumar. Depois de passar alguns anos fumando muito, era a primeira vez que decidia parar. A decisão foi tomada nos dias em que eu estava fortemente gripado. Passado o nervosismo dos primeiros dias, eu já me sentia melhor e estava me acostumando com a ideia de não fumar  nunca mais. Apesar de quase todos à minha volta fossem fumantes inveterados.
Mesmo com todos os incidentes que aconteciam diariamente, me sentia mais tranquilo e fazia alguns planos para o futuro. E entre eles estava deixar o serviço na obra e arranjar um trabalho de carteira assinada. Na minha área, ou seja,  num escritório de contabilidade. No entanto, julgava que ainda precisava juntar um pouco mais de dinheiro. Apresentar a peça no teatro de Nova Iguaçu acabou custando mais do que eu imaginara. Além de ter amargado toda aquela decepção, tive que desembolsar algum dinheiro. Somando  isso ao fato de ter ficado uns dias parado por causa da gripe e da inflamação dentária, o resultado era que eu não podia parar de trabalhar na obra para procurar emprego. Por isso, tive que me conformar e continuar a enfrentar a vida de peão na reforma da Praça Noronha.
Depois da festa junina, houve uma aproximação maior dos internos com as assistentes sociais. Os dias trabalhando juntos na organização da festa fizeram com que passasse a existir uma relação de confiança entre as duas partes e o resultado era benéfico para ambos.
Bem diferente da expectativa inicial, o dinheiro arrecadado não foi lá grande coisa. Mesmo assim, Isabel fez uma lista de prioridades e eu fui com ela fazer as compras. Só deu para comprar alguns objetos que estavam faltando como copos, pratos, garfos, colheres, cestas de lixo, etc. Os gêneros alimentícios ficaram de fora. 
O Projeto não tinha ainda uma linha de ação definida. A própria Fundação, como afirmavam os funcionários, nunca tinha trabalhado com aquele tipo de casa. Ou seja, estavam todos tateando no escuro. De um lado estavam as assistentes sociais buscando uma maneira de melhor conduzir o Projeto e do outro estavam os internos que tinham ali uma maneira relativamente decente de reconstruírem suas vidas. Só que isso estava ameaçado. Tanto pela falta de estrutura administrativa, quanto pelo próprio interno que, sem regras muito bem definidas a seguir dentro da casa, agia como queria. Foi daí que nasceu a necessidade de que se fizesse um trabalho efetivo para que as coisas pudessem funcionar melhor. Tudo começou dentro dos quartos. Cada quarto escolheu, dentre os seus ocupantes,  uma espécie de líder. Esse líder teria a função de ser uma ponte entre o ocupante do quarto e o serviço social.
As eleições para escolher os líderes ocorreram sem problema. Uma das razões era o fato dessas lideranças, em muitos casos, serem naturais. Como o Valdecir, do quarto dois, o Chagas do quarto um, o Cláudio do quarto cinco. No quarto quatro, para minha surpresa, o escolhido fui eu. Embora eu achasse que o Fábio, o vendedor de biscoitos, fosse o mais indicado. Apenas o quarto três, onde estavam os internos mais problemáticos, não deu nenhum líder. Logo após, foi escolhida uma comissão para elaborar um estatuto de funcionamento para a casa. Mais uma vez fui um dos escolhidos, juntamente com o pernambucano Cláudio. Também faziam parte da comissão as duas assistentes sociais, o plantonista Gaspar e a cozinheira Aparecida.
Durante alguns dias nos reunimos e no final o estatuto estava pronto. Era muito simples. Dele constavam coisas básicas como hora de entrada e saída, horário das refeições, uso das partes comuns como chuveiros e banheiros e os tanques de lavar roupa, etc. Regras que na verdade já existiam, mas que não eram cumpridas. Discutimos também alguns pontos polêmicos como a proibição de vender comida ou qualquer outra mercadoria dentro do Projeto e fixamos horário limite para que o interno se recolhesse ao seu quarto: vinte e duas horas.
Isabel propôs a criação de uma carteirinha para identificação do interno. Nela constaria foto, nome do portador e os números do quarto e da cama, além da data de entrada no Projeto.
Alguns tópicos do estatuto geraram muita discussão. Principalmente no caso da venda de comida que vinha sendo feita pelas cozinheiras dona Maria e dona Terezinha. Todos batiam na tecla de que essa função era da Fundação.
Outro ponto de grande polêmica eram as expulsões. Sobre isso me debati muito, embora as achasse necessárias, achava que eram também, muitas vezes, arbitrárias. Não se chegava a apurar com clareza as denúncias e ocorrências.
Não obtive sucesso. Julgavam que eu estaria advogando em causa própria, uma vez que também poderia ser expulso como qualquer outro. E não podia duvidar que isso acontecesse. Bastava me envolver numa confusão com algum funcionário e ponto. Entre a palavra de um funcionário e a de um interno prevalecia a do funcionário.
Com o estatuto pronto, chegou a hora de colocá-lo em prática. O primeiro passo foi torná-lo conhecido. Fui designado para datilografar tudo na velha máquina de escrever da administração. Em seguida, foram afixadas cópias na porta de cada quarto e em outros lugares visíveis. Fato que acabou por gerar algumas manifestações contrárias. No outro dia, algumas cópias apareceram arrancadas e rasgadas e era comum ouvir comentários desaprovadores.
Ainda assim, Isabel seguiu com seu intento de botar em prática o estatuto. Para a confecção das carteirinhas, foi necessário numerar todas as camas e confirmar a numeração dos quartos, que já existia, mas não era oficial. Com isso minha cama ganhou o número trinta e dois.
Isabel resolveu também numerar as roupas de cama e as tolhas com o mesmo número da cama, usando um pincel com tinta acrílica. Na hora da confecção das carteirinhas, muitos alegaram não ter retratos e nem condições para tirar. O serviço social conseguiu que as fotos fossem tiradas através de um fotografo que trabalhava para a Fundação, sem que os internos nada pagassem por isso.
Outra iniciativa nascida depois das reuniões para confecção do estatuto foi a de criar uma espécie de banco de empregos dentro do Projeto. A iniciativa visava dar emprego aos muitos desempregados que existiam ali e consistia em conseguir parceria com empresas.
O Projeto, através das assistentes sociais, indicaria os candidatos aptos para cada função. Embora tenham acontecido alguns contatos entre as assistentes socais e empresas interessadas na parceria, nada de concreto foi realizado nesse sentido.
Apesar de todas as dificuldades, a casa parecia ir, aos poucos, entrando nos eixos. Lentamente começaram a chegar pessoas mais calmas e com objetivos mais definidos, isto é, ficar ali até conseguirem pagar por sua moradia.
As lideranças também estavam fortalecidas e isso fazia com que eu tivesse um contato quase que diário com as assistentes sociais. Mais com a Isabel, do que  com a Blandina. As duas tinham temperamentos diferentes. Enquanto Blandina mantinha uma considerável distância dos internos, Isabel era mais próxima. Parecia mais interessada que aquilo tudo desse certo. Era também a mais inflamada das duas, embora Blandina fosse mais intransigente na hora de resolver qualquer questão. Para  Isabel o interno estava acima de tudo. Para Blandina, as regras estavam acima de tudo. Independente disso, o trabalho delas não entrava em choque, pelo menos não cheguei a presenciar nenhum tipo de situação que me levasse a pensar o contrário.
Esse contato tão próximo me fazia ficar mais  inteirado das coisas. Conheci mais a fundo os problemas da casa e isso me levou a uma constatação que fez mudar ainda mais minha maneira de agir ali dentro. A Casa de Acolhida era um projeto pioneiro, um teste do qual dependia a  abertura de outras casas como aquela para atender a todas as pessoas que viviam nas ruas. Vinha daí a explicação para o uso da palavra “Projeto” na frente do nome “Casa de Acolhida”. Isso fez com que eu me sentisse um tanto responsável por sua continuidade.
Agora mais do que nunca iria lutar para que tudo desse certo. Tinha, é lógico, o meu interesse particular de que a casa durasse pelo menos mais quatro ou cinco meses, o tempo que me restava ali, mas acima de tudo pensava no bem que faria a outros, se viesse a dar frutos. Creio que não só eu, mas todos pareciam imbuídos do mesmo objetivo.
A ideia de deixar de pensar simplesmente em si e dar espaço para o coletivo tomou conta de todos. Era comum ver todos trabalhando para que tudo desse certo. Esse espírito rendeu outras mudanças como a construção de uma sala para o serviço social que, com isso, buscava mais independência para o trabalho de atendimento ao interno. Essa sala foi construída pegando uma parte do refeitório. A construção, também em madeira, como todo o resto, foi feita por um interno. Ele era um senhor de uns sessenta e poucos anos, tinha sérios problemas de bebida, mas entendia de marcenaria.
Na mesma sala passou a funcionar também uma biblioteca. A iniciativa partiu da Isabel que conseguiu algumas doações de livros e revistas. O acervo foi completado com doações dos próprios internos. Fui escolhido para catalogar tudo e acabei fazendo o papel de bibliotecário. Separei os livros e revistas por ordem de assunto e fiquei responsável por emprestar e receber os livros e revistas de volta. Isso me obrigou a criar um fichário e ter controle do que entrava e saia, bem como a conservação do material. Entre as doações também havia brinquedos tipo passatempo como quebra-cabeças, dominó, etc. 
O dominó passou a ser a grande diversão de todos. À noite, depois da sopa, a pedida era uma partida de dominó. Chegou-se a ter duplas que eram difíceis de serem vencidas como o Chagas e o Menor, por exemplo. Novamente se cogitou comprar um aparelho de televisão, mas a   lembrança da experiência fracassada ainda era muito forte e não foi adiante.
Essas mudanças não fizeram do Projeto Casa de Acolhida nenhum paraíso, porém facilitou em muito a vida ali dentro. Os problemas existiam e não eram poucos, mas havia no ar uma vontade de mudança.
E era isso que também acontecia em relação aos alcoólatras. Eles eram muitos e isso constituía, talvez, o maior problema enfrentado ali. O alcoolismo era o responsável por dificultar o relacionamento não só entre os internos como entre o interno e os funcionários. Em suma, era a bebida a causa das confusões e dos, ainda, constantes desligamentos. Era triste ver um colega que até era boa gente, prestativo e amigo ser desligado porque bebeu um pouco mais e arranjou confusão. Na tentativa de resolver o problema, as assistentes sociais acabaram acatando a sugestão dos internos, Jorge Cozinheiro e um recém-chegado chamado Sérgio, ambos do quarto cinco, de convidar um membro dos Alcoólicos Anônimos para dar uma palestra no Projeto.
Numa noite, recebemos a visita de um representante dos Alcoólicos Anônimos que nos falou sobre os perigos do vício e nos alertou para o fato de que todo mundo é um alcoólatra em potencial. Segundo ele, para ser alcoólatra bastava beber mais de um copo. Isso me deixou um pouco apreensivo. Apesar de não me considerar um alcoólatra, eu bebia bem mais do que dois copos.
A reunião foi bastante proveitosa. O membro do AA deu seu próprio depoimento, dizendo-se um alcoólatra que havia se recuperado graças à entidade. Salientou que era preciso ter coragem para assumir que era viciado e que era esse o primeiro passo a ser dado.
O interno Jorge Cozinheiro deu seu depoimento e confessou que era alcoólatra. Motivo que o fazia estar ali, apesar de ser carioca. Por causa do vício, ele foi expulso de casa pelos pais e acabou vivendo na rua como mendigo, tendo encontrado a saída ao procurar ajuda no AA. Depois disso, encontrou uma profissão, a de cozinheiro, daí seu apelido, e estava reconquistando a confiança da família.
No final, foi a vez do Sérgio falar. Ao contrário do Jorge, ele se disse viciado em drogas. Adotara a filosofia dos Alcoólicos Anônimos e já estava fazendo progresso. O emprego num hotel na Rua Senador Dantas, no centro do Rio, era prova disso. A reunião contou ainda com a presença da Isabel e de alguns funcionários. Infelizmente, muitos internos que precisavam de ajuda não se interessaram pela reunião.
Com todo esse clima favorável, voltei a pensar em Saudades da China. A Cláudia tinha agendado uma apresentação da peça na quadra da Escola de Samba Imperial, em Comendador Soares, na Baixada Fluminense. O público reagiu bem ao espetáculo e isso fez nascer em mim a vontade de continuar. Só que não havia espaço. Apresentá-lo num teatro convencional estava totalmente fora de cogitação. O preço de aluguel de teatro inviabilizava qualquer tentativa e ainda me faltava a infraestrutura. Eu não tinha condições para peitar um teatro, ainda mais sozinho. Porém, num espaço alternativo talvez fosse possível. Foi então que pensei em apresentar a peça no Projeto.
Falei com a Isabel e a Blandina. Elas gostaram, mas pediram para ver o texto, antes de tomarem qualquer decisão. Entreguei uma cópia para elas e depois de se mostrarem um tanto desconfiadas do que seria realmente o espetáculo resolveram arriscar. Voltei então a fazer os ensaios no refeitório. Isso despertou a atenção de todos e fez com que eu tivesse outra ideia: a de fazer com que alguns internos tomassem parte do espetáculo. Embora tratasse de um monólogo, não foi difícil encaixá-los.
Semelhante à época da festa junina, a casa ficou em polvorosa. Os internos participavam ativamente e o serviço social dava total apoio. De repente,  tudo tomou uma dimensão que eu não esperava. De uma simples apresentação, tínhamos o nascimento de um grupo teatral. Até nome ele ganhou. Foi batizado de  “Os renascentes”, numa alusão a própria condição de cada um, como explicava José Teles, que sugeriu o nome do grupo, quando perguntado sobre o seu significado.
Do grupo participavam o Chagas, o Valdecir, o José Teles, o Geraldo e o Menor. Esse último, seu nome verdadeiro era Renato, mas pelo fato dele parecer novo demais, o mais novo de toda a turma, era chamado de “Menor”. Na verdade era “De Menor”. Apesar de ele afirmar que já tinha vinte anos. Além de atuar cada um tinha outra função. O Chagas era responsável pela iluminação e o som, o José Teles, desenhista, cuidava dos cartazes, o Valdecir  era uma espécie de diretor de cena, o Gerado e o Menor eram da divulgação.
O dia da apresentação, 28 de agosto de 1991, foi como um dia de festa no Projeto. O palco foi montado no refeitório. Isabel resolveu cobrir todas as paredes com manchetes de jornais. De jornal também foram feitas as roupas dos atores internos. Em cena, eles tinham a função de ser a consciência do personagem Zé da Silva. Criei marcações fáceis, mas de bastante efeito, para que a presença deles no palco não parecesse uma coisa arranjada. Tudo transcorreu de forma perfeita. Tivemos um público razoável. Além de alguns convidados, como a Lúcia Helena, chefe das assistentes sociais do albergue da Harmonia. A maioria dos internos gostou do espetáculo. Apenas salientaram o fato de que já  conheciam bem a história, pois muitos a viviam na própria pele.
Dias depois uma visita inesperada. Cláudia, a dona da voz da Dorinha, como era conhecida por todos do grupo de teatro, apareceu no Projeto sem aviso prévio. Eu já a tinha convidado várias vezes, ela prometia e não vinha. Como eu avisava a todos, eles sempre me cobravam quando ela não aparecia. Chegaram a duvidar de sua existência. Naquela noite ela estava lá em carne e osso, para alegria de todos.
Todo aquele período ainda duraria por algum tempo, mesmo com os ventos soprando contra. E era a incansável Isabel que não deixava a peteca cair. Ela trouxe para nós um convite da Lúcia Helena para que apresentássemos a peça no albergue João XXIII, na Praça da Harmonia. A possibilidade de voltar àquele lugar depois de ter passados lá dias tão ruins não chegou a me animar. Tinha medo de  não conseguir fazer com que o meu trabalho rendesse bem por causa das lembranças que ainda eram fortes.
Mesmo assim, concordei com a apresentação e ela acabou acontecendo numa noite após a sopa. Foi no refeitório do albergue e recebeu o mesmo cuidado que a apresentação acontecida no Projeto. No dia, fomos para lá cedo e desde a chegada encontramos problemas com os funcionários. Muitos chegaram a nos repreender por estarmos circulando dentro do albergue. Quando dizíamos o que estávamos fazendo ali, eles se desculpavam um tanto contrariados.
A apresentação transcorreu bem. Novamente tivemos uma plateia de albergados e alguns convidados. Somente eu não estava bem. Acho que fui péssimo em cena. Como ator, eu jamais desejei tanto que um espetáculo chegasse ao fim. O fato de estar dentro do albergue não me fez bem. Tinha jurado para mim que jamais pisaria naquele lugar novamente e mesmo numa situação diferente não deixei de ficar perturbado.
A peça ainda voltaria a ser apresentada. E mais uma vez em Nova Iguaçu. Só que numa outra casa. No  Espaço Calabouço, da Casa de Cultura de Nova Iguaçu, no centro da cidade. A casa era mais voltada para a poesia. O espaço era bastante alternativo e por isso encontrei alguma facilidade em agendar o espetáculo para o dia 29 de setembro de 1991, um domingo.
O dia amanheceu ensolarado e apesar de ter trabalhado durante a noite no jornal, acordei cedo. Fomos todos juntos para Nova Iguaçu. Pegamos o trem na Central do Brasil por volta de meio dia. Para essa apresentação, tudo foi remodelado. Afinal, era a primeira vez que o grupo iria se apresentar fora dos domínios  da Fundação. Era preciso caprichar. Além do que íamos cobrar ingressos. Tinha que ser uma apresentação mais profissional. Por isso, fizemos algumas mudanças. Isso gerou certo nervosismo em todos.
Entre as mudanças estava a entrada do Valdemir substituindo o Valdecir que agora cuidava do som. Valdemir, também conhecido como “Índio”, era um interno que tinha acabado de chegar. Soube do grupo e se ofereceu para fazer parte. Dessa vez, consegui que saísse nos jornais da baixada e a Cláudia, que trabalhava num pequeno jornal chamado “O Estadão de Belford Roxo”, nos deu muito apoio. Coube ao Antônio, o plantonista, fazer os cartazes em silkscreen. Novamente, a Isabel nos acompanhou. Sempre registrando tudo com sua máquina fotográfica. Alguns internos também foram. Entre eles o Cláudio e o Chileno.  Chagas  levou uma senhora de nome Lúcia, que apresentou como sua namorada. Era bem mais velha do que ele. Ela mostrou-se prestativa e solícita.
Dois incidentes marcaram a apresentação. Geraldo, num descuido caiu do palco e a voz da Dorinha, que era feita pela Cláudia, não entrou. O pior é que a dona da voz estava na plateia e eu tinha pensado em fazer uma surpresa. Não deu.
Após a peça teve início um pequeno debate, onde eu tive que falar um pouco sobre a peça e o que me levou a  escrever o texto. A grande curiosidade de todos era saber se aquela era a história da minha vida. Expliquei que não e que tive a ideia ao sentir necessidade de fazer alguma coisa que expressasse a minha profunda indignação com tudo o que me cercava. O resultado tinha sido aquela peça. Perguntaram sobre a minha vida e como tinha chegado até ali. Respondi a tudo com prazer.
Pela primeira vez, a peça cumpria o seu papel ao encontrar uma plateia com distanciamento bastante para poder discutir e entender sua temática. Saí de Nova Iguaçu com a alma lavada.
Quando chegamos ao centro do Rio, depois de levarmos Isabel ao ponto de ônibus, fomos para um bar, na Avenida Mem de Sá, onde comemoramos o nosso “sucesso”.


 AS PEDRAS DO CAMINHO

 
Apesar de estar totalmente envolvido com as questões do Projeto, eu não me descuidava dos meus interesses pessoais. Tinha traçado metas que só seriam concluídas quando eu conseguisse um emprego que me permitisse sair definitivamente dali. E para que isso acontecesse, parei de trabalhar na obra e fiquei apenas com o serviço do final de semana no jornal O Dia. O que ganhava dava para me manter. Isso permitia que durante a semana eu pudesse procurar emprego com mais tranquilidade. O restante do tempo que sobrava eu dedicava a casa, sempre procurando ser útil em alguma coisa.
A aproximação com o serviço social e minha atuação junto aos internos, fosse com o grupo de teatro ou em qualquer outra função, me rendia uma boa popularidade. Não havia quem não me conhecesse. Porém, essa popularidade trazia também um grande inconveniente que era a antipatia que despertava em alguns. Uma pequena turma de internos e até mesmo de funcionários.  Como as assistentes sociais não ficavam ali todo o tempo, embora estivessem sempre por dentro de tudo que acontecia, julgavam que fosse eu a pessoa que as mantinha informadas. Eu e todos que faziam parte da turma que ficou conhecida como “pessoal do teatro”. Termo que era usado, muitas vezes, de maneira depreciativa. Na verdade,  éramos vistos como uma espécie de fiscais do Projeto. Chegavam a interromper conversas ou atos de insubordinação quando percebiam nossa presença, temerosos de que fossem dedurados. O que, de certa forma, eles até que tinham razão. Nosso interesse era que a casa funcionasse bem. E era para isso estávamos trabalhando.
Entre esses funcionários antipáticos a nós, além de alguns plantonistas e das cozinheiras, estava o Coordenador José Luís. Eu não entendia bem o motivo, mas ele não estava muito satisfeito com todas aquelas mudanças. Apesar de inicialmente ter se mostrado simpático e até chegado a colaborar, aos poucos foi mostrando que a coisa não era bem assim. Passou a criticar abertamente o trabalho das assistentes sociais e quando possível até boicotava, interpondo-se no trabalho delas junto aos internos, chegando a permitir a presença de elementos que haviam sido desligados ou cujos prazos de permanência tinham chegado ao fim.
Havia uma turma de cinco ou seis que estavam com seus prazos terminados. Eles eram o Fábio do Biscoito, o Pará, o  Formigão, o Neguinho e o China. Todos estavam ali desde a inauguração, em fevereiro. Quando, segundo narrava o Fábio, teria sido o único dia em que realmente a casa funcionou direito. Contava ele que a casa foi inaugurada com um lauto almoço com a presença de autoridades e da imprensa.
- Fizeram tudo bonito. Só para tirar fotografia. Depois da inauguração, nunca mais teve um almoço daqueles. - ele afirmava.
E concluía que era pioneiro e que, portanto, tinha direito de permanecer na Casa. Além de salientar, também, seu bom comportamento e o fato de ser um trabalhador. Na verdade, ele era uma espécie de empresário. Vendedor de biscoitos, ele tinha bancas em vários pontos da cidade e para mantê-las contratava os serviços de alguns internos. José Teles trabalhava com ele, por exemplo. Fábio era um amazonense baixinho e bom de argumentos.
Como ele, os outros apresentavam seus motivos para não sair. Pará, Formigão e Neguinho diziam não serem só internos, mas funcionários do estacionamento que funcionava ao lado e que, segundo eles, cedera o terreno para a construção da casa. China, um nordestino que de chinês não tinha nada, por sua vez, não sairia enquanto os outros não saíssem. China era uma figura peculiar. Dizia-se casado e morador da Baixada Fluminense, para onde dizia ir todos os fins de semana. Trabalhava num estacionamento da CODERTE e vivia esbanjando dinheiro. O que me fazia pensar que ele não tinha necessidade de estar ali. Quarentão, moreno, tinha o costume de se drogar, assim como fazia o Pará, o Formigão e o Neguinho. Nessas ocasiões, China, de quem eu nunca soube seu verdadeiro nome, ficava violento ou simplesmente deitava na cama e passava a noite inteira falando coisas desconexas, como se estivesse louco. Isso perturbava o sono de todos no quarto.
Embora os quatro fossem as verdadeiras ovelhas negras do Projeto, jamais se conseguiu fazer qualquer coisa contra eles, mesmo sendo eles responsáveis por quase todas as ocorrências que se davam ali.
A explicação estava no fato deles serem amigos do Coordenador. Ele os defendia a cada vez que se tentava colocá-los para fora. Porém, com o fim de seus prazos de permanência as assistentes sociais estavam fazendo pressão. Eles precisavam deixar o Projeto para então dar a vaga para outros que estavam na fila.
Outro grande problema, e que também incluía o Coordenador, era a venda de produtos dentro do Projeto, proibida pelo estatuto. No entanto, vinha acontecendo cada vez com maior frequência. Começava pelo Fábio que comercializava seus biscoitos abertamente. Praticamente todos os internos, incluindo eu, compravam seus biscoitos. Eles eram uma espécie de complemento alimentar para todos. Principalmente quando a sopa não era servida. E tinha o fato de que ele vendia fiado. Isso fazia com  que até as assistentes sociais fechassem os olhos para a questão.
Por outro lado, elas faziam pé firme na questão da venda de refeições feita pelas cozinheiras dona Maria e dona Terezinha. As duas passavam por cima da proibição e vendiam comida em seus plantões. Diziam fazer isso porque o Coordenador não deixava suprimentos para elas fazerem a sopa e elas compravam tudo com o dinheiro delas. Por isso, tinham que cobrar pela comida oferecida.
O problema era que nos outros plantões sempre havia comida. Mesmo que fosse uma sopa rala de poucos condimentos. E aí estava o ponto da polêmica que fez nascer a suspeita de que elas usavam o material da sopa para fazer a comida que vendiam. Além do gás que era do Projeto.
Polêmica à parte, todos gostavam da comida caseira que elas serviam. Como todos ali estavam fora de casa nada melhor do que aquela comidinha para matar a saudade. Depois de comer pela primeira vez, fiquei freguês. Cheguei a falar com as assistentes sociais para liberarem, argumentando sobre a importância que isso tinha para nós, mas elas bateram o pé. Eram contra e não tinha conversa. Afirmavam que atitudes como essa só serviam para colocar em descrédito o trabalho do Projeto.
Dona Maria, era uma senhora muito popular. Gostava de conversar com todos e aos domingos vinha acompanhada do marido e familiares para realizar  cultos evangélicos no Projeto.  Por sua vez, dona Terezinha era mais calada, de poucos amigos.
Mais tarde outras cozinheiras iriam aderir à ideia de vender comida. E uma delas foi dona Irene, uma mulher espalhafatosa, de fala grossa, mas de grande coração. Dona Irene vendia salgados que fazia em casa, geralmente, no café da manhã. Aos poucos, tornou-se uma grande mãe de todo mundo. Sempre passional e engraçada, lembrava uma mama italiana dessas de novelas. Rezava terços junto com o plantonista Aílton, outra figura bastante peculiar, e contava que se casou num programa de televisão.
Junto com eles, trabalhava Vera, uma cozinheira gorda e relativamente jovem que usava um batom muito vermelho e que gostava de se insinuar para os internos. Os outros plantonistas e cozinheiras como seu Edilon, dona Teresa, Chiquinho, Aparecida, Paula, Gaspar, Ernani, Valentin  e Antônio não faziam nada além de cumprir os seus plantões. Alguns com mais eficiência, outros com menos, mas sem criarem grandes polêmicas, apesar dos constantes envolvimentos que existiam entre funcionários e internos, sobretudo, com os plantonistas. Era comum que eles saíssem para beber com os internos. Quase sempre deixavam o Projeto nas mãos de algum interno. Quando acontecia alguma ocorrência grave, e elas eram comuns, eles nem sempre estavam presentes.  Não raro, essa amizade acabava em confusão e, consequentemente, em expulsões.
Talvez isso se desse com tanta frequência pelo fato de que o convívio entre internos e funcionários fosse muito próximo. Outro dado comum era o de muitas vezes o plantonista  ou qualquer outro funcionário ser tão ou até mais problemático que os internos. Havia, entre eles, casos de alcoolismo, dependência química e outros. Isso tornava a vida no Projeto um tanto difícil, gerando uma forte insegurança.
Com o tempo já era possível saber qual era o plantão mais tranquilo ou o mais agitado. E diante disso aprendi como agir em cada um deles para não arranjar problemas.
A bomba de sucção que puxava água da rua para o Projeto desapareceu. Essa ocorrência se deu no plantão do Antônio. O Coordenador foi comunicado e apareceu para apurar o que tinha acontecido. As suspeitas recaíram sobre os internos. Instalou-se um clima de suspeitas e acusações. Muitas histórias passaram a ser contadas.
Havia interno que jurava que tinha visto o Pará roubá-la, outro afirmava que o próprio Coordenador mandou retirá-la. O certo é que nada ficou provado. E apenas o Antônio viveu a ameaça de um inquérito administrativo não consumado. Isso gerou um problema sério. Sem a bomba não tinha água.
O impasse durou  alguns dias. A solução veio através do vizinho, o dono da oficina mecânica em frente. Era chamado de Ruço e, numa atitude benevolente, resolveu fornecer a água de sua oficina mecânica. A oficina funcionava no velho prédio que dava para a Rua Dom Pedro I e ficava na frente do Projeto.
Inesperadamente, o Coordenador  passou a frequentar mais o Projeto. Se antes ele apenas entrava e saía rápido, agora  era comum vê-lo por lá. Parecia disposto a colocar a casa nos eixos. Como se de repente tivesse acordado e tomado consciência que seu trabalho era um tanto quanto medíocre.  E começou apresentando um policial, de meia idade, que teria a função de ajudá-lo a manter a ordem. Esse policial já era conhecido de todos os internos. Tinha o costume de entrar nos quartos, pela manhã, acordando quem estivessem dormindo. E dizia fazer isso à mando do Coordenador que não queria saber de ninguém dormindo durante o dia. Bastava estar dormindo e lá vinha o policial com um discurso na ponta da língua e o seu cassetete na mão. Isso criou um problema para aqueles que trabalhavam à noite e precisavam dormir de dia. E mais uma vez colocou o Coordenador em choque com o serviço social. A permanência do interno no Projeto, durante o dia, era acertada com elas.
A chegada de um caminhão de alimentos movimentou o Projeto. Chegou de uma hora para outra estacionou do lado e alguns homens começaram a descer as mercadorias: sacos de leite em pó, arroz, açúcar, farinha,  feijão, latarias e salgados. Foi uma doação de um supermercado do Rio. Tudo foi recebido com grande entusiasmo e logo foi possível ver os funcionários encherem suas bolsas e levarem para suas casas. E quando alguém se colocava contrário àquela atitude, diziam estar há anos sem receber aumento de salários. Alguns usaram essa ocasião para dizerem que a situação deles não era diferente da nossa. Em muitos casos disseram que estavam passando por privações tanto ou mais do que nós. Apesar desse saque explícito ainda sobrou muita coisa. A despensa do Projeto ficou abarrotada. Com isso voltou a ser servido o café da manhã e a sopa passou a ser um prato mais apetitoso. Período em que o Coordenador podia ser encontrado no refeitório lembrando a todos que aquela doação tinha sido conseguida graças aos seus esforços. Essa era a prova maior do seu trabalho.
Porém, o Baiano reivindicava  para si esse feito. Baiano afirmava que aquele caminhão de alimentos foi dado a ele, mas como ele não tinha o que fazer  com tudo aquilo, resolveu passar a doação para o Projeto. Os dois discutiam muito e sempre que podiam um desmentia o outro, nunca chegando a um acordo quanto ao verdadeiro benfeitor. O mais acertado é que não tenha sido nem um nem o outro.
Novamente fomos convidados a fazer uma apresentação com o grupo. Dessa vez, queriam uma peça infantil para apresentar para as crianças do albergue da Harmonia. Pensei em alguma coisa e no final acabei escrevendo uma peça infantil: “Em busca de uma grande aventura”.  Escrevi a peça sob medida para os integrantes do grupo, até no número de personagens. E contava a história de duas crianças de zona sul que resolvem fugir de casa e acabam vivendo uma aventura nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Tão logo a peça ficou pronta começamos a ensaiar.
Inadvertidamente, resolvi convidar a Lúcia para participar da peça. Lúcia era a namorada do Chagas e, por isso, estava constantemente no Projeto. Fato que me levou a fazer o convite, pois ela estava sempre presente nos ensaios. Logo eu iria me arrepender. Lúcia era uma pessoa problemática. Como o Chagas, ela bebia muito e era usuária de drogas. Embora se fizesse passar por uma pessoa muito equilibrada, chegando a oferecer ajuda às assistentes socais. Porém, era fácil perceber que era uma desatinada. Chegou a pedir para morar no Projeto.  Para, segundo ela, tomar conta de nós.
Além desse, outro problema atrapalhou o desenvolvimento do trabalho: o alto índice de analfabetismo da turma. A maioria mal sabia assinar o nome. E como havia texto para ser decorado, ficou impossível. Com isso optamos por fazer um trabalho de improvisação. Ideias boas surgiram e chegamos a montar alguns esquetes, mas acabaram morrendo no nascedouro.
A inesperada assiduidade do Coordenador foi logo entendida. O serviço social chegou com a notícia de que a Fundação Leão XIII tinha um novo diretor. Ele se chamava Major Heleno, era da polícia, e tinha acabado de ser nomeado pelo governador Leonel Brizola. Segundo elas, isso representava a esperança de que as coisas entrariam nos eixos. Todos os problemas da casa seriam resolvidos.
Para confirmar o que elas falaram, recebemos a visita de um grupo de pessoas que se diziam parte da diretoria da Fundação. Vieram em nome do diretor. Entre eles estava uma senhora de nome Carmem. Ela disse que o Major viria pessoalmente e que ele já tinha ouvido falar do trabalho do grupo de teatro e queria muito nos conhecer. Ficamos todos muito empolgados com suas palavras elogiosas e jamais poderíamos desconfiar do que viria depois daquela visita. 
Dias depois, durante uma madrugada fomos despertados por um batalhão de soldados da polícia militar que invadiram os quartos, vasculhando todos os nossos pertences e dando geral em todo mundo. Debaixo de gritos, fomos obrigados a deixar os quartos e ficar de pé do lado de fora. Ninguém entendeu direito o que estava acontecendo. Quem fazia alguma pergunta era logo repreendido. Pareciam estar à procura de alguém ou de alguma coisa. Feito isso foram embora sem levar nada nem ninguém.
A partir daquele dia, essas batidas passaram a ser quase que diária, deixando todo mundo muito apreensivo. Assim ficamos conhecendo as mudanças que o novo diretor estava implantando. Segundo informação, aqueles policiais vinham por sua ordem, depois que ele recebeu denúncias de roubos ou outras infrações cometidas pelos internos nas imediações da Praça Tiradentes. Parece que a vizinhança, sobretudo os comerciantes, não apreciava muito o fato de ter aquela unidade da Fundação Leão XIII tão próxima.
Outra mudança que viria a ser sentida seria com relação aos funcionários, principalmente as cozinheiras. Elas eram obrigadas a dormir no Projeto e recusavam a fazê-lo alegando que não havia acomodações para elas, o que era verdade. No entanto, elas passaram a dormir na casa e a fazerem o café da manhã  pontualmente. Só iam embora quando eram rendidas por outras. Os plantonistas também passaram a ficar mais no Projeto e a fazer questão de que assinássemos o livro de presença, exigência há muito tempo tinha sido esquecida. Antes, o único que sempre fazia questão era o Aílton. Ele era capaz de acordar um interno, alta hora da madrugada, se percebesse que ele não tinha assinado no livro.
Nesse período fomos procurados por uma jornalista e um fotógrafo. Diziam ser de uma revista de São Paulo e queriam fazer uma matéria sobre a vida dentro do Projeto: como vivíamos ali, que tipo de assistência nós recebíamos, por que estávamos ali e quais eram nossos objetivos. Isso foi, mais ou menos, o que a repórter quis saber. 
Fui apresentado a ela pela Isabel, que me convenceu que seria importante dar uma entrevista falando do Projeto e do grupo de teatro. Apesar de ter ficado um pouco receoso resolvi dar a entrevista e a coloquei em contato com os outros integrantes do grupo. O único senão foi na hora das fotos. Ninguém quis saber de posar para fotografia. A possibilidade de ser reconhecidos através das fotos publicadas na revista deixou todos temerosos. Afinal, suas famílias não sabiam que estavam naquela situação. Pela mesma razão, também me recusei a posar. Quanto à reportagem nunca soube se saiu ou não. Na verdade, nunca soube nem mesmo o nome da revista.
A atitude coletiva de não querer posar para fotos e se expor me fez pensar num fato: eu estava há mais de um ano sem fazer contato com minha família e embora evitasse pensar no assunto não podia negar que isso me incomodava. Essa era uma atitude comum entre quase todos os internos. A maioria ou tinha perdido contato de vez com suas famílias ou, como eu, estava sem dar notícias há meses ou anos. Muitos, provavelmente, eram dados como mortos por seus familiares. Isso ficou claro quando apareceu no Projeto a mãe do José Teles. Ela procurava há meses pelo filho. Foi um emocionante reencontro de mãe e filho. Outro que foi “encontrado” no Projeto foi o Leandro. Ele era um rapaz negro, magro, relativamente alto e devia ter por volta de vinte anos, gostava de andar sempre bem vestido e dizia trabalhar na recepção de um hotel. Só que a verdade era outra. Leandro era garoto de programa. Um dia seus pais, que viviam no interior do estado do Rio de Janeiro, apareceram e o levaram de volta para casa.
No meu caso, eu tinha decidido que só entraria em contato com a família quando estivesse numa situação estável. E para isso precisava arranjar logo um emprego de carteira assinada. Só que essa procura não estava nada fácil.
         


NO MEIO DO CAOS

 
Como já disse, o Projeto era um local aberto sem muita proteção. Isso facilitava a aproximação das pessoas que viviam ou trabalhavam por ali perto. Da Praça Tiradentes vinham os ladrões, as prostitutas e os travestis. Esses últimos gostavam de usar o estacionamento para seus encontros com clientes, cheirar cocaína, ou mesmo para fazer acertos de contas uns com os outros. Era comum vê-los brigarem por ali. Geralmente, usavam estiletes e essas brigas terminavam com um cortando a cara do outro. O Projeto atraía também as pessoas desabrigadas, ou mendigos que iam até lá em busca de sopa ou mesmo de um lugar para ficar. Muitos iam ficando por ali mesmo ou se tornavam habituais frequentadores da casa.
Todavia, era um velho conhecido de todos que mais atraía pessoas para o Projeto. E ele era o Baiano. Aquele mesmo que ficava sentado no refeitório fazendo seus entalhes na madeira e provocando toda aquela sujeira. Pois é, ele continuava lá. Ele e seus garotos. Começou com um menino que mais tarde viria a ser apelidado de Baianinho, devido a semelhança física entre eles. Baianinho, que tinha  uns treze anos, logo conquistou a todos.
Porém, ficou mesmo conhecido foi pelo hábito que tinha de aproveitar qualquer descuido para entrar nos quartos e praticar pequenos furtos. Como fez  com a câmara fotográfica do Valdecir. Ele  roubou a máquina e a vendeu para uns garotos que viviam nas imediações do aeroporto Santos Dumont. Onde Valdecir foi buscá-la depois de apertá-lo e ouvir sua confissão. Fato que ele denunciou às assistentes sociais e só veio reforçar a posição contrária que elas sempre tiveram da presença do Baiano na casa.
Baiano não ficaria somente com o Baianinho. Aos  poucos foram chegando outros garotos. Chegavam e se instalavam por ali. Uns eram dóceis, porém outros eram verdadeiros marginais. Ali dormiam, cheiravam cola e roubavam.
Com o tempo descobri que o Baiano tinha interesse em cuidar dos meninos de rua. E parecia estar empenhado nisso. Dizia que já tinha comandado um abrigo para menores que, segundo ele, ficava na Rua República do Líbano. Chegou a arrebanhar alguns internos e funcionários para com ele tentarem retomar a tal casa. Ele afirmava que o diretor do abrigo havia tomado seu lugar usando de meios escusos. Numa noite, vi quando ele, uma turma de crianças, alguns internos e funcionários saíram armados de paus e pedras para retomarem a casa usando a força. Segundo Baiano, eles chegariam, botariam o diretor para fora e o lugar seria dele novamente. Ali, ele instalaria todas aquelas crianças e todos ficariam bem. Até empregos prometia para quem apoiasse a sua causa. 
Não foi isso o que aconteceu. Voltaram sem nada conseguir e se  instalaram de vez no Projeto. Agora não era apenas o Baianinho e os outros, mas um bando de crianças. Garotos e garotas vivendo no meio dos internos. E esse não era, definitivamente, um bom convívio. Quase sempre tinha confusão envolvendo garotos e internos.
Esse representava  mais um problema para as assistentes sociais. E não era só o constrangimento da presença deles ali dormindo jogados pelos cantos da casa, mas o de ver mães em busca de seus filhos. Elas vinham procurá-los e, em alguns casos, eles estavam ali. Baiano os escondia de suas próprias  mães que, desconsoladas, voltavam para suas casas sem os filhos.
Até a cozinheira dona Maria entrou nessa história. Ela chegou a adotar um dos garotos do Baiano. Aliás, dois. Levou-os para casa e passou a cuidar deles. Os meninos, que estavam sujos e malcuidados, passaram a frequentar o Projeto limpos e bem vestidos. Todo plantão dona Maria os trazia. Vendo isso, Baiano tratou de tê-los de volta com falsas promessas. Um deles logo retornou para a sua companhia, deixando a casa de dona Maria. O outro, no entanto, ficou com ela. Aos domingos era possível vê-lo na companhia dos pais adotivos lendo trechos da Bíblia, durante os cultos. A cena deixava Baiano muito irritado, fazendo crer que sua intenção com os garotos não era das melhores.
A partir desse episódio, ele se tornou uma pessoa não muito grata para todos. Passou a ser visto como explorador de menores. Isso se confirmava quando os menores eram vistos roubando ou pedindo esmolas nas ruas e depois entregavam todo o dinheiro para ele. Quando isso acontecia era fácil de notar, pois Baiano sempre saía para jantar ou dormir fora.
No mais, ele continuava ali, brigando e esbravejando. Agindo, muitas vezes como um louco insano. Nessas ocasiões, dizia ser amigo particular da esposa do governador, dona Neusa Brizola. Ela era a madrinha do projeto revolucionário que ele tinha para tirar todas as crianças da rua. 
- Só eu posso acabar com o problema do menor abandonado no Rio de Janeiro. – ele afirmava.
No meio de tudo isso, não era difícil aceitar que o Projeto tinha perdido a tranquilidade que havíamos conquistado com muito trabalho. Já não era mais possível acreditar que o novo diretor da Fundação daria jeito em alguma coisa. Haja vista os seus métodos.
A saída foi tentar acelerar o meu lado. E por ainda não ter conseguido o emprego  de carteira assinada, eu voltava a ficar preocupado com o meu futuro. Logo o meu prazo de permanência também estaria acabando e, do jeito que as coisas estavam, era possível que nem chegasse até o fim.
A convivência entre menores de rua, bêbados, drogados, marginais foragidos, internos e funcionários não era o que se podia classificar de pacífica, mesmo com certa tolerância que passou a existir. Já não se via os arroubos dos primeiros dias e até os inveterados defensores da boa ordem se metiam em confusões.
Um indivíduo que estava vivendo escondido no Projeto me jurou de morte. Ele dizia ser de uma favela em Bangu, onde teria se envolvido em briga  com outros bandidos da área para tomar o controle do tráfico. Vivia armado e não fazia questão de esconder isso. Estava sempre mostrando um revólver tipo trinta e oito. Tudo se deu quando eu tentei impedi-lo de se instalar no meu quarto sem o conhecimento do serviço social. Ele não gostou e partiu para cima de mim dizendo que ia me dar um tiro. Seus gritos atraiu a atenção dos internos que foram chegando. Creio que isso o deixou intimidado e ele não atirou.
Fiquei muito assustado com o episódio e pedi ajuda às assistentes sociais que disseram nada poder fazer. Ofereceram como alternativa que eu voltasse para o albergue da Praça da Harmonia até as coisas acalmarem. Essa alternativa, para mim, estava completamente fora de questão. Se tivesse que voltar para lá, ia preferir a rua. Tinha prometido a mim  que para aquele lugar eu não voltaria. Não por que não fosse um lugar bom ou coisa parecida, era porque eu tinha estabelecido uma meta. Voltar para o albergue da Harmonia seria um retrocesso. A saída, então, foi conviver com o perigo. E contar com a proteção de Deus e de amigos como o Chagas e o Valdecir que passaram a me escoltar, cuidando para que eu não ficasse sozinho. Dias depois, o tal indivíduo sumiu sem deixar rastro.
Deficiências do Projeto à parte, em nossas noites ociosas, em geral ficávamos batendo papo até por volta de meia-noite, embora isso fosse contra o regulamento. O horário de todos estarem nos quartos era dez horas. Poucas vezes esse limite foi levado a sério.
Através do livro de presença que, mesmo com toda aquela desordem, ainda tínhamos que assinar, dava para perceber que a maioria era analfabeta ou semianalfabeta. Por isso, chegou-se a pensar em um curso de alfabetização, mas a iniciativa não foi para frente.
Durante os longos bate-papos ia conhecendo um pouco da vida de cada um. Ouvia-se  histórias de alegrias e tristezas. Como a maioria fazia parte da turma do teatro, essas conversas acabavam quase sempre tomando um caráter de trabalho de grupo. Algumas vezes caminhávamos até o Aterro do Flamengo e as reuniões aconteciam no anfiteatro de lá, local aberto próximo à sede da empresa Rio-Luz.
Foi numa dessas reuniões que cada um falou de sua vida, respondendo perguntas do tipo: O que o levou a sair de casa? Por que motivo acabou na rua sem moradia? O primeiro a falar fui eu. Falei da minha obstinação em seguir a carreira de ator profissional, o desemprego, a falta de oportunidades para um ator desconhecido encontrar trabalho, etc.
A seguir, sentados em círculo no anfiteatro, cada um foi falando logo que chegava a sua vez. Valdecir falou do casamento desfeito em Sorocaba, no interior de São Paulo, fato que o deixou muito abalado e o fez sair da cidade. Primeiro, ele tentou viver na capital paulista, mas resolveu aumentar a distância, vindo para o Rio de Janeiro. Aqui ele trabalhava num hotel.
Geraldo falou do seu assunto preferido: a sua opção sexual. Segundo ele, a razão para ter saído de casa foi os seus pais e os muitos irmãos não aceitarem seu homossexualismo, que ele tentou mascarar tornando-se evangélico, mas acabou seduzido por um irmão da igreja. 
Logo  a seguir falou o Renato Holzmeister, ou Menor. Falou da família em Vitória, no Espírito Santo, onde todos ainda viviam. Segundo ele, nasceu do encontro entre um europeu e uma negra brasileira. O pai era um alemão que veio para o Brasil, juntamente com toda a família, fugindo de uma Alemanha arrasada pela segunda guerra mundial.  A mãe era uma capixaba. A avó alemã ainda vivia. Disse que as histórias que ela contava o faziam desejar conhecer a Alemanha. Só não conseguiu explicar o real motivo que o fez sair de casa tão novo, fazendo crescer a dúvida de que ele era realmente menor de idade e que tinha fugido de casa. Renato, como eu preferia chamá-lo, trabalhava comigo no jornal aos sábados e durante a semana com o Fábio do Biscoito, tomando conta de uma banca em frente ao Teatro João Caetano.
Paulo, ou Paulista II, disse que estava no Rio de Janeiro para aprender a viver. Tinha sido viciado em drogas e saiu de casa prometendo à mãe que voltaria regenerado. Sua mãe era dona de um bar num bairro na periferia de São Paulo. Chileno, que era mesmo natural do Chile, falou que chegara ao Brasil com alguns dólares, mas que fora assaltado logo na chegada quando andava por Copacabana. Veio para o Brasil, dentre outros motivos para fazer uma plástica.
- A cirurgia plástica no Brasil é muito adiantada. - afirmava ele.
Já tinha conseguido se operar de graça na Santa Casa de Misericórdia, mas tinha decidido viver no Brasil. Aqui trabalhava com artesanato. Tinha uma banca na praça do Lido, em Copacabana. Falou também das dificuldades encontradas por ser estrangeiro. Não estavam querendo aceitá-lo no Projeto por esse motivo. Segundo ele, teve que conseguir uma carta do consulado do Chile para que fosse aceito. Tudo isso falado com um sotaque muito carregado e uma extrema dificuldade de se expressar em português. Era o único estrangeiro do Projeto.
Em seguida, falou o Cláudio. Para espanto de todos, disse que tinha uma família muito problemática. O pai havia morrido num acidente, mas ainda tinha a mãe, que era esquizofrênica,  e os irmãos. A família já tinha possuído bens, mas todos foram vendidos após a morte do pai. Veio para o Rio para tentar a sorte e quando conseguiu um emprego escreveu para a mãe dando a notícia. Para sua surpresa ela apareceu no seu trabalho dias depois de malas e bagagens para morar com ele. Tinha vindo morar com ele. Só que apesar de estar trabalhando, ele morava na rua. Sem ter como explicar a situação para a mãe, arrumou uma desculpa e a colocou num ônibus de volta para Recife no mesmo dia. Quando falava, se emocionou ao ponto de chorar. Refeito, acrescentou que desde então não vira mais a mãe ou soubera notícias dela e dos irmãos. No momento, sua situação estava diferente, pois finalmente tinha conseguido um bom emprego. Faltava tomar coragem para voltar a ter a fazer contato com a família.
Depois foi a vez de Chagas falar de suas eternas  porra-louquices.  Entre as quais o estranho e divertido triângulo amoroso que ele vivia com Geraldo e Lúcia. Para ser franco, ele explora os dois. No mais, falou que era mineiro de Ipatinga e que sua maior preocupação é que nunca faltasse maconha para ele fumar.
A seguir, alguns que já tinham falado tomaram novamente a palavra e logo a ordem foi perdida. De repente, até os que tinham se negado a falar como o Valdemir, o José Telles e outros resolveram relatar suas histórias. 
E assim sem nenhuma obrigação cada um seguia falando si. A cada encontro desses, e eles foram muitos, todos iam se conhecendo melhor. Isso fez nascer um sentimento de irmandade, de fraternidade entre todos. Era como se ninguém estivesse mais sozinho. Tínhamos uns aos outros para dividir nossas mágoas, queixumes e alegrias. Mesmo que as histórias muitas vezes não tivessem muito nexo e parecessem um tanto estranhas.
E foi nesse clima que num domingo preparamos um churrasco, no próprio Projeto. A turma toda se reuniu e preparou tudo. Além de carne, teve muita cerveja, que era proibida no Projeto. No dia seguinte, o serviço social foi avisado de nossa “insubordinação”. Como não houve nenhum incidente, a denúncia acabou perdendo sua força e foi esquecida.
Como o Projeto já não era um lugar ideal para ficar, a saída era arrumar muita atividade fora dele. Por isso, íamos a cinemas, museus, ao Centro Cultural Banco do Brasil e a toda e qualquer programação gratuita que saía nos jornais.
Outra saída eram as praias, para onde íamos aplacar o forte calor do final de ano. As preferidas eram Copacabana e Ipanema, mas às vezes íamos também à praia do Flamengo. Todo domingo saíamos em turma e passávamos o dia inteiro fora. Geralmente, era um passeio muito agradável e sem incidentes. Valdecir gostava de registrar esses momentos com sua máquina fotográfica. Uma vez reveladas, essas fotografias eram mostradas a todos. O fato de alguém sair mal ou ser muito feio era motivo de muita gargalhada.
Apesar de tudo, as coisas não melhoravam no Projeto. As brigas eram constantes e eu já tinha perdido a esperança de ver aquilo funcionar direito. Alguns internos como o Cláudio, o Sérgio e o Jorge Cozinheiro pediram para sair. Eles alegavam que não tinham mais motivos para continuarem ali. Cláudio estava trabalhando como segurança no Rio Sul e alugou um quarto na Rua Gomes Freire. Sérgio e Jorge foram morar em seus empregos. Até o Geraldo, depois de viver entre Copacabana e o Projeto, decidiu morar no emprego. Muito mais pela decepção de ver seu amado Chagas nos braços da Lúcia do que qualquer outra coisa. 
Os amigos indo embora, a casa deixava de ser aquele lugar agradável de antes.  Tudo foi agravado com a falta de água. Ruço deixou de fornecer água devido ao aumento excessivo de sua conta. Com isso, não havia água nem para fazer a sopa ou mesmo para dar descarga nos banheiros. Banho estava fora de cogitação.
Apesar de todo o caos, Ruço batia o pé e dizia que só forneceria água se a Fundação se responsabilizasse por sua parte na conta, inclusive as atrasadas. Alegava, com toda razão, que não tinha como arcar com tudo sozinho.  Nunca tive notícias se ele conseguiu receber.
Depois de muita negociação, ele acabou concordando em encher a caixa d’água  do Projeto uma vez por dia. Isso fez com que a água passasse a ser objeto de disputa entre todos. E como havia muita gente para tomar banho e usar os sanitários, o jeito era não dormir no ponto. Até as cozinheiras precisavam entrar na briga para garantir a água para a sopa e a lavagem dos alimentos e dos pratos. Se por ventura não conseguiam, não tinha sopa. Porém, difícil mesmo era aguentar o mau cheiro dos banheiros e de outras dependências. Com o forte calor do verão o Projeto passou a ser o paraíso de moscas e outros insetos.
As mudanças continuaram. O Coordenador José Luís foi afastado e substituído pela Blandina. E para o lugar dela veio uma nova assistente social, a Cláudia. Cláudia era uma moça morena, relativamente jovem e iria estabelecer um relacionamento distante entre interno e o serviço social. Não admitia muita aproximação e fazia questão de definir os papéis. O que para o trabalho dela talvez fosse bom, mas não era o que todos estavam acostumados. Como ela se apresentava como chefe, logo Isabel passou a ter o mesmo comportamento. Assim os desligamentos por término de prazo passaram a acontecer com  mais frequência, incluindo os protegidos do antigo coordenador que tiveram que procurar outro lugar para ficar. 
Ironicamente, a maioria saiu do Projeto e foi direto para a rua, passando a dormir pelas proximidades da Praça Tiradentes. Isso, a meu ver, tornava sem efeito o trabalho da casa. Os seis meses passados lá de nada tinham valido.
Num mesmo dia a casa recebeu dez novos internos que vieram ocupar o lugar dos que saíram. Novamente fui procurado pela Isabel. Ela queria que eu me transferisse para um quarto onde só tinha internos recém-chegados. Sua intenção é que eu poderia passar para eles as normas da casa, facilitando a adaptação deles e  acenando para a volta dos bons tempos. Embora não me agradasse muito, aceitei a incumbência e me transferi para o quarto dois.
Não surtiu grande efeito. Logo descobri que eram todos antigos fregueses da Fundação, tinham passado por várias de suas unidades. Portanto, portadores de vícios difíceis de saírem com algumas palavras ou conselhos. 
O Chagas e o Valdecir sugeriram que deveríamos alugar uma grande casa onde todos morariam juntos como uma grande família, dando continuidade ao nosso convívio. Ideia bonita e interessante, se não fosse todo mundo um bando de desempregados ou subempregados. Eles mesmos tinham deixado seus empregos. Chagas trabalhava em obras e Valdecir era funcionário de um hotel. Ambos abandonaram seus empregos e viraram camelôs, influenciados pelo sucesso do Fábio do Biscoito que, diziam, ganhava muito dinheiro com essa atividade. Armaram barraca na Rua Uruguaiana e passaram a trabalhar.
Eles escolheram trabalhar justo na rua mais visada pelos fiscais da prefeitura. Depois de terem suas mercadorias apreendidas várias vezes e viverem correndo da polícia, desistiram.
Da turma, os poucos empregados que tinha era o Domingos, um mato-grossense que trabalhava no Mac Donald’s da Rua São José, e o Valdemir numa confeitaria na Glória. Eu  ainda estava trabalhando apenas no jornal, aos sábados.  Mesmo assim partimos para procurar a tal casa. Nela moraria eu, Chagas, Valdecir, o Menor, o Paulista II, o Domingos, o Valdemir, dentre outros. Até o Geraldo e a Lúcia fariam parte da turma. Diante das dificuldades normais nesses casos, como fiador ou altos depósitos, o entusiasmo inicial foi acabando. Até que a história terminou no esquecimento.
No meio de todo aquele caos, uma novidade me devolveu a esperança no futuro.  Após uma procura que durara mais de dois meses, eu tinha  conseguido um emprego. Carteira assinada, salário compatível com a função, etc.  Fui contratado pelo síndico Eliseo López y López, um espanhol, como auxiliar administrativo no Condomínio do Edifício Catete Center, no Flamengo. Não se tratava de uma empresa propriamente falando, era uma administração própria, mas o prédio era muito grande, cerca de quinhentos e vinte apartamentos, e tinha bastante serviço. Na minha função incluiria cuidar do departamento de pessoal, além de auxiliar o administrador do prédio, Alberto Pereira.
Dessa vez, lembrando os ensinamentos recebidos no Albergue da Harmonia, resolvi não tocar no assunto “Fundação Leão XIII”. Quando perguntado sobre onde morava criei uma tia que não existia e disse morar com ela. O endereço era o mesmo onde funcionava o Projeto, ou seja, Rua Dom Pedro I, número 28. Colou. Assim, 02 de dezembro de 1991 foi o meu primeiro dia de trabalho. E era tudo que eu precisava para poder sair do Projeto e retomar a minha vida.
Isso ainda demoraria um pouco. Se antes pensava que ao arrumar um emprego todos os meus problemas estariam resolvidos, agora, de emprego arrumado, sabia que não era bem assim. Precisava passar pela experiência de noventa dias e torcer para me manter empregado. Só assim eu poderia resolver de vez o meu problema de moradia. Por isso, decidi ficar no Projeto até que isso fosse possível.
Aproximava o Natal de 1991. Apesar de todas as tentativas, nada de novo acontecia. O convívio era cada vez mais difícil. Cada novo interno que chegava era mais um problema que se anunciava.
Isabel teve a ideia de fazermos uma festa de natal. Na verdade, um almoço feito pelo Jorge Cozinheiro, com a ajuda das cozinheiras. Jorge Cozinheiro estava de volta depois de ficar morando uns tempos fora.
Antes foi apresentada uma peça natalina escrita por mim com a participação do pessoal grupo que ainda estava lá e um coral, também de internos, que cantou a tradicional Noite Feliz.
O coral foi ensaiado e comandado por um interno que tinha chegado a pouco conhecido como Professor, dado ao fato dele estar sempre carregando livros. A Coordenadora Carmem estava presente, além dos funcionários, assistentes sociais e internos. Tudo muito simples, mas de bom gosto, fazendo lembrar os bons dias.
A novidade foi a presença do Manoel, também chegado naqueles dias. Manoel era o sergipano que conheci no albergue da Harmonia, aquele que vivia recitando Shakespeare. Aliás, ele tinha uma coleção de obras completas do autor de Romeu e Julieta, ricamente encadernada, de fazer inveja. Dizia que tinha comprado num sebo.
O dado triste da comemoração de Natal ficou por conta do Sérgio. Ele era o interno do quarto cinco que saíra para morar no emprego. Ele estava de volta. Só que completamente transformado e transtornado. Estava se drogando novamente e vivia jogado por ali. Isso dava a entender que logo viraria um mendigo.
Logo depois do Natal alguns internos começaram a definir seus destinos. Valdecir  resolveu retornar para Osasco, em São Paulo. Tinha intenção de voltar para a esposa e os filhos que abandonara ao vir para o Rio de Janeiro. Paulista II, o Paulo, voltou para a casa da mãe na capital paulista. Paulista II era uma figura engraçada, um verdadeiro menino grande. Chegou ao Projeto no mesmo dia que eu. Fomos, na verdade, atendidos ao mesmo tempo. Tinha um sotaque caipira muito forte, embora afirmasse que era natural da capital. Afirmação confirmada pelo Chileno, que dizia conhecer sua família. Paulista II, chamado assim por causa do Valdecir, que era também apelidado de Paulista, gostava de construir balões. Chegou a construir um no Projeto que subiu aos céus para sua alegria e admiração dos internos.
Quando falavam que aquilo era proibido e que podia provocar incêndios, ele retrucava dizendo que  um balão subindo era a coisa mais bonita do mundo e que isso justificava tudo.
Chagas, Menor, Domingos, também conhecido como Mec, e eu fomos levá-los à rodoviária Novo Rio. Os dois viajaram no mesmo dia e hora. Na despedida, bateu uma tristeza. No fundo, era a certeza de que dificilmente voltaríamos a nos encontrar.
Num telefonema reatei o contato com a minha família. Falei com a Eloisa, minha irmã mais nova. Não foi fácil explicar os meses de ausência. Para ser sincero, não tinha noção de ter ficado tanto tempo sem dar notícias. Talvez pelo fato de que aconteceram tantas coisas, eu não tenha sentido o tempo passar. Ainda assim não abri o jogo. Inventei algumas desculpas e mesmo levando muita bronca decidi nada dizer sobre o que tinha vivido nos últimos tempos. Eles não iriam entender. Nem eu  mesmo entendia.
Veio o ano-novo.  O ano de 1992 chegou trazendo chuvas torrenciais e mais problemas para o Projeto. O prédio que havia em frente, uma construção de dois andares, do início do século, onde funcionava a oficina do Ruço, teve suas estruturas abaladas com as chuvas. Parte do segundo andar começou a cair e atingiu a rede elétrica, fazendo com que o fornecimento de energia fosse cortado. Ficamos no escuro. Durante alguns dias esperou-se que a Fundação resolvesse o problema e nada. Aí o prédio desabou sobre a parte da frente do Projeto obstruindo os quartos um, dois e três.  A Defesa Civil condenou a casa e isolou toda a área. Passamos a ser impedidos de entrar.  Só de um em um para pegar os objetos pessoais.
O serviço social, sob o comando da Cláudia, reuniu todo mundo e fez a confirmação que todos já esperavam. A partir daquele dia, o Projeto deixava de existir definitivamente. Todos seriam transferidos de volta para o albergue da Praça da Harmonia.
A maioria dos internos aceitou a transferência sem grandes problemas. Entraram no ônibus da Fundação e partiram sem se darem conta de que voltavam para o começo. Alguns até se divertiam com a situação. Para eles, estar ali ou em qualquer lugar era a mesma coisa.  Cheguei à conclusão que tinha acabado para mim. A partir dali andaria com os meus próprios pés. Era agradecido à Fundação Leão XII por tudo, mas não tinha volta.
Mesmo com essa decisão, aquele não deixou de ser um momento de muita apreensão e medo. Embora, de certa forma, esperado, o fim do Projeto acabou por me pegar de surpresa. Não só a mim, mas a quase todos que tinham intenção de dar outro rumo para suas vidas. Juntamente com Chagas, Menor, Domingos e outros, eu passei um ou dois dias nos escombros da casa escondido do pessoal da Defesa Civil, que fazia plantão no local. Nós utilizando os dois quartos que tinham ficado intactos. Nesse meio tempo o Chagas e o Menor se mudaram para um barraco numa favela na Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
Fizemos, eu, o Domingos e o Valdemir, um trato, na passagem de ano, de dividirmos o aluguel de um apartamento.  Foi nas areias da praia de Copacabana logo após o espetáculo dos fogos que acontece todos os anos. Meu prazo no Projeto já tinha vencido. Só estava ainda ali pelo meu bom relacionamento com o serviço social. Como os três estavam empregados, achamos que não seria difícil dividir um aluguel. Porém, já estávamos procurando há um mês e tínhamos encontrado muita dificuldade. A ideia de um apartamento conjugado teve que ser substituída. Não tínhamos fiador e nossas condições só davam para um quarto. E foi o que fizemos. Alugamos um quarto numa casa de cômodos. Um sobrado na Rua do Senado, no centro da cidade.
O lugar não era muito bom. Tratava-se, para ser claro, do que popularmente chamavam de uma cabeça de porco. Ali viviam em quartos minúsculos, travestis, prostitutas, trabalhadores, ladrões, desocupados e famílias inteiras. Porém, foi o único lugar que nosso dinheiro deu para pagar.
Contra a minha vontade, mesmo botando em risco o meu emprego, tive que abrir o jogo com o patrão. Relatei a minha real situação e, para minha surpresa, ele aceitou me dar um adiantamento para eu pagar minha parte no depósito do quarto.
E num sábado ensolarado, após vários dias de chuva, deixamos o Projeto. Apenas eu e o Domingos. Valdemir, como eu viria saber depois, aceitou voltar para o albergue da Harmonia. Antes de partir, dei uma última olhada nos destroços da casa e não pude conter a emoção. Por mais de seis meses eu tinha vivido ali. Foram dias difíceis, mas também dias de alegria. Ali eu sonhara com a possibilidade de que aquele “Projeto Casa de Acolhida” vingasse e pudesse ser o ponto de partida para outras casas que viriam a beneficiar tanta gente, ali eu tinha encontrado apoio e amigos, ali eu tinha readquirido a fé na vida e era dali que eu partia para o ousado passo de voltar para a vida tida como normal.
A certeza do bem que aquele lugar me fez, me deu forças para seguir em frente. Junto com o Domingos, atravessei a rua disposto a escrever um novo capítulo da minha vida. A  partir daquele dia até a sua demolição o “Projeto”, ou o que restou dele, seria habitado por Baiano e seus garotos.
Baiano, por algum tempo, acreditou que tinha conseguido nos expulsar e que o espaço seria apenas dele e de seus garotos.
O tempo passou e consegui me manter estável no mesmo emprego, com isso tive de volta o meu convívio social. Depois de morar no sobrado da Rua do Senado, 106, por mais de um ano, me mudei, ainda na companhia do Domingos, para um apartamento conjugado no Flamengo.
Pouco depois seria a vez de Domingos ir embora. Ele desempregou-se  e resolveu voltar para São Félix do Araguaia, sua terra natal, no interior do Mato Grosso.
Ainda não consegui realizar o meu grande sonho de poder viver exclusivamente da profissão de ator, porém, já tenho dado alguns passos nessa direção.


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